Vinicius Junior ganha um jogo para chamar de seu

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Ele antevê a jogada. Aponta para o futuro. E dispara. Número 20 às costas, as passadas são aceleradas. O olhar segue a viagem da bola pelo alto. Bagüí já não consegue acompanhá-lo. Parece desistir. E vê o moleque de camisa rubro-negra frear. Não para pensar. Apenas para amansar a bola. Espera o primeiro quique. A redonda desce aos seus pés e se acalma. São íntimos. Mais dois toques do garoto na pelota, de forma suave. Baguí, esbaforido, arregala os olhos. De novo não, moleque. Então ele vê Diego entrar na área com a camisa 10. Rola de forma marota. Mas ela volta a se oferecer. Ali, de frente para o gol. O tapa é no capricho, com categoria. De canhota. Na bochecha da rede. A língua escancarada aparece. Sai correndo sem destino. Tem só 17 anos. Baguí está no chão. Com apenas 11 minutos em campo, Vinicius Junior, agora, tem um jogo para chamar de seu.

Comemoração de Vinicius Júnior pelo Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
Pois lá na frente, o garoto vendido por uma pequena fortuna ao Real Madrid se tornará homem. Se entrará para o panteão dos grandes com a bola nos pés é ainda um mistério. O caminho é promissor. Quando olhar para trás, Vinicius, o homem, vai sorrir e se lembrar com saudade daquele 14 de março de 2018. Emelec um. Flamengo dois. Dois gols dele. Vinicius Junior. Ainda um garoto. Ainda com 17 anos. Já decisivo em um jogo grande de Libertadores. O jogo no qual ele entrou para mudar o curso da história e chamar, pela primeira vez, de seu.

O rótulo para sempre será de Vinicius Junior, ainda menino, desabrochando. Mas o Flamengo, num todo, foi bem. Apresentou um time estruturado para receber a sua cereja do bolo no segundo tempo, quando o roteiro conhecido pelos rubro-negros se apresentava: derrota fora de casa, chances perdidas, agonia com o andar acelerado do relógio. Paulo César Carpegiani avisou e cumpriu: o time entrou mesmo em campo no 4-1-4-1 escolhido por toda a temporada. Decidiu ser mais válido apostar na movimentação intensa de seus meio-campistas do que ser pragmático e recolher um segundo volante para se defender. O empate amargo com o River Plate na primeira rodada deixava claro: o Flamengo precisava trocar golpes com o Emelec. Tentar vencer.

Cobrado pelo seu alto potencial técnico para padrões sul-americanos, o time deu resposta. Entrou ligado, atento, mordendo cada pedaço do campo. Lucas Paquetá, pela direita, até demais. O garoto carrega consigo o peso de ser a boa nova para 2018. Exagerou ao ser muito individualista no começo da partida, arriscando chutes em vez de servir companheiros. Natural pela idade, mas um ponto a ser corrigido. A força deste Flamengo pode vir no coletivo. Na outra ponta Everton atacava e fechava pelo meio ao ver o time atacado. Everton Ribeiro e Diego, por dentro, comandavam as ações. Uma ótima notícia: os meias medalhões se apresentaram mais ao jogo, cientes do tamanho da responsabilidade. Fizeram a bola girar mais rápido. O camisa 10 evitou a cadência. Em vez de jogar para Tite, tentando dublar o ritmista, jogou para o Flamengo, assumindo o número 10 nas costas. Buscou dar velocidade a um jogo que exigia este padrão.

Isto porque o Emelec entrou no caldeirão George Capwell em um 4-2-3-1. Estava claro que buscaria os lados do campo com Preciado e Burbano, mas necessitava começar pelo meio, com Quinõnez e Arroyo. A movimentação rubro-negra, pressionando sempre a saída de bola rival, complicou o time equatoriano. Com o barulho da torcida, o Emelec tentou acelerar ainda mais o jogo. E, com isso, acabou surpreendido. Jonas, em ótima noite, somou oito desarmes, de acordo com o site Footstats. Não mostrou um pingo da tão criticada ansiedade. Chegou bem, na bola, e iniciou lances como o primeiro gol rubro-negro. Servia Everton Ribeiro e Diego. O camisa 10, como dito, tentou mudar o jogo. Menos cadência, maior aceleração e enfiadas de bola. Logo no início, achou Everton Ribeiro na esquerda dentro da área, mas Guaga chegou antes e deu um tapa na bola, cometendo um pênalti escandaloso ignorado pelo árbitro paraguaio Mario Díaz Vivar.

