Quando o Flamengo precisa, a Base decide

E na hora de decisão, na hora em que o Flamengo mais precisa ser Flamengo, esse tipo de coisa com certeza importa muito.

ESPN FC: Por João Luis Jr.

Por mais que jogadores possam ir e vir, por mais que técnicos possam durar dez anos ou dez dias, por mais que presidentes possam deixar um legado que dure gerações ou penhorar até a chuteira dos atletas sub-15 e destruir completamente tudo em um mandato, cada clube de futebol tem em si mesmo uma espécie de DNA, uma série de características que o distinguem dos outros, além apenas das cores da camisa, da localização da sede, do quão bem composto foi o hino.

Alguns clubes são marcados pela raça; outros, pelo futebol vistoso; alguns, por uma ideia de elite ou seletividade; outros, exatamente pelo contrário, por serem absurdamente populares. Alguns forjam sua identidade na ausência de títulos; outros, na abundância. Uns são diretamente ligados ao local de sua fundação; outros, se tornam tão grandes que uma cidade ou um estado são pequenos demais para conter seu tamanho.

Lucas Paquetá em Junior Barranquilla x Flamengo - Foto: Gilvan de Souza


No caso do Flamengo, ainda que as características sejam inúmeras e complexas, já que temos na nossa identidade desde a classe de um Zico até a raça de um Rondinelli e a pura insanidade de um Junior Baiano, é fácil notar alguns claros traços definidores. Amamos os heróis improváveis, desde um inesperado Brocador até um já quase aposentado Petkovic, da mesma forma que sempre somos salvos pela nossa base, seja na nossa geração mais brilhante que foi campeã mundial em 1981, seja naquela geração não tão marcante que ganhou a Mercosul de 1999 com um gol do atacante Lê. Sim, o Lê. É relativamente ok não lembrar dele, tudo bem.

E foi esse DNA que veio à tona nessa noite de quinta-feira, contra o Junior. Quando tudo parecia perdido e o Flamengo se viu obrigado a escalar no gol o reserva do reserva, César decidiu ser o mais improvável dos heróis, com não apenas uma atuação sólida como também uma defesa de pênalti, manobra essa que nós nem lembrávamos que outro goleiro além de Diego Alves era legalmente autorizado a realizar.

Numa equipe de contratações milionárias, medalhões que não chamam a responsabilidade e reforços que mal conseguem lugar no banco de reservas, foi a base, representada por alguns garotos e um veterano, que decidiu a partida. César, o goleiro que saiu da reserva da Ferroviária para ser herói do maior clube do Brasil, Paquetá, o garoto que infernizou a defesa colombiana, Vizeu, o responsável pelos dois gols, e Juan, o zagueiro de 38 anos que já esteve ausente até dos relacionados para o banco, foram as peças mais importantes na conquista de uma vitória que parecia improvável, da qual muitos duvidaram, mas que veio e nos garantiu na final de um torneio internacional após um jejum de 16 anos.

E ainda que nada esteja ganho e existam não apenas duas partidas de vida ou morte contra o Independiente em busca desse título da Sula - como também um grande duelo contra o Vitória no Brasileirão pela frente -, talvez essa partida seja o mais eficiente lembrete possível para os que comandam o Flamengo que ainda que o destino do clube seja crescer, evoluir, ele nunca vai chegar aonde precisa se esquecer seu DNA. Se esquecer que é popular, se esquecer que é gigante, se esquecer que seus craques, seus heróis, são quase sempre feitos em casa.

Heróis como Vizeu, César, Paquetá e Juan, não tão badalados, sem salários tão altos, sem tantos seguidores no Instagram, têm aquela compreensão do valor do Flamengo, do valor da oportunidade, da importância que cada partida tem num time como esse. E na hora de decisão, na hora em que o Flamengo mais precisa ser Flamengo, esse tipo de coisa com certeza importa muito. E isso ficou claro na noite dessa quinta-feira.


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