Flamengo leva a derrota e um pacote de alertas

O resultado ao fim da temporada dependerá de como vai escolher reagir a todos eles.

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Diante de um regulamento esdrúxulo, responsável por esvaziar a competição, o Campeonato Carioca momentaneamente parece não despertar nenhum interesse ao Flamengo. Campeão da Taça Guanabara e já garantido nas semifinais, o clube rubro-negro tem na Taça Rio uma mera formalidade. Ainda assim é possível encontrar aspectos interessantes para o restante da temporada. A derrota de 1 a 0 para o Macaé com um time recheado de reservas garantiu ao clube um enorme pacote de alertas para a sequência de 2018. Questionamentos que devem ser feitos a pouco mais de um mês do início do Brasileiro e que encontram nos jogos de menor apelo algumas respostas.

Sim, respostas. Com o frenesí do calendário, o Flamengo cumpriu seu 13º jogo oficial em 2018 já na primeira quinzena de março. Quantidade razoável para se tirar um punhado de lições. Ou melhor, sinais. Paulo César Carpegiani tem claramente a ideia de sua formação ideal. Com os garotos, no início do Carioca, testou o 4-3-3 de forma bem sucedida. No meio de alguns jogos retomou o 4-2-3-1 dos dois últimos anos. Mas prefere, mesmo, o 4-1-4-1. Foi desta maneira que o time entrou em campo diante do Macaé.

Willian Arão em Macaé x Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
A opção de levar Lucas Paquetá para o jogo talvez passe pela necessidade de manter o mínimo de dinamismo do meia. É no garoto de 20 anos que residem, atualmente, as melhores opções do Flamengo em 2018. Elétrico, driblador, com grande mobilidade, o camisa 11 transita bem por todo o meio de campo. Iniciou por dentro pelo lado esquerdo, depois caiu para a ponta direita na troca com Geuvânio. A lembrar, sempre, que desempenhou em 2017 também a função de centroavante com Reinaldo Rueda. Paquetá teve muito a bola diante de um Macaé postado apenas na defesa, estruturado com três zagueiros. Um ataque contra defesa, assumido sem pudor algum pelo técnico Josué Teixeira.

É a estratégia usual utilizada por rivais diante do Flamengo. Fechar-se a partir da intermediária, diminuir os espaços para impacientar o time rubro-negro e, quem sabe, explorar o contra-ataque. O Rubro-Negro já deveria, porém, ter alternativas para furar retrancas. Carpegiani lançou Willian Arão, um volante de ofício, em campo, mas à frente de Jonas, mais alinhado com Paquetá e sempre em busca da infiltração na área, penetração nos espaços. A lentidão do camisa 5 para voltar à defesa chamou atenção. Trotava com frequência. É fatal para um esquema sedento de jogadores incessantes no vaivém, que troquem posições rapidamente e deem maior fluidez ao jogo, sem reter tanto a bola. Vinicius Junior e Geuvânio estiveram pelos lados. Busca pelo drible, perturbar os adversários. O Flamengo foi até melhor. Mas, a rigor, assustou apenas duas vezes. Um alerta de pouca efetividade.

Léo Duarte quase marcou logo no início em cruzamento de Geuvânio. No fim da primeira etapa, novamente boa jogada do ponta, que teve até boa noite, e um tapa de Vinicius Junior no rebote de Luis Cetin na trave. Há motivos para o Flamengo se alegrar em 2018. Um deles é o desabrochar de seus garotos. Mas há o alerta de preservá-los. Não os blindar de entrevistas, de minutos jogados. Devem formar seu caráter boleiro entre os profissionais com horas e horas de cancha. Mas é necessário criar uma força-tarefa para que sejam menos intimidados por rivais e visados pela arbitragem. Em seu trio de ouro, formado por Lucas Paquetá, Vinicius Junior e Lincoln, o holofote é intenso. E desperta ira alheia. Paquetá, por exemplo, tem no estilo de jogo um quê de futsal. Dribles curtos, rápidos, por vezes de letra, recurso utilizado em quase todos os jogos. Mas há quem encare dribles como pecados.

