Um reencontro com a identidade rubro-negra

Seu jeito de pensar. Seu jeito de ver a vida. De vermelho e preto. Nada mais Flamengo.

CHUTE CRUZADO: Um tapa. Só. Chute seco, rasteiro. Traiçoeiro. Bastou um tapa para mudar o rumo da bola. Da prosa. De uma história. De um jogo. De uma classificação. Com cinco minutos, César foi ágil para buscar a batida de Mier em meio a vários obstáculos. Caiu, rápido, para afastar a bola na área e avisar a todos. Tinha passado no primeiro teste. Mostrou confiança. Indicou que o Flamengo iria guerrear. Iria, enfim, entender um pouco de sua História em 2017. Entre milhões. Entre medalhões. O Flamengo foi obrigado a beber de novo de sua própria fonte. Recorrer a quem conhece a identidade do clube. É daquelas ironias da bola. Um time cobrado para ser formado por homens voltou a uma final sul-americana depois de 16 anos graças a seus meninos.

Natural que todas as dúvidas sobre a capacidade de César de encarar um jogo desse porte encharcassem o noticiário. Quarto goleiro. Emprestado e quase renegado. Dois anos sem atuar em uma partida por inteiro. A fé dependeria de um sinal. Com cinco minutos, foi dado. Aquele tapa para salvar a batida de Mier após rolar de falta de Chará foi o suficiente. Até demais. Pois o Flamengo contrariou sua História e a própria capacidade ao atuar de forma tão recuada. A intenção era o 4-2-3-1 de sempre. Na prática, o time se recolheu ao 4-4-2, pois era espremido em seu campo pelo Junior. No 4-2-3-1, o time colombiano precisava da vitória e não teve problemas em jogar adiantado. E infernizava o Flamengo com Chará.

Vizeu e Rodinei comemorando gol pelo Flamengo - Foto: Gilvan de Souza


O atacante é rápido, driblador e insistente. Chato. Um pesadelo para qualquer marcador. Trauco o acompanhava de perto, o que por vezes complicava a defesa. Quando Chará não buscava a ponta e tentava cair ao meio, Trauco o acompanhava e abria espaço para as subidas de Murillo. Então outro menino entrou em ação. Um dos méritos de Reinaldo Rueda no Flamengo é ter, de fato, apresentado Lucas Paquetá ao futebol profissional. O garoto preenche o orgulho do torcedor por não se entregar. Marca, belisca. E joga. Tem vontade de atacar. Tem técnica. Toques rápidos, cabeça erguida. Era ele a grande figura do time no primeiro tempo.

Não se restringia ao lado esquerdo. Caía por dentro, voltava ao campo defensivo para auxiliar Cuellar. Parecia claramente saber o tamanho do que estava em jogo. Da última vez que o Flamengo foi campeão internacional, o meia somava apenas dois anos. Quase uma vida.

Mas o Junior também jogava a sua na Sul-Americana, diante de um estádio lotado. Em desvantagem no confronto, continuava a rondar a área rubro-negra. Com perigo. Com constância. Tinha a posse em quase 70% do tempo. Girava o jogo, buscava Chará, tentava encontrar Téo Gutíerrez dentro da área. Mostrava ansiedade. E tentava testar César. Não foram poucos os arremates de fora da área. Mas o goleiro campeão da Copinha em 2011 tinha ali a sua noite com a camisa do Flamengo. Estava seguro, eficiente. Fez a torcida esquecer por instantes as atuações temerárias de Alex Muralha, desta vez um mero espectador no camarote.

Sem o gol, a ansiedade do Junior aumentou em Barranquilla. E o time se desorganizou, diminuiu o ritmo da marcação no meio. Cedeu mais espaços ao Flamengo. Mas os experientes Diego e Everton Ribeiro estavam irreconhecíveis. O camisa 7 buscava mais o centro do que em outros jogos. E enfim chegava ao lado esquerdo, obrigando Paquetá a ficar mais avançado. Estava mal tecnicamente. Talvez consumido pelo cansaço da temporada e ainda impactado pelo ritmo maior do que no futebol árabe, Everton Ribeiro errava quase tudo. Domínio e passe. Decisão. Trotava. Tinha dificuldades que talvez sejam de difícil solução ainda em 2017. Diego também não via bola. Quando a recebia, prendia além do desejado, não dando sequência. Um camisa 10 apagado, tentando manter apenas posição. Era noite de meninos, não dos homens. E Paquetá, ao arrancar pela esquerda e cruzar na medida para Vizeu ater nos pés de Viera, mandou o recado do segundo tempo.

