As aspirações do Flamengo têm que ser muito mais altas

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Arthur Muhlenberg

O Fla-Flu foi um sonoro tapa na cara de muitos rubro-negros. Principalmente na cara dos que se dedicam com imprudente entusiasmo a louvar com soberba uma suposta superioridade física, técnica e moral de qualquer bípede que envergue o Manto Sagrado em jogos oficiais. O resultado, bastante fora do comum, ensinou de forma dolorosa que o Flamengo pode ser grande, enorme, o maior do mundo civilizado, isso é um fato sabido, nem mesmo está em questão. Mas o Flamengo não transfere sua grandiosidade por osmose a qualquer zé mané, não. O cara tem que ter a grandiosidade dentro de si, ser capaz de brilhar mesmo sem o amparo das roupas e das armas do Flamengo. E esta qualidade, lamentavelmente, não se encontra em qualquer parte.

Como provavelmente não se encontra entre muitos dos integrantes dos nossos reservas, que reforçados por 2 titulares e meio (inexplicável o Vinicius Jr não ter sido ainda efetivado), foi cumprir tabela no sábado para que o time titular pudesse descansar para o jogo com o River. O tal mistão mostrou logo de cara que não era essa coca-cola toda que se anunciava. Depois que arrumou seu gol no comecinho o Flor deitou e rolou, explorando com astúcia a insegurança da nossa rapaziada. Ficou nítido que nosso elenco ainda está povoado por uns caras que, ao menos até o momento, jamais mostraram possuir as condições mínimas para jogar pelo Flamengo. Pelo menos não no time adulto. O 4 x 0 saiu barato, fosse o adversário pouquinha coisa melhor e o resultado trágico poderia ter se transformado em uma verdadeira catástrofe.

Foto: Gilvan de Souza
Claro que geral ficou puto. Há quase dois anos que não perdíamos pra esses caras e o placar elástico não nos deixou espaço nem pra reclamar que o juiz nos roubou. Claro também que teve gente passando pano, achando até normal que um time que deve ter treinado no máximo duas vezes junto levasse um sacode de quem tá desesperado pra não ficar de fora das finais do Carioca e disposto a suar sangue pra sair da lama não dar motivo pra que seus salários não sejam depositados. Acho que esse papo é caô, mas calma, gente.

Vamos devagar com os julgamentos sumários desse detestável tribunal de araque montado para julgar irmãos rubro-negros. Respeitemos o princípio do contraditório e o amplo direito de defesa. Audi alteram partem (Ouvi a outra parte). Nem todos aqueles que não atearam fogo às vestes ou cortaram os pulsos publicamente após a surpreendente jirombada que o Mengão levou do Flor em Cuiabá são desprezíveis sicofantas pendurados ao saco de um grupo de dirigentes, sempre prontos a aplaudir os mais reles atos administrativos daqueles que detém nas mãos o poder transitório da caneta (sempre mais poderosa que a espada). São só alguns.

Tem gente que é apenas radical, e não concede ao Campeonato Carioca o mínimo grau de relevância ou significado, ganhar ou perder é indiferente diante da grande indignidade que é o Flamengo disputa-lo, e consequentemente mantê-lo vivo. Esses flamenguistas-veganos nem assistem aos jogos do rural, que consideram inútil, anacrônico e ilegítimo. Devolve os documentos deles e deixa eles irem pra casa, na quarta-feira vamos precisar de todo mundo descansado para torcer do sofá.

Nem sempre é preciso relativizar o valor de uma derrota vergonhosa para considera-la um bom resultado. Proponho a seguinte leitura do evento em Cuiabá: o Flamengo, mais cedo ou mais tarde, queira ou não queira, mereça ou não, vai acabar pagando um mico. Os vexames que o Flamengo protagoniza com reprovável frequência desde a segunda metade da última década do século passado têm origem nas dimensões místicas regidas pelos deuses. Os mesmos deuses que concedem ao Flamengo as bênçãos, proteções e privilégios que embasam e justificam sua preponderância e hegemonia sobre todos os demais. Ora, nem entre os deuses existe almoço grátis.

Por essa proteção, essa inegável aliança com o divino, o Flamengo, de vez em quando, deve fazer sacrifícios. Na teologia do sacrifício, palavra que vem do latim sacrificium (ofício sagrado), os deuses necessitam do sacrifício para seu sustento e para a manutenção de seu poder. A vítima do sacrifício é oferecida como bode expiatório, um alvo para a ira dos deuses, que de outra maneira recairia sobre todos os homens. O Flamengo se deixou crucificar em Cuiabá para expiar os nossos pecados.

O que pode ser entendido também como: é melhor pagar um miquinho agora perdendo pro Flor um jogo que nada vale do que ser cobrado implacavelmente pelos coléricos deuses que não gostam de caloteiros em plena fase de grupo da Libertadores. Como há fortes suspeitas de que tenha acontecido no ano passado ao enfrentarmos o time do Sumo Pontífice. Pensar dessa forma não é poupar o Flamengo de críticas ou repreensões, é poupar a si mesmo de ilegítima aporrinhação por um motivo torpe.

Não é só quando perdemos um dos seus jogos (evento de raríssima ocorrência) que afirmamos que o Campeonato Carioca não vale nada. Tal afirmação é a base filosófica de quem só tem olhos e atenção para a competição continental. Carioca e Libertadores são como água e azeite, imiscíveis. E é bom mesmo que não se misturem, nem mesmo nas comparações esdruxulas que, às vezes sem querer, acabamos por fazer entre duas galáxias tão distantes. O carioqueta pode ser tranquilamente vencido por meninos. Mas a Libertadores demanda a presença de homens em campo.

É muita incoerência querer que o Flamengo priorize a Libertadores e exigir time titular pra jogar Fla-Flus caça-niqueis. Pra quem não é neurótico de guerra vai ser fácil esquecer a tarde aziaga em Cuiabá. Doeu, mas já passou, e os danos foram mínimos. As aspirações do Flamengo têm que ser muito mais altas.

Mengão Sempre

O carioqueta pode ser tranquilamente vencido por meninos. Mas a Libertadores demanda a presença de homens em campo.



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