Sí, se puede Flamengo

Uma semana para o Flamengo acertar a passada, evitar o oba-oba e entrar consciente no Maracanã.

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

O perfil rubro-negro de 2017 foi construído em cima de uma colcha de retalhos de momentos tão irregulares que não permitiram ao Flamengo que se formatasse de uma só maneira. Há distintas facetas em uma só equipe. É difícil acertar a passada mesmo com uma temporada de trabalho nas costas. Em Avellaneda, o time de Reinaldo Rueda não conseguiu. Na derrota de 2 a 1 para o Independiente pelo jogo de ida da final da Copa Sul-Americana, o time que deixou a Argentina transpareceu uma sensação ambígua. Por um lado, deixou a certeza de que a decisão ainda está bem aberta. Do outro, o pensamento de que a equipe necessita até de ajustes emocionais para se preparar para o jogo de volta. Tarefa dura, mas não impossível.

Réver comemorando gol com jogadores do Flamengo contra o Independiente - Foto: Gilvan de Souza
Pois, sim, o Flamengo demonstrou no estádio Libertadores de América uma fragilidade emocional típica do clube em anos recentes em competições sul-americanas. Calma, caro leitor. Não precisa franzir o cenho, abandonar estas mal traçadas linhas. Fragilidade emocional não significa falta de postura ou de vontade. O Flamengo teve ambas na Argentina, uma evolução em relação à Libertadores deste ano, por exemplo. Mas lembre exatamente o campeão da maior competição da América do Sul, o Grêmio. É um time emocionalmente preparado, pronto para dominar o adversário, impor seu jogo e aproveitar qualquer momento de fragilidade do rival para determinar o resultado da luta pela taça. Contra o Lanús, na finalíssima, foi assim. Abriu 1 a 0, continuou a impor o seu jogo e fez o segundo, sacramentando a conquista da América.

Reinaldo Rueda montou o Flamengo em um 4-2-3-1, ainda com a tendência dos últimos jogos. Everton Ribeiro sai com frequência da direita para o centro, abrindo espaços para as subidas de Arão, enquanto Diego dá passos para a esquerda e tenta infiltrar na área. Paquetá pela esquerda, o Flamengo do início da partida levantou a cabeça, tocou a bola e promoveu dificuldades ao Independiente. Com minutos, a prova de que a tática estava correta. Falta em Paquetá pela esquerda, cobrança caprichada de Trauco e um voo lindo de Réver para tocar de cabeça no fundo da rede. Início dos sonhos, 1 a 0. Caberia aí ao Flamengo colocar a partida debaixo do braço, manter o jogo de imposição e tentar ampliar a vantagem para a volta. Mas não.

A fragilidade emocional que invade seguidos times rubro-negros em momentos de grande decisão pela América do Sul tomou conta. Talvez por opção. Talvez influenciado por um recuo exigido por Rueda. Certo é que o 4-2-3-1 se transformou em um 4-4-2 com Diego e Vizeu à frente. O Independiente adorou. Entendeu como senha para reagir e praticar tudo que era tramado pelo técnico Ariel Holan. É um time muito organizado. A troca de posições é intensa. Barco, o garoto prodígio, está na esquerda, depois no meio e na direita. O mesmo ocorre com Meza, centralizado e caindo aos dois lados. Nesse quadro, a aposta foi em uma fragilidade clara rubro-negra: as costas de Trauco. Por ali, Meza, Benítez e Gigliotti arriscavam tabelas e infernizavam o Flamengo, dependente de boas rebatidas de Réver e Juan. A massa da arquibancada cresceu na mesma proporção dos cruzamentos rasteiros vindos dos lados. O time carioca não se achou mais.

Willian Arão insistia em tocar de primeira, errando passes em demasia. Cuellar corria desorganizadamente. O time insistia em lançamentos para Vizeu, que batiam e voltavam nos pés rivais. Méritos da troca de posições do meio do Independiente, que começou em um 4-1-4-1 e rapidamente se formatou em um 4-2-3-1 ao enxergar o recuo rubro-negro. Uma movimentação tão rápida que por momentos se torna, de fato, difícil acompanhar, principalmente com a subida dos laterais. Quando é feita a leitura de uma das ações, parecendo entender o mecanismo que deveria se repetir, outra opção surge. Cabia, então, ao Flamengo segurar a bola, respirar, valorizar a posse. Não foi o que aconteceu.

