Abaixo a imparcialidade

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Já era tarde da noite quando fiquei sabendo que o Flamengo ganhou outra vez do Botafogo. Quase sem querer deixei escapar um Boa, Mengão! Na mesma hora fui delicadamente repreendido pela dama que acompanhava: – Você é um rapaz simpático, agradável. No entanto, fica perdendo seu tempo com bobagem, né? Gamei! Sou um sapiosexual assumido, tenho tara em mulher inteligente. É tão bom conviver entre mulheres sábias.

A bela dama estava coberta de razão. Flamengo x Foguinho é uma bobagem. E já não é um evento dos mais esperados pelo público que aprecia o bárbaro esporte bretão. Se formos falar em termos de popularidade é nítido que a oferta do clássico supera a sua procura. Jogam-se Flamengo x Botafogo em excesso, a maioria valendo nada. E os poucos que conseguem ser decisivos são monótonos, sempre acabam em lágrimas. Ainda por cima é um produto caro. Não surpreende nem um pouco que um Flamengo x Botafogo na tarde de sábado pela prescindível Taça Rio tenha levado ao Engenhão um público de show de jazz.

Pênalti sofrido por Lucas Paquetá em Flamengo x Botafogo - Foto: Reprodução
Como não me interessei em ir ao estádio aproveitei pra nem ver o jogo, o que me permite e autoriza comentar a partida pelo viés preferido de 90% dos comentaristas de futebol do mundo: o do resultado. Se ganhamos está bom. E bola pra frente, porque o que importa é a Libertadores. Flamengo já perdeu tempo demais jogando 90 minutos contra um timinho. Voltem a treinar que vocês ganham mais. No compacto de cenas lamentáveis do jogo só deu alvinegro perdendo a linha. Nossa molecada tá apanhado porque merece, esculacha eles demais. Tá certo, pereba tem que levar olé. Isso está bom também. Fim do comentário sobre o jogo.

Prefiro falar sobre torcida. A nossa, cada vez mais madura, irracional e sábia. A deles cada vez menor. Eu curto muito uma baixaria. Mas leitura labial de torcedora de time pequeno é tipo o recorde mundial de mergulho em profundidade. O Malcon X já dizia que o racismo é como um Cadillac. Todo ano eles lançam um novo modelo. Essas cenas são feionas, queimam o nosso filme, dão vergonha. E fica mal pra nós todos. Não como brasileiros, não como torcedores de futebol, mas como espécie Homo sapiens mesmo. É uma tragédia nacional que os crimes de discriminação não mereçam mais manchetes e mais escândalo. A atenção que o público dá ao assunto é muito menor do que deveria. Somos um país racista, se não fizer  tumulto isso vai continuar acontecendo.

Depois do jogo, nas redes sociais (que é um jeito elegante de dizer que li essas porras no Twitter), havia muito mais indignação com os comentários do Paulo César Vasconcellos durante a transmissão do Premiere do que com o evento racista. Infelizmente, nos últimos tempos uma parte da torcida do Flamengo tem sido exposta em excesso a uns fumos autoritários e reage muito mal ao contraditório. Tudo a ofende, tudo coloca em risco a supremacia rubro-negra e a sacra credibilidade do jornalismo. Outro dia pegaram no pé do Juninho Pernambucano porque o cara, entre outros alegados crimes de opinião, elogiou o Marcio Araújo. Ontem foi no do PC Vasconcellos porque disse qualquer besteira sobre uma lambreta do Paquetá. Uma jumentice. Na verdade, foi porque o Juninho torce pra vasca e o PC pro foguinho. Anotem essa previsão, no futuro o linchamento virtual vai dar cadeia também.

