É dura a vida do comentarista amador de futebol

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Arthur Muhlenberg

É muito dura a vida do comentarista amador de futebol. Mais dura ainda se a área de atuação do comentarista amador for o eletrizante Campeonato Carioca. Um universo paralelo que se descortina para além da porta de um armário na FERJ onde tudo é muito fluído e possui lógica própria. Regras, normas e padrões mudam de acordo com o vento, convenções e protocolos acompanham as marés. Neste cenário movediço o comentarista amador precisa perceber depressa que nada é exatamente o que aparenta ou deveria ser. Tem que ficar muito esperto.

Já começa pelo regulamento dadaísta da competição, uma crítica ao capitalismo e ao consumismo, concebido para abolir de vez a lógica, a organização, a postura racional, trazendo para o futebol um caráter de espontaneidade total. O regulamento do Carioca é tão malucão que se tivesse um anão e um jumento dava até pra confundir com as célebres festinhas estritamente familiares que o Impera fazia com o seu bonde e azamiga no Vip’s. A comparação pode até ser engraçada, mas é injusta. Porque as festas do Adriano pelo menos tinham público, no Carioca, não. O silêncio das arquibancadas retumbantemente vazias em todas as partidas da competição é ensurdecedor.

Diego em Flamengo x Portuguesa - Foto: Staff Images
O comentarista amador, que não tem credencial de imprensa e nem bilhete único, precisa fazer um esforço hercúleo para estar presente aos jogos. E se for pouquinha coisa sagaz logo desiste do heroísmo. Porque vai logo perceber que o business plan do Campeonato Carioca Dadaísta é semelhante ao das pizzarias delivery, onde o produto é marketado para ser consumido na casa do consumidor. Na pizzaria não tem mesa, nem prato, nem copo e nem talher. Se você insistir em comer a pizza no local onde ela é feita vai acabar se incomodando com a precariedade do atendimento. O Carioca se tornou um campeonato para sofá e poltrona.

Mas o comentarista amador sabe que o campeonato estadual não acontece numa bolha. Ele acontece no estado do Rio. A nova terra de ninguém que se transformou em um laboratório de experiências malignas de Pinks e Cérebros, onde a população é constrangida a participar como cobaia. Como é que faz pra acreditar numa intervenção no Rio que não remove a cúpula da FERJ? Estranho mesmo seria se o campeonato de tal estado fosse bem organizado, justo e honesto.

Felizmente o Flamengo encerrou sua participação na fase mais café-com-leite do Carioca com uma convincente vitória de 4×0 sobre a Portuguesa no Mondrianão de Cariacica. Convincente talvez seja uma forma moderada de exagero. Mas teve Diego Alves fazendo defesaças, pegando pênalti e dando um show de timing: começou a pegar muito e a confirmar sua fama assim que a ameaça de ser convocado pelo Tite passou. Teve Vinicius Junior jogando desde o começo e sendo menos incisivo do que na chapa quente dos 20 minutos finais que parecem ser seu habitat natural. Teve Lincoln também, nervoso como qualquer um de nós ficaria. E teve gol de todos os proscritos, Dourado, Everton Ribeiro e Geuvânio. Só faltou o do Rômulo, mas pra isso ele precisaria ter jogado. Também não vamos exagerar.

Quando o comentarista amador é surpreendido por essas ondas Reanimator fica amarradão, mas ao mesmo tempo desolado por ter que buscar outro cristo no estoque. Mas não deixou de vibrar com a cobrança maligna do Dourado, com o gol legalzinho do Everton e com os dois gols do Geuvânio. O Geuvânio me lembrou os tempos de escola, quando eu ficava o bimestre inteiro de sacanagem no fundão e perto das provas me mudava pra primeira fila, respondia às perguntas, fazia dever de casa, apagava o quadro, levava maçã pra professora.

A esperança de que Dourado mostre a mesma eficácia com a bola rolando do que a exibe com a bola parada e que Everton Ribeiro e Geuvânio se curem pra sempre da catalepsia provocada pelo peso do Manto Sagrado é a ultima que morre. Tudo indica que o Campeonato Carioca morre antes. Uma morte que vai ter tudo ver, como dizia Tristan Tzara, poeta e ideólogo do movimento Dada: A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque a beleza está morta. É dura a vida do do comentarista amador de futebol.

Mengão Sempre

Felizmente o Flamengo encerrou sua participação na fase mais café-com-leite do Carioca com uma convincente vitória de 4×0 sobre a Portuguesa.


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