Perspectivas diferentes para Flamengo e Vasco

O GLOBO: Por Marcelo Barreto

Meu amigo Gralha, o rubro-negro desesperado, não se mobilizou muito para o Flamengo x Vasco de sábado. Talvez porque, com o carnaval chegando, ele já ligou o modo Beija-Flor. Deve ter se metido em algum dos blocos que pararam a cidade, porque em nenhum momento do insosso 0 a 0 me ligou com sua cobrança de sempre:

— Cadê a espanholização que me prometeram?

Em 90 minutos, a distância entre dois projetos de futebol pode mesmo se anular. Mas um pouco de perspectiva pode trazer um olhar diferente.

Flamengo e Vasco terminaram a temporada de 2017 com sentimentos contraditórios. O alto investimento rubro-negro gerara a expectativa de grandes conquistas, mas o único troféu erguido foi o do Campeonato Carioca. Nem o fato de o time ter chegado a outras duas finais amenizou a sensação de decepção que já se arrastava desde a eliminação na primeira fase da Libertadores — afinal, foram três empates e uma derrota nos jogos decisivos. Enquanto isso, o desacreditado projeto cruzmaltino terminava não em luta contra a Série B, como se imaginava, mas em vaga na pré-Libertadores — confirmando a previsão do então presidente do clube, recebida como bravata no início do ano.

Marlos Moreno em Flamengo x Vasco - Foto: Gilvan de Souza
É o ciclo do futebol brasileiro: para público e crítica, cada resultado define o sucesso ou o fracasso de todo um projeto. Num país em que é costume dizer que não se faz carreata para balanço positivo, pensar em continuidade não é o forte. Nesse cenário, uma simples virada de calendário fica parecendo uma reviravolta na trajetória dos clubes.

Assim, o Vasco abriu 2018 em meio a um processo eleitoral que já entrou para a história do clube como o mais tumultuado de todos os tempos. Alexandre Campello começou um mandato que ainda poderá ser questionado na Justiça com um farto cardápio de problemas. Os salários dos jogadores estão atrasados, e a solução encontrada foi mais um aporte de Carlos Leite, o empresário que faz do clube refém de seus empréstimos.

Ainda está longe de ser o suficiente para reforçar um time que já perdeu nomes importantes como Mateus Vital, Anderson Martins e Nenê — que, num retrato do que foram os últimos anos vascaínos, despediu-se com status de ídolo sem ter conquistado um título sequer, nem mesmo o da Série B. Com a pré-Libertadores batendo à porta, Campello terá de conciliar a montagem da nova equipe com o ousado movimento político que vem planejando nos últimos dias: renovar toda a equipe administrativa, deixando de fora o grupo de Eurico Miranda, cujo apoio foi fundamental para que ele vencesse a eleição. Uma manobra que pode custar caro para a estabilidade de São Januário.

O Flamengo só tem eleição no fim do ano. Mas nem por isso se esperava que o ambiente político da Gávea começasse 2018 em clima de tranquilidade. A falta de títulos agitou a oposição do clube brasileiro com mais ex-presidentes vivos, e alguns pediram a renúncia do atual, Eduardo Bandeira de Mello. Como esperado, não passou de bravata. Bandeira continua no cargo, assim como seu diretor de futebol, Rodrigo Caetano, apesar dos reiterados pedidos de que sua cabeça fosse entregue numa bandeja de prata. Saíram, sim, jogadores - quase todos os que tinham seu nome gritado pela torcida: fora, Márcio Araujo; fora, Gabriel; fora, Muralha. Mas aos poucos, evitando a conotação de barca.

Chegar, até agora, só chegou o estreante Marlos Moreno — pedido de Reinaldo Rueda, que foi embora para o Chile, onde hoje deve reunir os amigos em torno de um bom pisco para contar que coisa doida é trabalhar no futebol brasileiro. A timidez nas contratações não preocupa necessariamente o torcedor rubro-negro na comparação com seus rivais estaduais, todos mergulhados em dívidas e limitações financeiras; mas sim no posicionamento diante de outros grandes clubes brasileiros. Palmeiras e São Paulo, por exemplo, fizeram muito barulho no mercado.

Em meio a esse cenário de estabilidade, o Flamengo já tem um título em 2018. A quarta Copa São Paulo de Futebol Júnior da história do clube foi ainda mais marcante pelo fato de ter sido conquistada em meio ao empréstimo de jogadores para o time principal — que, com eles, chegou ao clássico invicto no Carioca. Craque o Flamengo faz em casa, adora dizer o torcedor rubro-negro — que agora vai pressionar o técnico Paulo César Carpegiani a escalar os garotos com mais frequência.

O fato de Rômulo e — principalmente — Éverton Ribeiro terem saído vaiados já aponta uma tendência do que será o debate sobre o Flamengo este ano. As vaias para o empate também mostram que a cobrança vai estar lá em cima. A espanholização que prometeram ao Gralha pode demorar ou até nem chegar - qualquer projeto no futebol brasileiro está sujeito a percalços: São Paulo e Inter, que já foram modelos de gestão, tomaram desvios graves em sua história recente.

Mas o 0 a 0 de sábado não reflete a quilometragem que cada clube já caminhou no sentido da estabilidade.


Flamengo só tem eleição no fim do ano. Mas nem por isso se esperava que o ambiente político da Gávea começasse 2018 em clima de tranquilidade.



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