Receio do Flamengo com a Libertadores é caso para divã

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Aprisionado em um reflexo opaco, com uma sequência de eliminações vexatórias nas últimas décadas, o Flamengo atualmente é um clube receoso quando entra na Libertadores. Há uma nuvem pesada. Não importam jogadores, atuações individuais. A luta do Flamengo na América do Sul é contra si próprio. Ver-se livre de sua imagem derrotada nas canchas sul-americanas. Mais uma vez, não conseguiu. Depois de deixar a competição em 2017 de forma vexatória, o Flamengo recebeu o River Plate em um Engenhão vazio, consequência direta da baderna na final da Copa Sul-Americana do último ano. Um gol argentino a quatro minutos do fim decretou o 2 a 2 que, se não foi vexatório, encharcou a memória de frustrações. No vazio do Engenhão se ouviu o eco. Este eco. O Flamengo é um clube frustrado na Libertadores.

Às vésperas de toda participação rubro-negra há uma tentativa, em vão, de tornar o ambiente favorável. Animação entre os torcedores, entrevistas especiais de jogadores, preparação de gala, palavras ensaiadas. Em campo, a rotina. O Flamengo parece não compreender a Libertadores. Inicialmente fora de campo, onde a presença no dia a dia da Conmebol se faz necessária para evitar arbitragens extremamente prejudiciais como a do peruano Michael Espinoza, que ignorou um pênalti claro e validou um gol em impedimento do clube argentino. É um ponto. Importante. Mas apenas um ponto da competição. Em campo, o clube também tem de entender a Libertadores. Não dar brechas para levar uma rasteira em minutos finais. É, de todas, a competição mais traiçoeira. Convida a presa para seu ninho pronta para abatê-la. O Flamengo, de novo, insistiu em se oferecer.

Time do Flamengo na Libertadores 2018 - Foto: Buda Mendes/Getty Images
Pela frente, um enorme River Plate em plena crise. A passadas lentas no Campeonato Argentino. Escaldado das pancadas recentes. Não seria fácil. O Flamengo entrou em campo no 4-1-4-1 já característico da temporada e que obteve bons frutos em jogos no Campeonato Carioca. Inicialmente, com Paquetá e Everton alternando com frequência pela esquerda. Mas dificuldade na saída de bola. Sem Cuellar, suspenso, Jonas não mostrou essa capacidade. Bola aos lados ou para trás, principalmente com Rever, que avançava a passos para iniciar o jogo rubro-negro. Vez em outra, com lançamento. O River agradecia. Afinal, deixou clara a estratégia: marcar com pressão a saída de bola rubro-negra para contragolpear. Na formação, o mesmo 4-1-4-1. Com a bola no pé, o time se armava em um 4-1-3-2, quando Mora se aproximava de Pratto para aumentar a presença na área. Mas, como diz Guardiola, são apenas números de telefone.

Na batida da bola em campo, a estratégia do River funcionava. O Flamengo não encontrava espaços. E forçava bolas longas para Henrique Dourado, que tentou dublar Guerrero com o pivô algumas vezes. Em uma delas, arriscou chute de fora da área que assustou Armani. Mas a marcação era dura a ponto de deixar o time rubro-negro impaciente. O River chegava forte, dava recado. Confuso, o Flamengo tentava trocar a posições. Paquetá foi para a direita e Everton Ribeiro caminhou para a esquerda. Everton ficou por dentro ao lado de Diego. Toca lá, toca cá. O River, bem posicionado, fechava-se quase com cinco homens atrás de Pratto na maioria das vezes. E explorava as saídas de De La Cruz nas costas de Pará. Por ali, o River insistiu. Mas pouco agrediu. A lamentar, o pênalti claro em mão de Zuculini após cabeçada de Rever. Mas o jogo foi ruim. E o empate sem gols nada surpreendeu na primeira metade.

