Saída de Rueda inflama debate cheio de verdades e mentiras

Nada justifica a maneira como Rueda conduziu sua situação e deixou o Flamengo na mão.

JULIO GOMES: A saída de Rueda do Flamengo, rapidamente substituído por Carpegiani, reabre o debate sobre a qualidade dos técnicos estrangeiros versus brasileiros. O burburinho tomou conta das mesas redondas de segunda à noite.

Foi a deixa para muitos defenderem não haver necessidade de trazer estrangeiros para cá, que nós somos os bons, a classe não pode pagar o preço do 7 a 1, etc e tal. Um velho e conhecido discurso mezzo nacionalista mezzo corporativista.

Primeiro, é importante frisar que há bons e maus profissionais de qualquer nacionalidade e área de atuação. Rueda pisou feio na bola. Não por sair. Mas por deixar o Flamengo no escuro e de mãos atadas por três semanas. Não são apenas colombianos que fazem coisas assim. Podemos fazer uma lista de treinadores brasileiros que ''abandonaram'' seus clubes por uma oportunidade melhor.

Foto: Gilvan de Souza
Isso é tão comum e tratado com normalidade aqui que a nação ficou boquiaberta quando Muricy Ramalho abriu mão da seleção para seguir no Fluminense.

O que Rueda fez está simplesmente errado. E só serve para fortalecer o discurso nacionalista-corporativista de alguns técnicos, mais preocupados com reserva de mercado e orgulho ferido do que propriamente com a evolução do jogo.

Poucas horas depois do anúncio, lá estava Vanderlei Luxemburgo, outrora melhor técnico do Brasil, vociferando contra os estrangeiros em mesa redonda no Fox Sports.

As pérolas foram muitas. Desde um genial ''se eu tivesse ficado dez anos no Real Madrid, teria ganhado alguma coisa'' (uau, jura? Acho que até eu teria) até um ''Guardiola veio aqui aprender, coloca em prática lá na Europa e é chamado de gênio… gênio somos nós!''.

Lógico que, ao criticar a decisão de Rueda de abandonar o Flamengo para treinar o Chile, Luxemburgo se esqueceu de dizer que ele também abandonou o Santos para ir ao Real Madrid, o Palmeiras para ir ao Cruzeiro, etc.

Jair Ventura, que ainda é novo no ofício, acaba de trocar o Botafogo, com quem tinha contrato, pelo Santos. Mas também criticou Rueda por ''não avisar'' o Flamengo – como se ele pudesse ter 100% de certeza disso.

No fim das contas, a grande crítica de Jair e Luxa é sobre o fato de ''qualquer um'' poder vir ser técnico no Brasil e os brasileiros não poderem exercer a profissão em vários países, pois o curso para treinadores da CBF não tem as devidas chancelas. Em vez de se unirem para melhorar o curso da CBF e lutarem nos bastidores pelo reconhecimento, preferem pedir para que haja mais barreiras aos estrangeiros que querem desembarcar por aqui.

O fato é que com as saídas rápidas de Osorio e Bauza do São Paulo, estas menos discutíveis, e a de Rueda, que pegou bem mal, as portas devem se fechar a estrangeiros.

Uma pena, pois o país precisa de intercâmbio, de novas ideias, de novas culturas que enriqueçam o futebol daqui.

A defesa de técnicos brasileiros baseia-se em uma verdade, uma meia-verdade e uma omissão (ou mentira).

A verdade é que o calendário do futebol brasileiro compromete demais o trabalho dos técnicos. Junte a isso o descomprometimento/amadorismo de dirigentes e temos um círculo para lá de vicioso. Treinadores dependem de resultados a cada semana para salvarem a própria pele, mas não têm o mínimo de tempo e condições para trabalhar.

A meia-verdade é que taticamente os treinadores brasileiros não estão atrás de ninguém. Não é bem assim, e má qualidade do jogo aqui atesta isso. Mas sim, concordo com quem diz que nem todos são gênios na Europa e burros por aqui. Houve um buraco de uns dez anos, em que mesmo coisas triviais que aconteciam na Europa não eram vistas por aqui, mas depois do colapso da Copa de 2014 muitos treinadores se sacudiram e viram que era necessário observar mais o que se fazia lá fora.

