Flamengo tem caminho para não repetir erros de 2017

CHUTE CRUZADO: Por Pedro Henrique Torre

Claro, a Taça Guanabara já não tem mais a importância de seus anos dourados. Mas é um troféu, entra para a galeria do clube e vale sempre comemorar. Conquistas, ainda que as menores, compõem o futebol e a memória esportiva de quem senta na arquibancada ou no sofá em frente à tv religiosamente às quartas e domingos. Diante disso, no panorama atual do futebol brasileiro o Flamengo pode se dar inicialmente por satisfeito: ao vencer o Boavista de forma eficiente por 2 a 0 cumpriu sua cartilha e desenvolve um bom início de ano. Passos importantes foram dados com a conquista do primeiro turno do Campeonato Carioca.

Mas há alertas. Em 2017, o time não levou a Taça Guanabara, derrotado na final diante do Fluminense, mas também parecia seguir um rumo. Em seguida, perdeu-se. As diferenças de 2018, no entanto, apontam um futuro mais promissor. O Flamengo não é mais uma equipe agarrada a um esquema só e nem tem seus jogadores protegidos, pontos falhos, todos já fora do clube. Paulo César Carpegiani achou a sua base e deve lapidá-la para confrontos de maior importância, como a Libertadores.

Vinicius Júnior "atirando" em comemoração pelo Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
Pouco mais de uma semana depois de engolir um perdido Botafogo no clássico da semifinal, o Flamengo voltou a campo no 4-1-4-1, deixando claro o sepultamento do 4-2-3-1 das últimas duas temporadas. Juan, lesionado, foi a ausência, abrindo espaço para Rhodolfo. No meio, a dinâmica tentada era a mesma. Grande troca de posição à frente de Cuellar, principalmente entre Diego e Everton Ribeiro. Paquetá e Everton, desta vez, diminuíram a fizeram da alternância de posição algo menos frequente. A diferença para a semifinal: o Boavista marcava melhor, cedia menos espaços e tentava pressionar.

Em um 4-2-3-1, o time de Bacaxá tentou inicialmente explorar a velocidade de Luquinhas e Erick Flores pelos lados, com Fellype Gabriel ao meio. Os laterais – Thiaguinho e Julio Cesar – pouco saíam, preocupados com as subidas rubro-negras. A equipe forçava, então, o jogo muito pelo meio, com os avanços alternados de Willian Maranhão e Douglas Cardoso. Foi um início agressivo, talvez até uma tentativa mental de se impôr ao clube grande, querendo olhar de igual para igual ao Flamengo. Mas a diferença técnica era grande.

Ainda que estivesse mais lento do que na partida contra o Botafogo, a posse era rubro-negra. O time só fazia girar a bola. Da esquerda para a direita, da direita para a esquerda. Buscava uma brecha que parecia não chegar. Faltava o drible, a tentativa de furar o bloqueio rival com maior eficiência. Aí, o time recorria a uma velha deficiência: bola centrada na área buscando o centroavante. Ocorre que Henrique Dourado tem característica diferente de Guerrero. Sabe fazer o pivô, mas tem número bem menor de aproveitamento neste quesito. É um finalizador, sendo necessárias chances mais claras em jogadas trabalhadas, não bolas lançadas pelo alto para que brigue com zagueiros e vença.

Em rebatidas, o Boavista se reorganizava para também sair de pé em pé. Em determinado momento, Fellype Gabriel buscou a ponta direita e abriu o meio para a velocidade de Luquinhas. Mas o time entendeu o lugar mais fácil: Erick Flores pela esquerda em cima de Pará. O lateral rubro-negro é esforçado, mas pouco efetivo no ataque. Tenta avançar, mas de forma mais cadenciada, sem a explosão de Rodinei, por exemplo. No retorno, a velocidade também é falha. Erick Flores buscou espaços por ali. Mas, a rigor, as chances foram poucas. O Boavista em um escanteio quase abriu o placar, mas Rever raspou a bola de cabeça antes da testada fatal de Leandrão. Por mais que girasse o jogo e tivesse a maior posse da bola faltava ao Flamengo ser mais voraz.

No fim do primeiro tempo, o time foi. Avançou ainda mais o posicionamento em bloco. E Diego vivia uma boa tarde. Passou a distribuir melhor o jogo ao entender que os volantes do Boavista saíam com constância. Fazia a bola girar por si, lembrando mais o perfil que teve, de suma importância, em 2016. Abria o jogo pelos lados e infitrava na área, deixando Paquetá buscar o meio. Em uma falta sofrida pelo menino, Diego quase marcou, mas Rafael foi preciso na bela defesa. Depois, em cruzamento de Pará e dívida de Paquetá com a zaga, a bola sobrou limpa para o camisa 10, que chutou forte, mas Kadu impediu o gol. Era um jogo disputado, apesar da maior posse rubro-negra. Normal, dado o caráter decisivo do duelo.