No retorno do intervalo era de se esperar um Flamengo mais agressivo, menos receoso na competição. Diante do bom posicionamento defensivo do River, talvez uma aposta nos dribles de Vinicius Junior, já que os de Everton Ribeiro, mais uma vez, não funcionavam. Não houve mudança de jogadores, mas inicialmente o time foi mais feroz. Adiantou a passada, posicionou-se ainda mais perto do gol do River e passou a trocar passes. Diego, em noite tímida, entrou mais na área. E foi nela que sofreu o pênalti claro ao levar uma pernada de Pozio. Henrique Dourado, como de habitual, esbanjou competência para deixar o Flamengo na frente com nove minutos. Na melancolia da ausência dos gritos da arquibancada, 1 a 0.

Era o momento necessário para provar um amadurecimento do Flamengo na Libertadores. Que 2017 não tivesse sido em vão. Vantagem debaixo do braço em um jogo aguerrido, diante de um adversário e sem apoio da torcida. Três pontos fundamentais. Não deu nem para piscar. Na saída de bola, o River foi ao campo rubro-negro e sofreu falta. Na cobrança, Rodrigo Mora, em claro impedimento, empatou. 1 a 1. Em que pese o grave erro de arbitragem, o panorama que antecedeu ao gol era inaceitável. Receoso, o Flamengo não soube trabalhar com a vantagem a seu favor. Fosse com a manutenção da posse ou um recuo estratégico para buscar o contra-ataque fatal. Em um minuto, a bola mergulhou na rede rubro-negra.

O empate tornou o jogo mais franco por alguns minutos. Menos organizado do que nos outros jogos da temporada, o Flamengo insistia em atacar com pouca qualidade na saída de bola. E trocava os meias com insistência. Novamente, Paquetá caiu para direita, pela ponta ou por dentro. Também para frear De La Cruz, mas muito para dar apoio no setor, Carpegiani trocou Pará por Rodinei, mais incisivo. Em minutos, funcionou por conta de um lance muito inteligente. Mas em um time que trabalha com tantos meias e deveria priorizar o passe, a solução foi achar um espaço por cima. Um belo lançamento para um também invertido Everton, dentro da área, matar no peito e chutar cruzado. Bela jogada, belo gol. 2 a 1.

Somaram-se, a partir daí, os acertos de Gallardo e os erros de Carpegiani. O argentino colocou o time à frente. Adiantou Quintero e Mora pelos lados, com Scocco e Pratto bem próximos na área. Ao atacar, o River subia com quatro homens. Calhou com o convite rubro-negro. Ao perder Jonas, Carpegiani optou por Romulo, de fraca atuação no Fla-Flu. Com Everton cansado a dez minutos do fim, ele optou por estrear Willian Arão na temporada. Paquetá abriu à esquerda, Everton Ribeiro à direita, Diego centralizou. Seria o velho 4-2-3-1 das últimas temporadas. Mas o Flamengo estava receoso. Retraído. Postou-se mais em um 4-4-2 e chamou o River a seu campo. Arão, em noite infeliz, errou botes e passes até a falha definitiva. Na passada de bola da esquerda para a direita, ela se ofereceu na frente da área entre Arão e Mayada. O camisa 5 resumiu em um só lance a pouca aptidão do Flamengo à Libertadores: não dividiu a pelota com o uruguaio. O chute saiu seco, no cantinho direito inferior de Diego Alves. Bem defensável. Mas, de novo, no fundo da rede. 2 a 2.

No eco da arquibancada, um empate amargo para um time que tinha a obrigação da vitória em casa. Ao sair da primeira rodada da Libertadores, o Flamengo já puxa a calculadora. Será obrigado a arrancar bons resultados fora de casa, além de cumprir os compromissos restantes no Rio. Mesmo com os 58% de posse de bola, de acordo com o Footstas, o Flamengo não esteve bem. Lento, disperso e depois irritadiço e receoso na sua estreia. Não encontrou soluções diante de um rival bem fechado. No eco do Engenhão vazio, mais uma frustração na maior competição sul-americana. No primeiro teste do ano, o time ficou aquém. O receio do Flamengo com a Libertadores é caso para divã.

Ao sair da primeira rodada da Libertadores, o Flamengo já puxa a calculadora.

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