Árbitros, por exemplo. Em uma jogada de Paquetá no primeiro tempo, o meia zanzou para lá e para cá, partiu para cima do lateral Luis Felipe e só pararia na frente da área, com boas chances de arremate. Foi derrubado, duramente intimidado e reagiu com uma encarada. Levou amarelo de uma arbitragem conivente. Vinicius Junior já passou por episódios semelhantes. Lincoln também foi intimidado no segundo tempo e teve de ser socorrido por outro garoto, Pepê. É um desafio para o clube lidar. O ambiente lhes tem sido hostil, com anuência inclusive de parte da imprensa e ex-boleiros comentaristas, a quem o drible é um pecado ainda maior do que um pontapé.

Talvez por essa intimidação, Lucas Paquetá acabou retirado do jogo. Deu lugar a Pepê. Jonas deu lugar a Cuellar, ainda suspenso de mais uma rodada da Libertadores. O time piorou. Se antes tinha maior domínio da partida, embora fosse pouco efetivo, e pouco dava espaço para o contra-ataques, a equipe pareceu mais espaçada, cedendo brechas para as investidas do Macaé. O time da casa saía rápido com Edinho e Lepu, geralmente na esticada de bola para Pipico. E o Flamengo se adiantava. Léo Duarte e Thuler, por exemplo, chegavam próximo ao meio de campo. Por ali, o Macaé achou seu gol. Com o espaçamento da equipe, a esticada de bola de Pipico para Lepu nas costas de Léo Duarte foi veloz demais até para a cobertura de Cuellar. O chute cruzado saiu fraco e era defensável para Diego Alves. Dois alertas em um lance.

Talvez já valha internamente o questionamento se o camisa 1 rubro-negro voltou cedo demais aos jogos, sem maior tempo de readaptação ao tempo de bola. Tem falhado em lances fáceis para um goleiro de sua envergadura, principalmente em chutes rasteiros, como o gol de empate do River Plate e a a finalização de Lepu. E Léo Duarte tem justificado, em 2018, o período sem chances em 2017. A necessidade de maior oportunidades era clara diante do bom início nos profissionais, em 2016. Mas o zagueiro mostrou ainda estar verde. Mostrou lentidão em alguns lances, errando antecipações, e pouco senso de colocação em outros. Psicologicamente, também reagiu mal. Amarelado, parou Igor João com um tranco que fatalmente resultaria em um cartão vermelho. Ainda não é nele que o Flamengo irá encontrar um quarto zagueiro à altura do revezamento com Juan, Rhodolfo e Rever. Será necessário ir ao mercado.

Com um a menos em campo, o Flamengo ainda buscou o empate de forma desordenada, espaçado. Lincoln atuava mais pela ponta direita, com Vinicius Junior pela esquerda, Arão e Pepê por dentro. E Vizeu, lento demais e com dificuldade para qualquer arranque, em mau desempenho durante toda a partida. No macro, a derrota para o Macaé deixou um alerta claro: tecnicamente, o elenco continnua conceituado entre os melhores do futebol brasileiro. O desempenho, no entanto, mostra que a prática está muito aquém da teoria.

Batido pela primeira vez na História pelo Macaé, o Flamengo deixou dúvidas sobre sua capacidade de ser competitivo ao longo da temporada. Teve incríveis 72% de posse de bola, de acordo com o site Footstats, mas só finalizou três vezes no gol. Cruzou 37 bolas. E acabou derrotado pela segunda vez no ano. Claro, o regulamento pouco ajuda. Mas a oportunidade apareceu para inúmeros jogadores como Léo Duarte e Willian Arão. Pouco aproveitadas, em um jogo que até o gol sofrido o time pareceu ter tratado com pouco interesse, indiferente ao resultado. O time era misto. A camisa, mais uma vez, uma amarela sem identidade. Mas o Flamengo deixou Macaé com um pacote de alertas claros para 2018. O resultado ao fim da temporada dependerá de como vai escolher reagir a todos eles.


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