Quem pode e quem não pode comemorar a vaga na Libertadores?

Mesmo a vaga na fase de grupos do Flamengo só se torna épica quando se analisa a história de um único jogo.

O GLOBO: Classificação para a Libertadores na ultima rodada é sempre uma candidata a epopeia. Talvez pelo nosso hábito de reagir a esses feitos como a passagem para um clube restrito, algo que não é mais a realidade do principal torneio continental. Obviamente, quem ganhou títulos provou seus méritos, casos de Corinthians, Grêmio e Cruzeiro. Quem brigou mesmo pelo título, casos de Santos e Palmeiras, recebe essa vaga como prêmio de consolação - é esse, afinal, o espírito dessas vagas. Depois do quinto lugar, é tudo acidental.

Generosa em sua distribuição de vagas - que ainda foi turbinada pelo título do Grêmio -, a Conmebol faz a festa dos medíocres. Se obviamente os torcedores têm todo o direito de comemorar, diretorias e comissões técnicas de Flamengo e Vasco não podem usar esse trampolim para bater no peito e afirmar que "estão no caminho certo".

Jogadores e comissão técnica do Flamengo comemorando classificação para Libertadores
Foto: Gilvan de Souza
Mesmo a conquista de vaga na Chapecoense começa a ser excessivamente exaltada, o que na minha opinião é um exagero. A façanha da Chape foi se manter na primeira divisão depois de um imenso processo de luto e reconstrução. A vaga na Libertadores, obtida em oitavo, é fruto mais da sorte e da gentileza da confederação. Mas tudo bem, a Chape não tem culpa de suas modestas ambições serem suficientes para outra jornada americana.

Para quem viu a história das 38 rodadas do Brasileiro, ter São Paulo e Atletico-MG no último domingo sonhando com um pé na primeira fase da Libertadores é um escárnio. Deambularam insistentemente na parte de baixo da tabela e quase saíram premiados entre os melhores da América do Sul. O Atlético-MG ainda sonha com uma vaga caindo no seu colo, caso o Flamengo conquiste a Sul-Americana.

Mesmo a vaga na fase de grupos do Flamengo só se torna épica quando se analisa a história de um único jogo. Não fosse o inacreditavel toque de mão de Uilliam Correa, uma trajetória medíocre no Brasileiro teria ficado no seu devido lugar. A única vantagem é que, para fins pedagógicos, os analistas ficaram livres de explicar uma vaga nos grupos que quase foi do Vasco, que teve um ano infernal do ponto de vista da gestão, com três técnicos, contratações no desespero, perda de mandos de campo, muitas páginas policiais e uma eleição interminável.

Deixar-se anestesiar por esses sucessos fáceis é um caminho para a autonegação. Para quem ficou de sexto para baixo, o melhor é comemorar discretamente e planejar 2018 a jato, antes que a realidade desnude as arrogâncias.

Tamanha facilidade nas vagas também explica por que a torcida do Botafogo considera que Libertadores virou obrigação. Num ano em que oito ou nove se classificam, fica difícil não pensar de outra forma. A esperança pela classificação esgarçou a relação entre torcida e clube, que foi mais do que bonita na maior parte do ano justamente por ter priorizado a Libertadores e largado o Brasileiro. Mas o torcedor quer tudo, e quase sempre lhe dizem que é possível.

São os efeitos colaterais que surgem quando até a mediocridade é premiada. Agora pare e pense no tédio que serão as eliminatórias da Copa quando a Fifa abrir a porteira e a América do Sul tiver direito a sete vagas para dez seleções.


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