O Estadual fora da agenda

Dos 20 clubes que vão jogar a Série A do Campeonato Brasileiro em 2018, 16 entraram em campo por torneios estaduais no sábado ou no domingo.

CARLOS EDUARDO MANSUR: As fórmulas engenhosas, concebidas após admiráveis exercícios de criatividade para ocupar as longas 18 datas reservadas aos Estaduais, concedem aos times grandes múltiplas chances de classificação às finais; o calendário incha; os clubes se veem expostos à perspectiva de quase 80 jogos no ano; os torneios parecem uma interminável procissão. Neste fim de semana, o futebol brasileiro experimentou de forma dura o efeito colateral do anacronismo: o sentimento predominante no país em relação ao futebol era de indiferença.

Dos 20 clubes que vão jogar a Série A do Campeonato Brasileiro em 2018, 16 entraram em campo por torneios estaduais no sábado ou no domingo. Destes, nove o fizeram com times formados total ou majoritariamente por reservas. Nestes jogos, a média de público foi de 7.555 torcedores. É como tirar o futebol da agenda das pessoas em pleno fim de semana. Perder a fidelidade do público é risco excessivo para um país que, tradicionalmente, sofre para encher estádios.

Lincoln em Macaé x Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
No Campeonato Paulista, os quatro grandes chegaram à rodada final da fase de classificação, jogada ontem, já classificados. O mesmo aconteceu em Minas Gerais. O Gre-Nal, com Beira-Rio cheio e classificação em jogo, foi exceção graças a uma deformação do calendário: finalista do Mundial de Clubes, o Grêmio foi obrigado a jogar quase meio campeonato sem seus titulares. Mesmo assim, garantiu ontem lugar nas finais.

O Rio de Janeiro se aproxima de repetir o insólito enredo do ano passado. Os quatro grandes lideram a pontuação geral do campeonato, o que assegura a presença de todos eles na fase final do Estadual. Antes, no entanto, será decidida a Taça Rio, o segundo turno. Se os mesmos quatro forem os semifinalistas, o que é muito possível, haverá pouquíssimo em jogo. O público reage às distorções de formato e tamanho do torneio. Ontem, o Fluminense usou titulares e reabriu o Maracanã. Mas o jogo com o Nova Iguaçu só atraiu 3.317 pessoas. Num estádio tão grande, é um convite à depressão.

Já não é fácil convencer o público que torneios estaduais merecem atenção neste mundo globalizado. Os formatos, o excesso de jogos contra pequenos e a duração não ajudam. Muito menos o afastamento dos pequenos de seus estádios, como observou Marcelo Barreto ontem, aqui no GLOBO. Longe de comunidades que raramente veem seus times em jogos interessantes, privadas de receber a visita dos grandes, o campeonato perde outra das possíveis razões de sua existência: um caráter inclusivo.

Amanhã e quarta-feira a Europa verá o complemento das oitavas de final da Liga dos Campeões. Por vezes, clubes do continente lançam mão de times desfigurados. Mas é bem mais raro. Tanto que nenhum dos oito times que decidirão o futuro nos próximos dias usou reservas no fim de semana. Pesa o calendário menos inchado, mas também a falta do contraste com uma disputa hierarquicamente tão menos importante.

Não é simples culpar treinadores por poupar jogadores. Por vezes a escolha por preservar pernas e saúde de atletas lhes é imposta. Mas é justo culpar os clubes. Mostram-se frágeis, ou até ausentes, nas discussões sobre calendário, pífios na capacidade de articulação para debater em bloco temas nacionais. A articulação que fará o novo presidente da CBF tem assinatura da presidência da entidade e das federações. Postos para escanteio e sem reação, os clubes verão a estrutura de poder que sustenta os estaduais reforçada.



Marcadores:

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget