Flamengo e o desgosto pela Libertadores

Conselho de amigo: cuidado, professor, nas eliminatórias sexto lugar não dá direito à festa não.

ESPN FC: Por Marcos Almeida, do Nosso Flamengo

Tava na cara. A gente se enganava porque torcedor é isso aí. Após fazer um papelão desnecessário, Reinaldo Rueda voltou para se despedir, se tornar a primeira baixa do projeto Fla-2018. Agora treinará aquele já eliminado na fase de grupos, não precisará realizar o feito pelo especialista no assunto. Conselho de amigo: cuidado, professor, nas eliminatórias sexto lugar não dá direito à festa não.

Voltando ao que interessa, nem houve tempo para a Nação matutar muito, sofrer com a ausência de treinadores no mercado. O anunciado logo se confirmou: Paulo César Carpegiani, “prata da casa”, fará sua terceira passagem pelo comando do nosso Flamengo. Um dos tantos técnicos inventados na Gávea, o único campeão da América. Justamente em seu primeiro trabalho, justamente na nossa primeira vez na Libertadores. A única que deu certo. A tradição de revelar “treinadores de Flamengo”, e não de futebol propriamente dito, funciona perfeitamente quando não envolve esse torneio. Carlinhos, Andrade, Jayme de Almeida. Todos lançados pelo Mengo, todos campeões. Nenhum passou perto de uma fase semifinal de Libertadores.

Foto: Gilvan de Souza
Paulo César Carpegiani teve nela seu primeiro título. Aí ergueu o Carioca, o Mundial, o Brasileiro de 82... E praticamente não ganhou mais nada depois. Lá se vão quase 36 anos. Títulos de elite, nesse tempo, a primeira fase do Campeonato Paraguaio de 1994 e o Campeonato Baiano de 2009. Só. Teve trabalhos de destaque, como o à frente da seleção paraguaia na Copa de 1998, ou até o último, no Bahia. Mas não conseguiu se consolidar como um cara campeão longe do Flamengo.

Em sua terceira experiência, de cara o reencontro com a amaldiçoada Libertadores. Aquela que o Flamengo domou de cara e depois só apanhou, frustrando e envergonhando o torcedor. Que seja a hora da virada para o Mengo, para ele, para nós. Que a escrita do vexame se quebre, que o “professor improvisado” volte a triunfar. E olha que não são poucos nas nossas 13 participações no torneio.

Treinadores do Flamengo em Libertadores

1981/82 – Paulo César Carpegiani: Estreante na função de treinador. Campeão em 81, perdeu no Maracanã, para o Peñarol, a partida que valia um lugar na final.

1983 – Paulo César Carpegiani/Carlinhos/Carlos Alberto Torres: Carpegiani deixou o cargo após o primeiro jogo. Estreante, interino, Carlinhos treinou o time nos 2 jogos na Bolívia (1E, 1D). Aí veio o técnico efetivo, mais um estreante. Carlos Alberto Torres debutava na vida de treinador e acabaria conquistando o Campeonato Brasileiro daquele ano. Na Libertadores, duas vitórias de cara, mas que já deixavam o Flamengo eliminado antes da última rodada, quando perdeu para o Grêmio, no Maracanã.

1984 – Cláudio Garcia e Zagallo: Dessa vez, não teve treinador estreante. Abrimos a Libertadores com Cláudio Garcia, ex-jogador do Fluminense que não conquistou grandes feitos como técnico, embora tenha sido o primeiro comandante tricolor no triênio 83-84-85. Fechamos com Zagallo, campeão da Copa de 70. Caímos de novo para o Grêmio, no Pacaembu, na prorrogação, em jogo de desempate por uma vaga na final. 0x0, eles jogavam pela igualdade.

1991 – Vanderlei Luxemburgo: Campeão Paulista com o Bragantino em 1990, era ainda uma aposta, recebendo a segunda chance da carreira em time grande (havia treinado o Fluminense entre 1986-1987). O Mengão caiu para o Boca Juniors, nas quartas de final (2x1 no Maracanã; 0x3 na Bombonera).

1993 – Carlinhos: De novo, o Violino. Agora não mais interino, já consolidado e bicampeão brasileiro. Um dos maiores rubro-negros de todos os tempos. Talvez, na história o único treinador que não era técnico de futebol. Carlinhos era Flamengo, isso bastava. Infelizmente, não conquistou a América. Perdemos nas quartas, de novo, dessa vez para o São Paulo (1x1 no Maracanã; 0x2 no Morumbi).