No segundo tempo, foi interessante notar como o Flamengo entendeu melhor a necessidade de ferver o jogo. Ser mais incisivo nas ações, pressionar o Boavista, diminuindo o número de bolas alçadas à área, trabalhando mais de pé em pé mesmo ao se aproximar da área. Transformar os 62% de posse do primeiro tempo, de acordo com o Footstats, em chances de gol. Mas uma mudança de Carpegiani foi importante para o melhor funcionamento da equipe: Rodinei na vaga de Pará. Com ele, Everton Ribeiro buscou mais o meio atrás do passe e também para abrir espaço aos avanços do camisa 2. Deu bem certo.

Logo de saída, Everton Ribeiro achou Paquetá entrando na área pela direita. Na batida em cima de Rafael, a bola voltou para o próprio camisa 7, que cruzou com a mão para Henrique Dourado no segundo pau. E o Ceifador, em tarde ruim, fez o que não pode: perdeu chance clara de abrir o marcador. O Boavista sentiu o jogo. Já se camuflava mais em um 4-4-2, tentando fechar ainda mais os espaços a um Flamengo que subia em bloco e queria trabalhar mais com seus meio-campistas. Por isso, a mudança de Carpegiani, ao colocar Vinicius no lugar de Paquetá, pareceu ter surpreendido a torcida no Kleber Andrade. Isso porque o meia tentava ser o faz-tudo do clássico contra o Botafogo, embora não conseguisse. A eletricidade de Paquetá, no entanto, custa caro: o garoto cansa mais rápido e dificilmente consegue terminar as partidas sem cair tanto de nível.

A opção por Vinicius Junior se explicava por isso, mas também pela tentativa de empurar ainda mais o Boavista em seu campo. A promessa já vendida ao Real Madrid tem o drible e a finalização como pontos fortes. E tudo ficou mais fácil quando Diego lançou Rever na área. O zagueirão cabeceou para trás e a bola encontrou as pernas de Kadu antes de Henrique Dourado. Contra o próprio patrimônio, o zagueiro revelado pelo Vasco abriu o placar e pavimentou o caminho para o título rubro-negro. 1 a 0. Eduardo Allax tentou responder com velocidade, com Tartá na vaga de Leandrão. Cláudio Maradona já tinha substituído Fellype Gabriel. Mas o Boavista parecia sem forças. Buscar marcar de forma tão forte a movimentação intensa do meio de campo rubro-negro tem um preço alto. O fôlego estava no fim.

Com isso, o Flamengo tornou-se definitivamente dono do jogo, promovendo um ataque contra defesa para delírio dos torcedores de Cariacica. Everton Ribeiro, de novo por dentro, achou Vinicius Junior sobre a zaga. O camisa 20, ainda com aquele trejeito de molecote, tentou finalizar, mas apenas raspou o pé na pelota, sem jeito. Rafael não alcançou e o título da Taça Guanabara foi garantido. 2 a 0. Vinicius ainda perdeu mais uma chance ao ser precioso no segundo tempo. Diego, novamente cometendo a necessidade de deixar o lance plástico demais, também perdeu outra boa oportunidade. O Flamengo, portanto, não foi brilhante. Mas eficiente.

Em sete jogos na Taça Guanabara, quatro com time mesclando garotos e reservas, o clube sofreu apenas um gol e marcou dez. Teve seis vitórias e um empate. Na decisão contra o Boavista, os números deram claro recado de superioridade: 61% de posse de bola, 20 finalizações contra nove, 434 passes trocados contra 236 do Boavista. Os 33 cruzamentos tentados indicam que a cartilha foi, sim, cumprida, mas há pontos a melhorar até a estreia da Libertadores. Mas não foi ruim. Caso esteja escaldado pelos erros de 2017, quando sempre celebrou um bom desempenho nos jogos e ignorou erros que lhe tomavam os pontos na competição internacional, o Flamengo tem tudo para ter um 2018 melhor.

Ao menos, mais competitivo. A cartilha indicava vencer a Taça Guanabara mesmo com o retorno tardio de férias do elenco principal. Mesclar jovens, reservas, abrir espaço para uma oxigenada no time. Rodinei pede vaga. Trauco ainda vai estrear. Cuellar precisa ter o substituto definido, embora Jonas pareça figurar com vantagem nesse aspecto. Henrique Dourado carece de melhor entendimento do time e vice-versa. Mas como joga o campeão da Taça Guanabara neste 18 de fevereiro de 2018, caro rubro-negro? 4-1-4-1, com preferência pela posse, alternância de posição entre seus meias. É um caminho. Cumprida a cartilha, a Taça Rio servirá para mais testes, mesclas e observações. Sinônimo de maior tranquilidade para o desenvolver da temporada. Sim, há motivos para comemorar a 21ª Taça Guanabara da História. Caso ela não mascare erros e indique o início de um trabalho eficaz.

Sim, há motivos para comemorar a 21ª Taça Guanabara da História. Caso ela não mascare erros e indique o início de um trabalho eficaz.

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