Faltou aí a maturidade para disputar uma final internacional na casa adversária. Mesmo com cascudos como Diego em campo. Esfriar o time rival, segurar a bola. Em vez disso, Everton Ribeiro, figura apagadíssima mais uma vez, arriscava jogadas individuais. Em uma tentativa de toque de letra, a perda de bola para Sánchez Miño encontrou a defesa exposta, desorganizada. Gigliotti entregou para Meza na intermediária e correu para a área. O camisa 8 achou Benítez na área, que deu corte seco em Réver e rolou para Gigliotti bater no canto esquerdo de César. 1 a 1.

Seria necessário voltar ao jogo no segundo tempo. Aproximar os volantes, consertar a marcação às costas de Trauco, trabalhar a bola. Deixar a ansiedade para o Independiente. Mas o Flamengo voltou igual. O time da casa, diferente. Horan inverteu Gastón Silva, na quarta zaga, para a posição de Tagliafico, lateral-esquerdo. E atacou em bloco. Inverteu o lado de ataque, buscando a pouca efetividade de Arão e Everton Ribeiro, complicando Pará sozinho. Por ali, Silva avançava até a ponta da área, buscava o centro e chegou a finalizar com perigo após Gigliotti escorar a bola em bom pivô. O gol da virada amadurecia. O Flamengo não reagia.

Por isso não foi grande surpresa quando Barco passou sem incômodo por Arão e Everton Ribeiro, colados, e cruzou tranquilamente para o centro da área, onde Meza emendou de primeira no canto direito de César. 2 a 1. Um golaço que virou o jogo e convenceu o Flamengo a mudar. Paquetá saiu para a entrada de Everton. E o Independiente se encolhia ao 4-4-2, chamando o Flamengo ao seu campo, deixando apenas Barco e Gigliotti avançados. Era claramente uma estratégia. Queria o contra-ataque fatal para finalizar o 3 a 1 e encaminhar a taça. O protagonismo do jogo virou.

O Flamengo surpreendeu. Em outros tempos, provavelmente sucumbiria e oferecia mais gols ao rival. Mas em vez disso abandonou a fragilidade emocional e pôs-se novamente em campo. Passou a trocar passes, avançar em conjunto. Mostrou que sabe como agredir o Independiente. Rueda, tardiamente, colocou Vinicius Junior no jogo, em busca de velocidade. Mesmo com o time argentino já bem fechado, sem tantos espaços, o garoto era boa opção de drible. Diego, talvez cansado, foi ao banco de reservas. Mas a surpresa era boa para os rubro-negros. Mesmo na reta final da temporada, com jogos a cada três dias, o time, exceção feita a Everton Ribeiro, não demonstrou sinais claros de cansaço. Girava a bola, tentava furar a parede de dois blocos de quatro homens imposta por Ariel Holan.

Talvez não tenha empatado porque, no fim, Amorebieta derrubou um Everton que fatalmente finalizaria sozinho na frente de Campaña. O vermelho era óbvio, mas o árbitro paraguaio economizou. O jogo que parecia controlado para o Independiente se tornou aflitivo no fim, com um Flamengo girando a bola e trabalhando rápido pelos lados, com cruzamentos rasteiro. Deu ao Independiente seu próprio veneno. Mas não houve tempo para voltar para casa sem desvantagem.

Há um otimismo exagerado e injustificado entre torcedores rubro-negros em redes sociais para o jogo de volta no Maracanã diante de uma derrota no jogo de ida. Impossível desconsiderar seguidas frustrações recentes do clube em competições sul-americanas com a casa cheia. América do México, Olimpia e León ainda pulsam na mente dos mais atentos. E a ferida do amargor no ano do centenário, contra o próprio Independiente, ainda existe. O Flamengo, no entanto, comprovou que pode agredir e complicar o rival argentino.

Mas também pode se deixar complicar, sem autoconfiança para impor seu jogo. Diante de sua gente, em sua casa abarrotada, não há justifica para ter tal atitude. Há uma semana para remendos. Uma semana para redefinir a temporada. Uma semana para encerrar um jejum de 18 anos. Uma semana para o Flamengo acertar a passada, evitar o oba-oba e entrar consciente no Maracanã. O tamanho do prejuízo em Avellaneda será medido na temperatura do time no Maracanã. Sí, se puede.


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