2002 – João Carlos e Carlos César: Você deve estar se perguntando “quem diabos são João Carlos e Carlos César?”. Acho que nem eles sabem. Na verdade, João Carlos era uma espécie de Zé Ricardo. Veio da base, virou auxiliar, mas se tornou treinador profissional em outros ares, no final da década de 80. Campeão no Japão, recebeu o convite para treinar o Mengo na Libertadores 2002. Aceitou. E fracassou. Demitido antes do fim, entregou um Flamengo humilhado para o então treinador dos juniores, Carlos César. Ficamos na lanterna de um grupo com o futuro campeão Olimpia, Universidad Catolica e Once Caldas. O FLAMENGO FEZ 4 PONTOS NAQUELA LIBERTADORES.

2007 – Ney Franco: O Flamengo eliminou o Ipatinga na semifinal da Copa do Brasil e resolveu buscar o seu treinador para ser campeão. Estreante em time grande, Ney Franco tentou trazer meio time do Ipatinga pra Libertadores do ano seguinte. Passamos em um grupo fácil e perdemos nas oitavas para o Defensor. Uma vareio uruguaio na ida (0x3) e um assalto de Hector Baldassi na volta (2x0). Na minha memória, Renato Abreu chutou duas bolas ao gol no jogo da eliminação, justamente os 2 tentos do Mengo.

2008 – Joel Santana: Substituto de Ney Franco, reergueu o Flamengo. Era para ter o nome de Caio Júnior aqui também, mas o desastre no Maracanã, contra o América-MEX, impediu o Mengo de avançar às quartas de final. Uma das mais trágicas noites da história rubro-negra era também a de despedida do Papai Joel.

2010 – Andrade e Rogério Lourenço: O retorno dos estreantes. Interino diversas vezes, Andrade foi efetivado em 2009, quando levou o Flamengo ao título brasileiro. Na Libertadores, a quase queda na fase de grupos fez com que ele fosse demitido. Assumiu outro estreante, Rogério Lourenço. O Flamengo dos 2 treinadores enfrentou a Universidad de Chile 4 vezes, venceu uma só, quando precisava de uma vitória por 2 gols para não ser eliminado. Não conseguiu.

2012 – Vanderlei Luxemburgo e Joel Santana: Após sofrer para passar pelo sempre saco de pancadas Real Potosí da pré-Libertadores, o Flamengo trocou o Pofexô pelo Papai Joel. Não surtiu efeito, ficamos na fase de grupos. Fez-se a graça eterna dos rivais: a imagem de Léo Moura ouvindo por um fone o gol da eliminação, marcado nos acréscimos pelo Emelec.

2014 – Jayme de Almeida: Estreante, rubro-negro de sempre, deu continuidade à maldição. O Flamengo foi incapaz de ganhar do Bolívar, só não perdeu as duas para eles graças à arbitragem, no Maracanã. Quem faz 1 ponto em 2 jogos contra o Bolívar, não merece passar da fase de grupos.

2017 – Zé Ricardo: Essa aí tá bem recente. Estreante que comemorou duas derrotas e bancou Rafael Vaz. 3 eliminações seguidas na fase de grupos!

13 participações, apenas quatro completamente fugidas da “aposta” ou do “improviso”, comandado por alguém já consolidado como treinador vencedor. A de 82, com o próprio Carpegiani; a de 93, com Carlinhos. As outras duas com Joel Santana, que nunca ganhou nada além do Rio de Janeiro e da Bahia (assumiu o Vasco na reta final de 2000).

O Flamengo apanha na Libertadores e parece gostar disso, ao menos de 2002 pra cá. No atual século, faz por merecer tantos vexames, tantas eliminações. É tanta tragédia que chegou o dia em que somos postos no mesmo patamar do Emelec, clube que só fez mal a um brasileiro, na história: o Flamengo. Todo o respeito ao campeão equatoriano, mas fosse qualquer outro brasileiro já classificado à fase de grupos no nosso lugar, ninguém diria que é uma chave tão difícil.

 “River Plate e Grêmio/Corinthians/Palmeiras/ Santos/Cruzeiro são superiores, os dois têm a obrigação de se classificar”. Não temos porque o Flamengo se prova, ano após ano, incapaz de ser tachado como favorito a qualquer coisa, em âmbito continental.

Carpegiani chegou falando no respeito ao hino, ao “Vencer, vencer, vencer”; ao mantra “Craque o Flaemengo faz em casa”. Ressaltou o hoje moderno 4-2-3-1 praticado por ele no Esquadrão de Ouro de 1981; disse que chegar bem não basta, tem de ser campeão.

Carpegiani vem para disputar a quarta Libertadores de sua carreira de treinador. Que o histórico dele fale mais alto que o nosso. Que, juntos, construamos uma nova tradição. Tá na hora de pegar gosto pela Copa.




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