"Não tem como não ter vontade de jogar no Flamengo", diz Jonas

O jogador do Flamengo tira as lições para vencer no futebol.

GLOBO ESPORTE: Jonas fez parte do pequeno grupo - com mais seis jogadores - que se apresentou no dia 4 de janeiro para iniciar o Estadual. Pouco depois de dois meses, sem Cuéllar, cumprindo suspensão, é ele quem protege a defesa do Flamengo nas duas primeiras partidas da Libertadores de 2018, a competição mais importante do time no ano e que também é novidade para o piauiense de 26 anos.

- Inexplicável estar aqui vivenciando isso - resume Jonas, depois da conversa no saguão do hotel em Guaiaquil.

Contratado em 2015 pelo Fla, o jogador já foi emprestado à Ponte Preta, ao Dínamo da Croácia - onde jogou na Champions League contra a Juventus, o Sevilla e o Lyon - e estava no Coritiba na última fase antes de voltar ao Rubro-Negro. Uma vida nômade normal para quem nasceu em Teresina, foi descoberto por grandes clubes brasileiros em São Luis (Maranhão), mas também morou em Campo Maior (Piauí), Gravataí (do clube Cerâmica, no Rio Grande do Sul), Campinas e Curitiba.

Jonas campeão pelo Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
A entrevista no saguão do hotel do Flamengo durou 30 minutos. Tranquilo e um pouco menos tímido, Jonas lembrou do início e das dificuldades naturais na vida de um jogador de futebol de origem humilde. Do começo na escolinha do seu Zé Nunes, que já faleceu - Jonas presentou a família do antigo professor de futebol com camisa autografada do Flamengo -, ao empurrão da mãe Teresa Cristina e os conselhos do pai, o pedreiro João Francisco, o exemplo de vida de Jonas, o jogador do Flamengo tira as lições para vencer no futebol.

- Meu pai não quer sair do trabalho para não ficar só dependendo da gente (dos filhos). Já falei para ele: ''Fique tranquilo, de boa, estou podendo retribuir tudo que você deu para mim''. Mas ele não quer. Está trabalhando assim mesmo - contou Jonas, orgulhoso.

Da reavaliação ao posto de titular

A volta ao Flamengo era mais uma incógnita na luta para crescer na carreira de jogador de futebol. Ele lembra outros lances, de entradas duras, que ficaram menos marcados do que a dele em Gilberto num clássico Flamengo x Vasco - cita o episódio de Fagner com Ederson, que afastou o meia rubro-negro alguns meses dos campos.

- Quando voltei eu sabia que ia ser espécie de observação. Não me passaram se ficaria ou não. Mas eu sabia que ia depender só de mim mesmo. Porque queria dar reviravolta naquilo tudo que aconteceu. Normal você vir do Sampaio, que é um clube bom, mas não tem a mesma expressão, aí você chega no Flamengo... Não tem como... Torcida dessa, time desse. Não tem como não ter vontade de jogar. Às vezes me precipitava - comenta o jogador.

Do tempo em que ganhava R$ 200, R$ 250 até se profissionalizar e ganhar R$ 2 mil, com constantes atrasos, até melhorar de salário e conseguir dar mais conforto para a família, Jonas não esquece por um segundo. Nem mesmo do desejo de desistir do futebol. Poderia ser cobrador de ônibus, bico que muitos amigos no futebol faziam para jogar em equipes amadoras no Piauí.

Coincidiu da volta ao Flamengo vir no momento em que ele e a esposa vão ter o primeiro filho. Em agosto, a pequena Rebeca vem ao mundo. Neste recomeço no Rubro-Negro as palavras do pai, a cada partida, vêm à cabeça a todo momento, ainda mais na estreia na Libertadores, nesta noite contra o Emelec, em Guaiaquil.

- Ele me elogia, diz que está gostando, mas fala "devagar, meu filho. Vai com calma". Ele está sempre me apoiando em qualquer situação, nos momentos bons e ruins. Mas fala: "devagar, cuidado com os cartões".

"Eu acredito em mim"

Treinado por pouco tempo por Paulo César Carpegiani no Coritiba, Jonas ganhou confiança e incentivo com o experiente técnico do Flamengo. A receita pessoal para a Libertadores o faz relembrar o início na Série C e Série B do futebol brasileiro, campos que conhece bem e que o levaram até ser contratado pelo "mais querido".

- Quando Carpegiani chegou, ele falou que não tinha ninguém titular. Todo mundo ia buscar seu espaço. Assim fui trabalhando e me preparando bem para aproveitar quando a oportunidade voltasse - lembrou Jonas. - Libertadores é aquele clima de caldeirão. Todo jogo muito pressionado, de disputa, de força. Muitas vezes não se ganha na qualidade, mas na raça, na vontade, na pegada.

Na Europa, Jonas sentiu o frio e a dificuldade de adaptação. Foram seis meses longe da carne de sol, do arroz e do feijão, da tapioca que estava acostumado no Brasil - embora vez ou outra conseguisse receber algumas encomendas para fazer em Zagreb, cidade croata onde viveu.

- Eu não sabia falar nada e uma vez fui para um restaurante e pedi uma comida. Pedi o arroz, o bife e uma salada. Como acertei, tirei uma foto da descrição do prato para não esquecer. E todo dia só ia comer isso - contou, aos risos, o jogador.

Horas antes de encarar o primeiro jogo internacional na América do Sul, Jonas se recorda do início lá em Teresina, em Campo Maior, da exploração que sofreu em Gravataí, depois de fazer um teste no Cerâmica.

- Eu acredito em mim. O que mais lembro é de quando eu lavava grade para almejar coisas grandes. Não queria desistir. Olhava para trás e via que ia deixar um grande potencial. Mas quando a gente chega nesse patamar, pensa que valeu à pena a dedicação e o esforço. Se não fosse minha mãe, eu tinha desistido.


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