O futebol do Flamengo é uma caixa-preta

Aquelas que nunca são encontradas. Mas um dia a gente acha, isso é certo.

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Athur Muhlenberg

Como muitos na torcida do Flamengo passei os últimos anos esbravejando para que o Flamengo riscasse o Campeonato Carioca da sua lista de preocupações para dar prioridade total à Libertadores. Lógico que eu não estava moralmente preparado para aceitar que a prioridade à competição continental significasse eventualmente apanhar do Florminense ou perder pro Macaé, fenômeno que ainda não havia ocorrido durante minha breve permanência no planeta.

Aí um dos lados do meu cérebro, aquele que se acha mais esperto que todo mundo e sempre arranja uma explicaçãozinha cretina pra amenizar toda desgraça que me ocorre, sussurra: priorizar a Libertadores é isso. Atura ou surta. Mas o outro meridiano da minha massa cinzenta, que também é cretino, mas prefere o drama à sátira, reage: que prioridade é essa que vai pro jogo sem técnico, com zaga antiga e sem lateral de confiança? E nessa hora até o lado marrento dos meus miolos fica sem resposta e é obrigado a concordar com o vizinho menos exuberante. Prioridade é o cacete!

Vinicius Júnior em Macaé x Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
Lamentavelmente, tudo indica que o Flamengo, mais uma vez, entrou nessa parada pra perder. E não é porque perdeu pro Macaé com gol de Lepo, essa derrota podemos por tranquilamente naquela conta antiga da maldição onomástica, que a auditoria vai validar. Entramos novamente para perder porque não nos preparamos, não foi feito o dever de casa mais básico que é montar um elenco. É claro que pode dar certo entrar todo errado, taí o Brasileiro de 2009, nosso annus mirabilis a consagrar o improviso e a esculhambação.

Mas se a conquista da Libertadores da América, com todo o prestígio que traz, e, principalmente, com o poder de lavar os pecados pregressos, não motivaram os caras a trabalhar direito esse ano, não sei o que poderia motiva-los. É claro que os sujeitos ocultos na frase anterior são os dirigentes do Flamengo no coletivo e Eduardo Bandeira de Melo e Rodrigo Caetano no particular. Do Rodrigo não esperava muito em termos de pensamento a longo prazo, está funcionário do clube, mas é um profissional do mercado, vai pra onde o quiserem.

Mas do Bandeira, encerrando sua gestão, fechando um ciclo de 6 anos, eu esperava um pouco mais de obsessão pela Libertadores. Por mais modesto e sem ambições políticas que ele seja não é possível que não queira deixar um legado esportivo, uma marca no futebol mais grandiosa que um par de carioquinhas e uma Copa do Brasil. Ou, digamos que Bandeira seja um animal político, que ao menos se interesse em facilitar a eleição do sucessor que resolver apoiar e fortalecer o grupo a que pertence. Se o presidente compartilha essa obsessão com a maioria da torcida não tem deixado transparecer. Porque desde 2014 é a mesma coisa, o mesmo despreparo, a mesma gritante ausência do elán vital comum aos campeões da Libertadores.

Sempre achei que o que o discurso externo que chega até o torcedor através das coletivas e entrevistas exclusivas tem pouco valor no mercado dos fatos. Geralmente é fala ensaiada e cautelosa, mais preocupada em tirar o da própria galera da reta apostando tudo na autocongratulação e na exaltação da união do grupo. E é natural que seja assim, problemas se resolvem internamente e não dando show em entrevista.

Mas não deixa de causar estranheza que se perceba na maioria das declarações emanadas pelos responsáveis pelo futebol do Flamengo um certo alheamento à realidade dos fatos. O time joga porr* nenhuma e o treinador diz que tá satisfeito com a equipe, o cara perde pênalti decisivo e na beira do gramado se elogia pelo trabalho realizado e rebaixa o pecado do pênalti perdido à categoria de detalhe, o executivo diz que a vitória sobre o Emelec não é uma obrigação, e por aí segue o bestialógico rubro-negro. Obviamente que isso não é um fenômeno natural, é uma estratégia pensada e executada com ferrenha obstinação. Talvez tenha até sido planificada por um profissional, mas eu duvido muito.

Um profissional que valesse o fee cobrado teria atentado para o fato que a constância desse posicionamento excessivamente corporativista promoveria um afastamento cada vez maior do discurso corrente na torcida. Distanciamento que resultaria fatalmente na completa perda de credibilidade, um marco negativo que acredito já ter sido atingido. Não que o clube tenha por dever reproduzir ou reverberar em seu discurso o sentimento das arquibancadas, não é o caso para esses populismos grosseiros. Mesmo porque a torcida está aí pra torcer e não pra dar consultoria gratuita em gestão. Cada um no seu quadrado.

Essa postura oficial do clube só acentua o isolamento do futebol do Flamengo do resto do clube. Não é novidade pra ninguém que o Departamento de Futebol está para o Flamengo assim como o Vaticano está para a República Italiana. É um enclave com leis próprias, um castelo com fosso e porta-levadiça que tenta manter em absoluto segredo seus métodos e procedimentos. Sempre foi assim, um reino à parte, mas quando era na Gávea a coisa era menos evidente e mais vulnerável à pressão da opinião pública. Agora que foi pras lonjuras do Ninho do Urubu e a imprensa só entra com hora marcada, ferrou de vez. O futebol do Flamengo é uma caixa-preta. Mas é como se fosse aquelas caixas-pretas que se perdem no mar nas tragédias da aviação. Aquelas que nunca são encontradas. Mas um dia a gente acha, isso é certo.

Meus dois lados do cérebro tão sempre brigando. O lado direito acha que no vamo-lá-porra* tradicional dá pra ganhar a Libertadores. O esquerdo tem certeza que na cagada não dá. Atualmente eles só concordam uma coisa: já que não dá pra ficar esperando os milagres da priorização da Libertadores esse ano, que pelo menos priorizem a vitória sobre o Emelec na quarta-feira. E vamo que vamo.

Mengão Sempre


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