Escravos do sorriso

CARLOS EDUARDO MANSUR: Sai de cena Ronaldinho, uma das trajetórias mais ricas da história recente do jogo. Mais do que um futebol sublime, ofereceu alegria, diversão. O mesmo homem  capaz de tomar de assalto os corações de quem ama o jogo, também fez deles gato e sapato. Por quase uma década, viramos reféns da crença de que, um dia, reencontraríamos a plenitude daquele jogo de sonhos.

Em vão. Entender Ronaldinho e suas opções de vida significa, também, compreender os conflitos por trás dos gênios. No fim das contas, humanos.

O que Ronaldinho produziu durante quatro, cinco anos, o coloca no patamar dos maiores de todos os tempos: velocidade, drible, invenção, visão de jogo, habilidade, técnica. Como se não bastasse, um rosto com traços que pareciam ter sido desenhados para uma revista em quadrinhos, em um homem que, com a bola, parecia super-herói. E jogava sorrindo. Unia mágica e carisma. No auge, foi a antítese deste esporte cada vez mais comercial. Seu jogo nos advertia que ainda é possível ter prazer, fazer do futebol diversão. Como disse o jornalista Sid Lowe no jornal inglês “Guardian”, Ronaldinho “era tão bom que fazia você sorrir”.

Ronaldinho Gaúcho no Flamengo - Foto: Gilvan de Souza/Lancepress
Foi tão espetacular que tornou-se difícil desapegar. Ronaldinho nos escravizou e nos fez reféns das memórias. Vivíamos da esperança de que uma centelha reacendesse a chama. Mas o “Ronaldinho de 2006”, como se convencionou definir o jogador que existiu de 2002 a 2006, nunca mais surgiria. Seu depoimento ao site “Players Tribune”, em que o adulto Ronaldinho escreve uma carta à criança Ronaldinho, parece ser a chave. Repetidamente, fala em jogar futebol pelo prazer, pela “sensação de liberdade” que sentia ao ter a bola, driblar, inventar. Um prazer que parece nunca ter perdido. O que não havia mais era a disposição de pagar o preço para manter o corpo pronto a competir no topo.

Neste ponto, ele talvez seja produto do jogo atual. Seja a quantidade de dinheiro envolvida, seja o massacrante alcance global das superestrelas, vive-se o risco da saciedade precoce: do dinheiro, das realizações, da fama ou dos troféus. Ou mesmo um impulso de recuperar o tempo perdido por homens, ainda jovens, que tiveram parte da adolescência e o início da vida adulta podados por treinos, viagens, concentrações ou até privações causadas pela falta de dinheiro.

Ocorre que o futebol arrebatador de Ronaldinho sempre fez o mundo querer mais. Como pedintes, seguíamos cada passo de sua caminhada pós-2006 — uma Copa que deveria ser dele, mas não foi também por causa de uma seleção que não funcionou — à espera de um pouco mais daquele jogador de outro nível, pequenas novas porções de ilusão. E Ronaldinho nos atiçava, oferecia uma dose de sua magia, reacendia esperanças, para logo refugar, nos frustrar. Em agosto de 2010, o GLOBO publicou, após uma grande atuação pelo Milan: “Será que ele vai voltar a ser o que era?”. Quantas vezes repetimos tal indagação? Não apenas porque aprendemos a nunca duvidar dos gênios, mas também porque, no fundo, era o que queríamos.

Um ano antes, Leonardo, então técnico do Milan, ousara arriscar: “Ele está melhorando, está voltando. É agora ou nunca”. Três gols no Siena, dois sobre o Juventus... Ronaldinho nos instigava, nos fazia crer. Mas, de novo, não seria daquela vez.

Veio o Flamengo, vieram bons jogos, um deles antológico: o 5 a 4 da Vila Belmiro, no duelo de gerações com Neymar. Ocasião sob medida para mexer com seu orgulho, seu ego, o que fosse. Ronaldinho foi brilhante naquela noite. O que viria depois?

O país já nem cogitava reviver o jogador “versão 2006”, celebrava cada sinal que remetesse aos melhores dias. Mas o fim da temporada já o mostrava distante da melhor forma, ausente em compromissos, a caminho de uma saída litigiosa que, diga-se, teve parcela de culpa do clube.

Belo Horizonte o recebeu como ídolo, testemunhou momentos fascinantes em 2012, até uma curiosa temporada de 2013 em que o nítido declínio na reta final não impediu a conquista da Libertadores pelo Atlético-MG. Começava o processo rumo a novo divórcio.

Era muito claro que as prioridades já não estavam no campo. A rotina do futebol parecia lhe provocar fastio. Mas a memória afetiva, a fantasia de reencontrar aquele futebol que diverte, tudo isso levou 42 mil pessoas ao Maracanã para vê-lo se apresentar, numa tarde em que sequer jogaria, com a camisa do Fluminense. O desfecho foi frustrante.

O estilo de vida é escolha inalienável. Mas a cada camisa que vestia, Ronaldinho prometia uma volta no tempo ou, ao menos, despertava tal sonho numa legião de saudosos do jogador que sorria e fazia sorrir. O impulso era acreditar, a vontade era de acreditar. A oficialização do fim da carreira, revelada por Marluci Martins no GLOBO, talvez tenha sido a mais honesta das decisões recentes. Na memória, ficam os anos encantadores que fizeram dele um dos maiores da história.


Veio o Flamengo, vieram bons jogos, um deles antológico: o 5 a 4 da Vila Belmiro, no duelo de gerações com Neymar.



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