A melhor saída para o time equatoriano mostrou ser o lado direito. Paredes avançava pelo meio e pelo lado, não guardando posição, buscando tabela com Luna e Burbano. Renê sofreu. Nervoso, errou passes em demasia quando pressionado e foi o ponto fraco no primeiro tempo. Era um jogo até franco, com duas equipes sedentas pelo ataque, muito combativas. O melhor lance rubro-negro chegou em cabeçada de Rhodolfo após escanteio de Rodinei. Dreer fez ótima defesa no canto inferior esquerdo e manteve o empate sem gols no placar.

A quem celebrou o primeiro tempo muito ativo, o etapa final seria ainda mais agradável. O panorama inicial foi bem parecido com o início. A diferença para o Emelec foi a entrada de Montero, ainda no fim do primeiro tempo, no lugar de Burbano. Habilidoso, o atacante deu mais trabalho ainda a Renê. Buscava o confronto no mano a mano, saía da ponta para dentro, tentando servir Angulo. A movimentação no meio rubro-negro ainda ocorria, embora de forma menos intensa. Diego era a exceção. Mantinha a corrida no vaivém como poucas vezes visto recentemente. E comandava o Flamengo rumo ao ataque. Era um bom desempenho rubro-negro. Mas a história recente do clube na Libertadores indica que nem isso é suficiente para garantir. Em minutos, o golpe. Quinõnez recebeu no meio e enxergou Angulo se desgarrar de Juan. Rhodolfo chegou tarde na cobertura e o atacante bateu forte, desviando no zagueiro, para encobrir Diego Alves. 1 a 0.

Parecia ali o cenário de sempre para o torcedor rubro-negro em Libertadores. O empate sofrido no fim com o River, a derrota em boa atuação diante do Emelec fora de casa. Talvez fosse esse o destino uma vez mais. Não fosse um garoto iluminado. Carpegiani entendeu a necessidade de colocá-lo em campo aos 21 minutos. Os 18 seguintes seriam dourados para a história particular do garoto. E tirariam a história rubro-negra do lugar-comum. Em vez da esquerda, a direita. Vinicius caminhou para a ponta, acompanhado pelo lateral Baguí. Paquetá foi para a esquerda, por dentro. O Emelec, ensandecido com o pulsar do caldeirão, adiantou o time. Tentou o segundo gol para definir o triunfo. Não contava com o molecote de 17 anos.

Vinicius Junior, de forma tão precoce, tem característica única no elenco rubro-negro e rara no futebol brasileiro: é decisivo. Recebe a bola e parte para dentro a fim de decidir a jogada. Dribla e finaliza. E, com seus 17 anos, ainda erra demais. Mas quando acerta…é diferente. Distingue-se do restante por já enxergar além. Aponta para onde quer a bola. Não tem receio algum de tê-la. Apresenta-se ao jogo. Quando Jonas desarmou Mondaini no meio e serviu Diego, que virou rápido para Paquetá no campo de ataque, Vinicius já indicava. Parecia dizer: ali, ali. Paquetá fala sua língua e lhe serviu. Ali mesmo. Abusado, Vinicius deixou para trás preconceito e inveja que lhe cercam no Brasil. Não se intimidou. Parecia saber que seria o seu grande momento.

Como num balé, o garoto chegou na entrada da área e numa puxada transformou o vazio em beleza. Passou no meio, travesso, entre Arroyo e Baguí. Não se desesperou. Foi frio, quase cruel, no corte seco em Mejía. Teve o gol escancarado à sua frente. A patada de pé esquerdo ainda desviou levemente em Guaga, mas venceu Dreer facilmente. Estufou a rede e aliviou a alma rubro-negra. 1 a 1. Henrique Dourado teve a chance de desafogar de vez o espírito rubro-negro. Perdeu, na pequena área, chance incrível de cabeça. Falhou no objetivo para o qual foi contratado, com outras duas chances claras no jogo. Não foi o finalizador que se espera. Pareceu ansioso por cumprir o papel. Mas, por sorte, teve Vinicius Junior como companheiro. E pôde de perto testemunhar o garoto.

O segundo gol, também soberbo, tornou a noite uma daquelas fábulas que contaremos sempre com o passar dos anos. E que podem se tornar ainda mais saborosas com a traição da mente no embalar do tempo. Alguns poderão dizer que Vinicius Junior deu dribles que nunca existiram. Alguns poderão dizer que o Emelec era um adversário abaixo da crítica, o que não era. Outros poderão argumentar que o jogo não era tão grande assim, como era. Mas todos dirão que foi naquela noite de 14 de março no Equador que Vinicius Junior, 17 anos, deu seu primeiro passo para a maioridade no futebol. E ganhou um grande jogo para chamar de seu.

E comandava o Flamengo. Era um bom desempenho rubro-negro. Mas a história recente do clube na Libertadores indica que nem isso é suficiente.


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