Postura estranha do Flamengo

Em um Fla-Flu que só esquentou no fim, a segunda vaga na final da Taça Rio ficou com quem foi mais competente e, também, interessado.

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Não foi daqueles Fla-Flus de guardar com uma moldura dourada no almanaque do clássico. Mas um Fla-Flu daqueles que renderam minutos de emoção até fim. Alheio a toda fervura, o Tricolor avançou por colocar justamente razão sobre coração. Até frio. O Fluminense de Abel Braga foi um time que entrou em campo com uma vantagem e uma estratégia para mantê-la. O empate que rendeu a vaga tricolor à final da Taça Rio em 1 a 1 foi conquistado com extrema competência no Engenhão diante de um Flamengo que foi apático, flertou com o desinteresse, e quando quis acordar percebeu já ser tarde demais.

Uma postura até estranha para o Rubro-Negro. Afinal, era ele o time em desvantagem no confronto. Com campanha inferior, o time precisava vencer o Fluminense para avançar a mais uma final de turno. Não conseguiu. Paulo César Carpegiani mandou a campo o time mais uma vez no 4-1-4-1, Jonas à frente da defesa, Rodinei e Renê nas laterais. Lucas Paquetá pela direita, Diego e Everton Ribeiro por dentro, Everton à esquerda. O mesmo time que não só venceu o Emelec, como teve boa apresentação.

Rodinei em Flamengo x Fluminense - Foto: Lucas Merçon
Ocorre que o Flamengo é irregular. Precisa sentir a temperatura do jogo para se apresentar. Nem mesmo a goleada de 4 a 0 sofrida na primeira fase, ainda que com reservas, pareceu incomodar. O 4-1-4-1 só é efetivo quando a movimentação dos meias é intensa à frente e atrás, a busca por passes verticais é permanente e há ao menos uma ajuda de laterais para ultrapassar aos lados. Em suma, organização. Com o farol baixo, parecendo até desinteressado no clássico, o time teve a bola, mas apenas rondou a área tricolor. E ainda ficou espaçado, dando a senha para a fórmula de Abel funcionar.

A estratégia do Fluminense foi simples. Travar a frente da área e os lados. Encurtar qualquer espaço para a penetração rubro-negra. Ao contrário da eliminação diante do Avaí, quando necessitava da vitória e manteve o 3-4-3 de toda a temporada, primeiro os alas seguravam ao lado do trio de zagueiros. Formavam, então, uma linha de cinco defensores. O Flamengo teve grandes dificuldades. Paquetá acelerava o jogo, tentava dar passes de primeira, mas não tinha companhia na ideia. O Fluminense, então, disparava em contra-ataque ao roubar a bola.

Jadson, cada vez mais seguro na equipe, deixava a vigília dos meias rubro-negros, principalmente Diego, com Richard e avançava para encostar em Marcos Junior e Gilberto. Na esquerda, Ayrton Lucas, ótima revelação, era a melhor arma tricolor: costurava por dentro ou caía por fora, dependendo dos avanços de Rodinei. E havia espaço para encostar em Sornoza. O Flamengo, lento, apático, estava desorganizado. Girava a bola devagar de um lado ao outro, mas sem conseguir penetrar na defesa. Não mostrava inspiração. O Fluminense trabalhava com velocidade.

A rigor, o time rubro-negro teve duas chances no primeiro tempo. AS duas com Henrique Dourada. Na primeira, em cruzamento de Everton da esquerda, ele cabeceou fraco, no meiodo gol. Na segunda, após boa jogada de Paquetá que resultou no cruzamento de Rodinei, a conclusão na bola mascada foi no meio do gol, em boa defesa de Julio Cesar. Mas o Ceifador, personagem de desfalque, deixou a desejar contra o ex-clube como já falhara diante do Emelec. Anda devendo. Pouco contribuiu para prender a bola no ataque e tem perdido chances importantes.

Com boa saída de bola com os zagueiros, principalmente em Ibañez, o Fluminense forçou o jogo pelo lado esquerdo. Por ali, Ayrton Lucas criou a melhor chance ao sair da ponta para o meio, driblar três adversários e chutar cruzado ao entrar na área. Diego Alves fez boa defesa e o jogo parecia fadado a terminar sem gols no primeiro tempo. Mais confortável com a partida sob controle, ainda que o Flamengo tivesse mais a bola, o Fluminense soltou mais os alas no fim do primeiro tempo. Em um escanteio, ampliou a vantagem. Sornoza cobrou da esquerda, a bola viajou até a pequena área e Gum, sozinho e sem o combate de Renê ou Jonas, tocou de cabeça no fundo da rede de Diego Alves. 1 a 0.