O Junior voltou diferente, com Ovelar centralizado na área. Precisava de gols. Sacou Mier e pôs Téo Gutíerrez para circular na intermediária. Cuellar se desdobrava para acompanhá-lo, já que Arão, mesmo com o espaço deixado por Everton Ribeiro à frente, não aproveitava para marcar ou compor o campo defensivo. Nem lá, nem cá. O time local pressionava, adiantava ainda mais a marcação. Bafejava no gol rubro-negro. Chará, infernal, tentava uma, duas, três. E cruzava. Rasteiro. Alto. À meia-altura. Rhodolfo, substituindo repentinamente Réver, e Juan viviam boa noite e rebatiam quase todas as bolas. Bastaria ao Flamengo um sopro de jovialidade.

No drible de Chará, a bola encontrou o pé de Trauco. No ótimo desarme do peruano, o toque para Vizeu ainda no meio de campo foi rápido. E pegou a defesa adiantada. Ao driblar de primeira Rafael Pérez, o atacante rubro-negro, geralmente mais pesadão, indicou que a sequência de jogos lhe tem feito muito bem. Carregou a bola com força e velocidade. Só freou para comemorar ao tocar na saída de Viera. Nos pés de um garoto, o Flamengo conseguia, enfim, dar um passo gigante para tentar mais um título sul-americano. 1 a 0. Um grato prêmio a um time tão recuado, que aceitava com facilidade o papel que o Junior desejava lhe entregar.

No berro da torcida, Julio Comesaña passou a empilhar substituições ofensivas. Colocou o bom Díaz pelo lado esquerdo na vaga de González. Sacou Germán Gutíerrez da lateral esquerda, improvisou o zagueiro Arias ali e pôs Barrera no meio. Queria, claro, atacar em bloco, sufocar o Flamengo até que o rival não resistisse mais. Mas o Flamengo, então, resistia. Embora fosse incompreensível tamanha postura defensiva, o time guerreava como Rueda pedira em confronto anterior na competição. Resgatava parte de sua identidade. Às vezes há de ser na alma quando a técnica não sobressai. No desejo dos garotos. Na alegria de ser rubro-negro.

Paquetá, a essa altura, já caíra duas vezes em campo, completamente esgotado. Everton Ribeiro trotava. As forças minavam. Difícil entender qual motivo fazia Rueda segurar as substituições e comprometer a vaga. E, por tabela, o jogo de domingo contra o Vitória, fundamental no Brasileiro. Só após o árbitro ignorar um pênalti de Cuellar em Téo Gutíerrez na área que o técnico, enfim, decidiu pela mudança. Márcio Araújo na vaga de Everton Ribeiro. O time ainda se ajustava quando em uma das tabelas ao redor da área resultaram na infiltração de Barrera, seguida por um carrinho de Arão. Pênalti claro. Seria, ali, a consequência daquele tapa.

Não fosse por aquela boa defesa com minutos de jogo, César talvez não estivesse tão confiante diante de Chará. Olhar fixo, concentrado, o goleiro deixou tudo fora. A pressão em Muralha. A lesão de Diego Alves. O peso de dois anos sem um jogo inteiro, que já resultara em cãibras aflitivas. Na batida de Chará, César voou leve, mas decidido. Não apenas para defender a cobrança à meia-altura em seu lado esquerdo. Ali ele dividiu o capítulo de sua história no Flamengo. De sua própria carreira. Deixou para trás o rótulo de goleiro campeão na base mal aproveitado. Tornou-se o herói improvável de uma classificação a uma final sul-americana após 16 anos. Tirou todas as forças de Junior.

O Flamengo, ali, se reconheceu. Pareceu acordar de um longo sono. Envolto em dificuldades, tem na sua história a característica de se reconstruir de dentro para fora. Em meio a turbilhões o clube se salva com quem o conhece. Com quem o respeita. Com quem aprendeu ainda na base o tamanho da camisa. Uma língua que poucos que chegam de fora têm a capacidade de compreender. O gol de Vizeu, mais um, aos 46 minutos do segundo tempo serviu não só para confirmar a classificação. Somou-se à fábula de César. Confirmou, também, que o Flamengo gosta de raízes. Sorri quando se reconhece no espelho. E consegue o improvável. Quarto goleiro. O atacante quase renegado. Superações de quem conhece o clube. Sua gente. Seu jeito de pensar. Seu jeito de ver a vida. De vermelho e preto. Nada mais Flamengo.


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