O time que aprendeu a perder

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Passadas terríveis 24 horas regulamentares de luto pós-derrota, período cuja etiqueta da crônica-esportiva-torcedora reza que se evite falar/postar merda, acabou meu silêncio contrito. E depois de passar a quinta-feira toda lendo aqueles que não são tão fissurados quanto eu em códigos de comportamento circunscritos aos autores de um subgênero literário, me sinto bem mais à vontade para contribuir para o projeto coletivo Adube o Mundo pela Internet. Prometo ser breve, já que sobre derrotas do Flamengo, assunto desagradável por excelência, salvo as surpreendentes, injustas ou exageradamente merecidas, a gente não deve se estender demais.

Flamengo jogou mal? O Flamengo jogou bem mal. O Flamengo foi roubado por algum juiz safado? Foi muito roubado por um juiz muito safado. O pênalti inexistente marcado contra o Flamengo foi validado pelo árbitro de áudio, porque se houvesse um vídeo qualquer o cara não podia marcar. A arbitragem então alterou o resultado da partida? De jeito nenhum, o Flamengo perdeu porque não jogou com o pau duro o suficiente pra ganhar de um time que também queria ser campeão.

Time do Flamengo vice-campeão da Sul-Americana 2017 - Foto: Gilvan de Souza
Ora, esse time do Flamengo perder no duelo das vontades não chega a ser surpreendente, já aconteceu uma porrada de vezes desde 2016. É da natureza de muitos de seus protagonistas. Diego Ribas é o seu maior símbolo. Dando entrevista na beira do gramado Diego é de uma elegância, de uma objetividade tão desemocionada ao comentar mais um título perdido. A expressão é tranquila, as palavras são medidas, o tom é respeitoso, a fleuma, o meio sorriso confiante de quem fez tudo o que pode. Diego, o chamado homão da porra, e seu impecável sotaque de media training é um veículo perfeito para qualquer produto. Desde que não sejam títulos. Hoje o torcedor do Flamengo pode bater a mão no peito e bradar: Temos um time que aprendeu a perder! Aprendemos a perder! Perdemos como ninguém sabe perder nesta terra de bugres!

Não é que o Flamengo não perdesse antes, perdia até muito. Mas perdia na selvageria, se rasgando todo, os jogadores saíam de campo putos, aos berros, não queriam dar entrevista e quando davam, geralmente com problemas de dicção, xingavam o juiz, o amiguinho do outro time, diziam palavrões. Não era elegante como agora que são todos muitos profissionais e acostumados à imprevisibilidade dos resultados, que não diminuem os nossos méritos e numa visão mais ampla só comprovam a qualidade do trabalho que vem sendo realizado, blá, blá, blá, bleargh!

Perder títulos é do jogo. Faz parte da experiência que o esporte proporciona. Mas alguém precisa avisar pra esses caras que rubro-negro não liga muito se perder uma final de Carioca. Carioca é que nem ônibus, perdeu um vem outro logo depois e nóis panha. Perder Copa do Brasil é mais grave e já começa a preocupar a quantidade de vices colecionados. Tolera-se. Agora perder final de competição internacional é que nem perder parente. É tragédia! Nego tem que sofrer a dor da derrota como a torcida sente, porque tal comportamento não pode virar hábito. E chega de falar da porra dessa derrota.

Falemos da derrota do Flamengo fora do gramado, com a barbárie instalada no entorno e nas entradas daquele estádio que ficou no lugar do Maracanã. Vou poupar o leitor do relato das peripécias que enfrentei pra exercer o simples direito de assistir a um jogo pelo qual paguei 120 pila pelo ingresso. Só digo que não ficava com tanto medo de morrer no Maracanã desde 6 de dezembro de 1995. A combinação de milhares de torcedores em pânico, pouca e despreparada polícia, hostes de vagabundos dedicadas ao roubo e à invasão e a ausência de um planejamento de policiamento minimamente eficiente para o evento quase faz do ex-Maraca um Heysel tropical.

Fazer previsões do passado é uma modalidade de desonestidade intelectual, mas é muito tentador. Mas não era preciso nenhum dom de premonição ou talento pra futurologia para ter uma forte e justificada desconfiança de que grandes aglomerações populares em um estádio superfaturado concedido através de uma licitação suspeita por um governo corrupto para uma empresa inidônea operar jogos de futebol em um estado cuja PM, por causa de sucessivos governadores ladrões está, como todo o conjunto dos servidores estaduais, fudida e mal paga, um dia ia acabar dando merda. Tanto que deu. E quem se fodeu, como sempre, foi o torcedor do Flamengo.

O Flamengo demorou pra soltar nota oficial e a nota foi ruim. Não deixou clara a sua responsabilidade de organizador do evento, só apontou os erros dos outros e não se desculpou pelos próprios erros. Que é uma orientação típica de departamentos jurídicos, nunca admitir que errou pra não facilitar o caminho para possíveis processos. Frescura de jurídico. Como se alguém no Brasil tivesse a cultura, o culhão ou a necessária proteção da Justiça pra processar o próprio clube, ou a PM, ou mesmo a Odebrecht, concessionária do bagulho. Nem cavalo aguenta. Se houvesse esse medo de que o publico os levassem às barras dos tribunais os responsáveis pelo evento, Flamengo à frente, jamais dariam esse vacilo de colocar as nossas vidas em risco.

Nota oficial com 12 parágrafos é muito grande pra ler e adianta muito pouco pra arrefecer a indignação e a sensação de que o Flamengo está meio que cagando pra segurança do torcedor. O Flamengo tem em sua diretoria um cara lá só pra cuidar de estádios, que devia ter sacado que as chances da Policia Militar, que não tá conseguindo fazer bem o seu trabalho em quase nenhum lugar da cidade, não conseguir fazer um bom planejamento de segurança para o evento mais bombado do ano eram enormes. Descomunais. E mesmo assim ninguém contestou o planejamento apresentado, aceitou o que a PM quis entregar e segue o jogo. Erro fatal. Revolta popular justificada.

Pelo menos eu vi o Bandeira pedir desculpas na pessoa física, numa entrevista na TV. Mas pedir desculpas não adianta nada. Desculpas já não tem uma cotação muito boa, é papel de segunda linha. E ontem a sua cotação caiu ainda mais. Um dos maiores responsáveis pela destruição do Maracanã e de sua cultura sexagenária, e por todas as desgraças advindas da maldita roubalheira de sua reforma e concessão, o condenado vascaíno Sérgio Cabral, em audiência no Tribunal Federal pediu desculpas à população fluminense por roubar. Muita cara de pau.

Tomara que ninguém queira mesmo processar o Flamengo. Mas se o clube não mudar absolutamente tudo na forma como vem organizando essas partidas essa dor de cabeça será inevitável. O Flamengo não pode economizar recursos ou medir esforços para preservar a integridade física de cada torcedor seu, principalmente dos que deslocam seus corpos até os estádios. Todos nós somos Flamengo até morrer, sendo ou não sócio-torcedor, mas que o clube não cometa jamais o erro de levar isso ao pé da letra.

Mengão Sempre

ARTHUR MUHLENBERG

Todos nós somos Flamengo até morrer, sendo ou não sócio-torcedor, mas que o clube não cometa jamais o erro de levar isso ao pé da letra.


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