Carpegiani tentou tornar o Flamengo mais ofensivo e interessado no segundo tempo. No intervalo, sacou Renê, recuou Everton e pôs Vinicius Junior na esquerda. Uma tentativa de que o garoto repetisse o brilho que teve no Equador. A diferença é que diante do Emelec o Rubro-Negro jogava bem, estava organizado. E havia espaço. Panorama contrário do que ocorria no Engenhão. Mais uma vez o Fluminense mantinha os cinco defensores. E Vinicius, com sua habilidade, tentou. Chegou a dribla três marcadores arrancando desde antes do meio de campo. Ao chegar na ponta da área, não havia para quem tocar a bola. Ao tentar passar também por Gum, acabou cercado por outros rivais e desarmado. Era o retrato do jogo: um Flamengo à espera de brilhos individuais, um Fluminense coletivo.

Abel sacou Marcos Junior, cansado, e pôs Pablo Dyego. Forte, veloz e inteligente, o garoto foi peça importante para puxar os contra-ataques. Caiu pelos dois lados, fez Rever e Juan tentarem antecipar botes e tornou o Fluminense mais perigoso. Em um contragolpe, ele disparou pela esquerda, virou o jogo para Jadson, que apareceu dentro da área, pela direita. O volante apenas rolou para Gilberto que, na frente de Diego Alves, bateu por cima, perdendo grande chance de matar o jogo.

Carpegiani tentou remendar a equipe com Cuellar na vaga de Everton Ribeiro. Mas o colombiano, tradicionalmente primeiro volante, jogou mais avançado, quase como um dos meias. Rende menos. Seu forte é enxergar o jogo de trás e tentar iniciar o jogo com passes verticais. Algo que Jonas pouco faz, obrigando o retorno dos meias para iniciar o jogo. Diego, novamente, se desgastava. Buscava alçar bolas à área ou cruzar pelos lados. De acordo com o site Footstats foram 37 cruzamentos do Flamengo no clássico. Reflexo do Fluminense bem posicionado a partir da intermediária defensiva.

Com tanta dificuldade rubro-negra, Abel decidiu reforçar o meio. Trocou Richard por Douglas e depois Pedro por Marlon. Sornoza avançou e o time assumiu um 5-4-1 para buscar fechar o jogo. A cartada rubro-negro foi Felipe Vizeu. Em meio a polêmicas de dedo médio a companheiros, negociação, pedido de dispensa e exibição de chuteiras do patrocinador pessoal, o jogador substituiu o apagado Henrique Dourado. Pouco fez. O Flamengo chegou ao empate a cinco minutos do fim do tempo regulamentar, em um golaço de Everton após rebatida em escanteio cobrado por Diego.

Em um chutão de Juan aos 46 minutos, Vizeu resvalou de cabeça no meio, Vinicius Junior escapou entre os zagueiros, avançou até à área e bateu cruzado, mas para fora. O empate deu minutos de emoção ao Fla-Flu, mas na chance derradeira da redenção rubro-negra, Everton bateu na barreira de um homem só a falta e Diego, ao esperar para fazer o giro contribuiu para a chegada da marcação na ponta direita. O recuo para a defesa quando o goleiro Diego Alves, desesperado, invadiu a área tricolor em busca da salvação, indicou bem a postura rubro-negra no jogo. Um empate amargo ao Flamengo, mas conquistado com eficiência pelo Fluminense.

Após a eliminação para o Avaí na terceira fase da Copa do Brasil, o time tricolor precisava apresentar uma resposta. Teve apenas 42% da bola nos pés e duas finalizações no alvo em 12 tentadas. Mas foi superior por um simples motivo: cumpriu à risca sua estratégia e travou o rival. Pensou o jogo de uma maneira e trabalhou para indicá-lo neste caminho. Reconheceu a inferioridade técnica. Correu risco de perder a vaga apenas nos minutos finais, em uma tentativa de abafa de um Flamengo que parecia ter acordado. Mas que foi apático na maior parte do jogo, teve pouca movimentação desde o início e aceitou a receita rival de prender cinco defensores na área e lhe limitar espaços. Não apresentou alternativas. Ainda há segunda chance no Carioca. Mas pode não haver em confrontos mais importantes ao longo da temporada. Em um Fla-Flu que só esquentou no fim, a segunda vaga na final da Taça Rio ficou com quem foi mais competente e, também, interessado.


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