Há muito conhecimento por aqui, sim, há vários estilos de treinadores, há uma cultura impregnada em nossa sociedade. E há também muito técnico também que não faz questão alguma de adquirir conhecimentos, que ganha muito dinheiro e está o tempo todo empregado justamente devido a esse amadorismo todo que marca o futebol aqui.

Não é só por causa das licenças que os treinadores brasileiros perderam espaço em mercados onde reinaram um dia, como Japão, África e Oriente Médio. E não é coincidência que os três estrangeiros que abandonaram o barco (Osorio, Bauza e Rueda) saíram do Brasil para seleções nacionais.

Quais seleções nacionais estão buscando treinadores brasileiros e desfalcando nossos clubes? Resposta rápida: nenhuma.

Chegamos à omissão. Ou mentira.

Quando os técnicos brasileiros bradam que já ganharam um monte de coisa e que taticamente não tem muita diferença no mundo, eles se auto destroem. Ignoram alguns dos vários argumentos usados por nós mesmos da imprensa, os que defendemos mais estabilidade para os treinadores nos clubes brasileiros.

Esquecem-se que o trabalho do técnico é muito mais do que entender de formação tática. É entender de treinamentos, fisiologia, psicologia, nutrição, tecnologia. Quando falamos que treinadores brasileiros estão desatualizados, nos referimos muito mais a esse leque de coisas.

Por que afinal, que os jogos do Campeonato Brasileiro são tão ruins? Por que técnicos brasileiros não conseguem espaço na Europa ou em seleções?

Luxemburgo, sempre na mesma entrevista no Fox Sports, ridicularizou o fato de haver tanta literatura de futebol sendo produzida em Portugal. ''Ganharam o quê? Nunca ganharam nada!'', bradava.

Bem, basta ver o que aconteceu com o futebol português nos últimos 20 anos para saber que alguma coisa aconteceu por lá. O melhor jogador do mundo foi produzido lá. Portugal ganhou, de fato, seu primeiro título europeu. E, capitaneados por José Mourinho, os treinadores portugueses colecionaram muitos triunfos em categorias máximas e ocupam postos de expressão nas grandes ligas do mundo.

Os técnicos portugueses poderiam gritar para Luxemburgo: ''e os técnicos brasileiros, vieram aqui e ganharam o quê? Deixaram qual legado?''.

A adaptação a uma cultura diferente é sempre difícil. Luxemburgo pode achar que foi boicotado no Real Madrid e Scolari pode achar o mesmo de sua experiência no Chelsea, mas o fato é que o conhecimento futebolístico de ambos, por maior que fosse, não superou vários outros problemas que envolvem uma bagagem cultural que nenhum deles tinha – a começar pelo idioma.

Eu ficava p da vida quando via Luxemburgo ser ridicularizado em programas esportivos na Espanha. Lá, falavam essas mesmas frases feitas que ouvimos por aqui. ''Não agrega nada, não traz nada de novo, não conhece a cultura, não tem experiência, etc, etc, etc''.

Não é fácil para um estrangeiro se adaptar ao futebol brasileiro, especialmente em clubes gigantes, com tanta pressão de torcida, imprensa, imprensa-torcida, dirigentes amadores. A própria estrutura dos clubes não facilita em nada para que um cara desses tenham a estabilidade necessária – também por isso, imagino, pulem fora com tanta facilidade.

Nada justifica a maneira como Rueda conduziu sua situação e deixou o Flamengo na mão. Mas isso e o fato de ele ser colombiano têm pouco a ver com o baixo nível geral do futebol brasileiro. Rueda nos fará ouvir muitas ladainhas por bastante tempo e fechará o mercado para muitos outros técnicos de fora.

Estamos no episódio do meio do Star Wars. É a hora do império contra-atacar.


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