Cuidem da sua reputação

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Nem enquanto rolava o Carnaval a máquina de vexames do Campeonato Carioca interrompeu sua produção. Pouco tempo depois do violento evento de extinção dos sonhos rurais dos alvinegros começaram a pipocar pelas redes sociais boatos de que Botafogo pretendia aprontar mais uma palhaçadinha para amansar aquela parte da sua torcida que insiste em usar o futebol para extravasar de forma sub-reptícia sua frustração, intolerância e os mais abjetos preconceitos.

Para agradar à essa famígera falange a Diretoria do Botafogo não hesitou em atirar contra o próprio patrimônio, aliás, o único patrimônio que possui, que é a reputação conquistada com talento pelos craques que lá andaram entre as décadas de 30 e 60 do século passado. Reputação que os dirigentes alvinegros desde os anos 70 tem feito todo o possível para exterminar.

Bandeira do Flamengo no CT do Ninho do Urubu (Wallpaper) - Foto: Gilvan de Souza
Como qualquer teólogo de botequim sabe muito bem não existe uma oposição entre reputação e caráter. São conceitos complementares. Reputação é a imagem que a sociedade faz de você. O caráter é o que você realmente é. Segundo uma analogia bastante gráfica atribuída à Abraham Lincoln, “O caráter é como uma árvore e a reputação como sua sombra. A sombra é o que nós pensamos dela; a árvore é a coisa real. “

Sem nenhum traço de clubismo podemos afirmar que o caráter do Botafogo, a árvore da qual falava Lincoln, é madeira de lei. Que possui extensa folha de serviços, ainda que tais serviços tenham sido prestados lá na Idade Média do futebol, em favor do desporto nacional. E se prosseguirmos com firmeza no terreno do não-clubismo somos obrigados a concordar que, a despeito da integridade da árvore botafoguense, a sombra que a sua atual reputação projeta é, me perdoem o eufemismo, isenta de qualquer traço de grandiosidade.

Mas que reputação resiste se os dirigentes do clube abrem mão de valores básicos de convívio em sociedade? Os pecadilhos do Botafogo ao descumprir um contrato assinado, desonrar a palavra empenhada e, ainda que caminhe sempre a dois passos da insolvência, jogar fora um dinheiro que não tem em países menos liberais dão até cana,  mas aqui em Pindorama podem ser relativizados diante da organização tosca de um campeonato feito nas coxas por uma federação bizarra que contrata o Pelé como embaixador da competição, mas não é capaz sequer de marcar o local de um jogo no estado com mais de 48 horas de antecedência. Até aí, como tudo que rola no âmbito do campeonato mais vagabundo do mundo, e um dos mais vagabundos do Brasil, ainda era discutível se estaria rolando ou não um processo de solução da reputação do Botafogo.

Até que chegaram as notícias mostrando que a Cry Baby Celebration, como um jornalista inglês astutamente verteu o Chororô para o idioma do Bardo, era agora de conhecimento geral do planeta. Enquanto o couro comia na Sapucaí todo o mundo do futebol globalizado ficava sabendo do histórico papelão botafoguense de 2008 e munido dessa informação podia fazer projeções bem mais realistas do real tamanho do Botafogo. Pânico em Soldado Severiano! Medidas severas deviam ser tomadas imediatamente para recobrar a honra ferida do time do Manequinho. O Alto Comando Estratégico dos Não Ganha Nada decidiu que para atingir o Flamengo e se vingar do canudo arrogante que Vinicius Jr depositou na gaveta de Jefferson o Botafogo iria invadir a Recibolândia.

E o fez em grande estilo. Negou a cessão do estádio municipal do qual é concessionário para a realização da final da Taça Guanabara e culminou com a publicação da nota oficial mais idiota que já tive o prazer de ler em toda a minha carreira de corneteiro de departamentos de comunicação de clubes de futebol. Notem que nesse campo da produção literária tenho expertise e meus standards são bem altos. Quando ralava na Comunicação do Flamengo fui cúmplice contumaz, quando não o único culpado, na elaboração de algumas notas oficiais verdadeiramente infelizes, tanto na forma quanto no conteúdo. É do jogo, os profissionais, bons ou ruins, passam, mas o clube permanece. E a qualidade dessa permanência vai ser definida, entre outros componentes, pela reputação que o clube constrói, também, mas não apenas, com seus comunicados oficiais.

Vou poupa-los de uma analise mais minuciosa da nota oficial alvinegra, não há motivo para tripudiar dos profissionais que foram certamente constrangidos a escrever aquilo. Mas afirmo sem medo de errar que o Botafogo agora tem Mundial. Não estou falando da filial do supermercado na Voluntários da Pátria, estou falando do título conquistado por essa nota oficial como o maior recibo do mundo já passado por um clube de futebol profissional. Com enorme repercussão global. Se a imensa maioria dessa repercussão foi negativa é um detalhe. Importante é que o Botafogo voltou a ser comentado nos grandes centros. Missão cumprida. Parabéns aos envolvidos.

Essa guerra tola motivada pela inabilidade do Botafogo em seguir as regras tácitas do playground não atingiu o Flamengo. Não somos sequer os mandantes da final, esse problema de estádio é do aspira. Se os caras que são fechamento na FERJ tipo vasquinho, foguinho e rubinho ficam se dando facadas e descumprindo contratos o problema é deles. Imagina se tá maneiro pro Flamengo? Vagabundo quer ver nossa caveira. Mas tá tranquilo. O Mengão seguirá no carioqueta como cavalo em desfile militar, cagando, andando e sendo aplaudido.

O episódio, apesar de embaraçoso para o botafoguense, é educativo para todos. Comprovou-se que o Botafogo, a despeito da funesta coincidência do governador, do prefeito e, nas breves ausências do titular, até o presidente da república serem botafoguenses, não pode ser concessionário de nenhum próprio municipal, estadual ou federal, porque os chorões possuem o Toque de Midas Reverso, onde botam a mão o povo some. Basta dar uma boa olhada no anecúmeno da Praia de Botafogo, onde ninguém vai há décadas e no abandonado Caio Martins em Nikiti para antever um futuro aziago e despovoado para o Estádio de Atletismo Municipal enquanto for administrado por jênios do show business especializados em miniaturização de reputações.

O Flamengo só precisa se preocupar com a Libertadores. Com todo respeito ao povo amigo de Bacaxá, nem pensar em esquentar a mufa com a final da guanabarinha. Houvesse algum traço de justiça no enxovalhado futebol carioca e a final da Taça Guanabara seria jogada no Aterro. E com portões fechados para não dar maus exemplos aos peladeiros habituées do popular complexo desportivo. Afinal, até os peladeiros, quando tem algum caráter, se preocupam com sua reputação.

Mengão Sempre

ARTHUR MUHLENBERG


Essa guerra tola motivada pela inabilidade do Botafogo em seguir as regras tácitas do playground não atingiu o Flamengo.



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