Não chega a ser o fim do mundo, a torcida do Flamengo não é pior do que as outras. É só a maior do mundo. E apenas reproduz, em maior frequencia e num universo mais reduzido, o que acontece em toda parte nesses tempos de algoritmos que aproximam os iguais, suprimem os diferentes e dão espaço aos discursos mais bizarros de qualquer idiota com um numero considerável de seguidores. As pessoas, meio sem perceber, são levadas a conviver em bolhas onde todo mundo pensa mais ou menos igual. E morre de medo do que é diferente. Agora, só porque descobriu que tá pagando pelo show todo, neguim só quer ouvir o que lhe agrada, como se a transmissão de um jogo de futebol pela TV fosse a sua playlist no Itunes. Isso é uma viagem de ácido.

Mas a imprensa, institucionalmente falando, tem seu quinhão de culpa nesse novo modelo de ignorância. São os frutos amargos que se colhem pela esterilização clubística a qual os profissionais da imprensa esportiva se entregaram voluntariamente nos últimos 30 anos. Baixo inconfesso fito dinheirista, disfarçado sob o argumento humanista de não afastar os simpatizantes de A, B ou C e de manter o equilíbrio e a equidistância do observador neutro e onisciente, os caras simplesmente foram constrangidos a esconder as suas preferências clubísticas. Desde então jornalistas esportivos passaram a ser comercializados como seres exóticos, sem coração, consequentemente, sem um time pra carregar no orgão ausente.

Mario Filho, Ary Barroso, Nelson Rodrigues, João Saldanha, Sandro Moreyra, Luis Mendes, Jorge Cury, entre outros gigantes do jornalismo esportivo, sempre tiveram time de coração. E não perderam um centímetro sequer de sua estatura ou de sua credibilidade por não esconderem essa informação do público. E sempre que podiam puxavam a brasa pra sardinha dos seus preferidos, como qualquer humano em pleno domínio de suas faculdades mentais faria.

Essa imparcialidade magna inventada pelos arautos imbecis do Rei Mercado e reclamada pelos torcedores com menos juízo é uma quimera. No jornalismo esportivo sequer se obteve comprovação científica da sua existência. A imparcialidade jornalística, ainda que existisse, é superestimada. Um comentarista imparcial, justo e equidistante, ou não gosta de futebol ou não entendeu a essência do jogo. Se o cara curte futebol ele tem um time e isso é o bastante pra inviabilizar qualquer imparcialidade genuína.

Quando um comentarista que é torcedor notório do adversário do Flamengo faz um comentário parcial ou que insinue algum recalque clubístico o rubro-negro devia ficar feliz e não puto. É só uma prova de que a essência do futebol ultrapassa o limite artificial do que se convencionou chamar profissionalismo e de que o Flamengo é mesmo o maior. É como se fosse um gol pra nós. É pra isso que eu pago pay-per-view e não pra ficar ouvindo nego babar o ovo do Flamengo. Isso eu mesmo faço e cobro muito mais barato.

Atualmente a regra de ouro no show business é a segmentação, a tendência é que em breve as transmissões de futebol ofereçam um canal exclusivo pro torcedor de cada clube. Ai o locutor vai poder chamar o jogador do lado de lá por apelidos pejorativos, o comentarista vai dar aquela distorcida bonita nos fatos que as imagens mostram e o analista de arbitragem vai nos fazer acreditar que o Flamengo jamais levou um gol legal na vida. Mas pelo menos você terá pago pra poder escolher receber esse tipo de informação. Pode até ser que seja bom esse modelo, embora tema que depois de um tempo fique meio chato. O certo é que para criar demanda por esse produto é preciso que a transmissão mainstream também deixe o torcedor um pouco puto e o faça ter interesse pelas alternativas. Se é esse o business plan, está funcionando muito bem.

Que os donos do jogo aproveitem pra oferecer também a alternativa do áudio do estádio limpo e sem qualquer narração. Vai ser um sucesso.

Pau nos putos racistas.

Mengão Sempre

ARTHUR MUHLENBERG

Não chega a ser o fim do mundo, a torcida do Flamengo não é pior do que as outras. É só a maior do mundo.



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