A amargura de um Flamengo sem eco

Estava desorganizado, ainda sem uma alternativa relevante para penetrar na área, furar a defesa rival sem a obviedade da bola lançada à área.

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

A esperança das quase 50 mil vozes que foram ao Maracanã para o treino aberto na véspera cheirava àquela autoconfiança quase insuportável aos olhos rivais, típica da torcida rubro-negra. Tem a certeza de que dali de cima, metros sobre o gramado, emana uma força, um calor quase palpável que preenche a alma e é capaz de mudar destinos. Pois era isso que a torcida queria: mudar o destino que o Flamengo insistentemente traça na Libertadores há anos, com um acúmulo de decepções. Por poucos minutos, o time pareceu que tinha sido de fato eletrizado pela massa. Abriu 1 a 0, foi envolvente. Mas sofreu um golpe com o empate. E parou. Voltou ao seu abatimento natural, à dificuldade de quem não tem confiança sequer para olhar no espelho. E correu. Seria injusto dizer que não. Correu de forma desordenada, como quem procura, afoito, uma saída aleatória para um problema recorrente. E falhou. No Maracanã vazio, o Flamengo uma vez mais não teve eco.

Rodinei em Flamengo x Santa Fe pela Libertadores - Foto: Buda Mendes/Getty Images
Claro, a atmosfera do estádio desaparece em um jogo com portões fechados. É melancólico. Mas o Flamengo entrou em campo com a postura de quem sabia exatamente o que estava em disputa. A vitória era essencial para afastar cada vez mais a possibilidade de repetir o fracasso de 2017. No 4-1-4-1, Mauricio Barbieri não lançou novidades. Era o time esperado. Mas com muita movimentação, troca de posições entre os quatro jogadores atrás de Henrique Dourado. Criou dificuldades para o Santa Fé. Posicionado em um 4-5-1, o time colombiano tentava fechar os espaços por dentro, mas não achava os meias. Deu a impressão que seria fácil.

Por dentro, o Flamengo chegava com tranquilidade até a área. Diego tabelou com Paquetá e perdeu chance claríssima quase na pequena área com três minutos. A mobilidade dos meias por dentro, com Everton Ribeiro procurando recuar para achar uma entrada de Diego na área, ajudou. Era claro que o rival estava tonto. Não entendia bem a movimentação. A chance para sacramentar a vitória era clara. E parecia bem pavimentada quando Diego, com apenas sete minutos, bateu escanteio preciso para Dourado se antecipar ao goleiro e marcar de cabeça. 1 a 0. A desvantagem assustou ainda mais o Santa Fé.

Enquanto conseguiu manter a movimentação rápida, o Flamengo foi dominante. Ocupou o meio, travou as saídas do rival até mesmo para contra-ataques. Vargas, válvula de escape para auxiliar Morelo, tinha de ficar mais preso. Plata e Pajoy não saíam pelos lados. Era óbvio: o Flamengo mantinha o posicionamento avançado, ocupava o campo, cercava a área e buscava o jogo por baixo. Até diminuir o ritmo e permitir ao Santa Fé respirar. Entender melhor como encaixar a marcação. Arboleda fixou em Vinicius Junior, diminuindo qualquer espaço de criação do garoto. Gil aproximou de Paquetá.

Os volantes reduziram a distância para os zagueiros e acabaram com a área de atuação de Diego, que foi obrigado a recuar. O Flamengo estava próximo de desabar. Bastou um erro de cálculo do camisa 10. Ao tentar tocar de primeira para Vinicius Junior em frente à área, foi facilmente desarmado. Com a zaga adiantada, Plata disparou pela direita, entrou na área e conseguiu rolar para Morelo, sem marcação próxima, tocar para o gol. 1 a 1. O Flamengo esfarelou. E ligou seu piloto automático de cercar o ferrolho rival, evitar jogadas por dentro e alçar bolas na área. Dourado perdeu boa chance em cruzamento de Rodinei. Mas era um espaço que já era exceção. Era um Flamengo abatido. Calado. Sem eco.

A volta para o segundo tempo não revigorou o time. Nesses momentos, a falta da empáfia da arquibancada, certa de que mudaria nos berros o destino daquela equipe, era clara. Não havia quem incendiar o time depois de um lance morno com contornos de perigo. Aquele berrar por nada. O Flamengo teria de jogar apenas por si. Não foi o suficiente. O Santa Fé endureceu a marcação. Fechou-se mais, evitou espaços. O empate era ótimo resultado. Diego voltou a aparecer com frequência entre Rever e Juan, buscando iniciar o jogo na marra. Não conseguiu. Envolvido, girava, girava e não conseguia limpar o jogo como fazia em 2016. O passe lateral irritava até a arquibancada vazia. A insistência em fazer de Henrique Dourado, um finalizador, um holograma de Guerrero, em busca do pivô com as bolas mais difíceis, era ingênua.

Barbieri decidiu mudar. Sacou Everton Ribeiro e Henrique Dourado, membros ainda recentes do unido grupo do Ninho do Urubu. Abriu espaço para um integrante da velha guarda já estabelecida, Willian Arão, e Lincoln, ainda uma projeção em um jogo tão pesado. Ao tirar Ceifador, Barbieri retirou também a presença de área e a preocupação dos zagueiros rivais. Deixou o Santa Fé mais à vontade. Bastaria bloquear a intermediária. Lincoln saía demais da área, tentando diálogo com Vinicius Júnior e Diego. Arão, aposta para infiltração e maior ocupação do ataque, principalmente por dentro, parou no bloco de defesa. E o time perdeu a criatividade de Everton Ribeiro. Passou a se concentrar pelas pontas, mas Paquetá e Vinicius continuavam bem vigiados. Da intermediária, Diego ou a promessa vendida ao Real Madrid alçavam bola na área. O time piorou. Não havia resmungos na arquibancada. Não havia eco em campo.

A última cartada de Barbieri foi apostar nos dribles pelos lados. Sacou Vinicius Junior e pôs Paquetá pela esquerda, com Geuvânio na direita. Mais à vontade, o Santa Fé sacou Arboleda, livre da vigília a Vinicius, e colocou Giraldo na expectativa de uma saída rápida pela direita. O flamengo quase conseguiu o gol salvador, com Paquetá e Juan, evitado duas vezes por Soto em cima da linha após escanteio, e Diego, que recebeu de Paquetá e bateu em cima de Zapata ao entrar na área. O time, sim, corria. Mas estava desorganizado, ainda sem uma alternativa relevante para penetrar na área, furar a defesa rival sem a obviedade da bola lançada à área.

Ao apito final, um Flamengo deixou o campo em um misto de emoções. Ainda líder do grupo no presente, teme o futuro por ainda ter traumas do passado na competição sul-americana. 50 mil vozes foram ao Maracanã um dia antes, abraçaram o time e se apresentaram como a força para mudar os rumos empoeirados de um Ninho do Urubu rotineiramente melancólico e que parece consciente de que a sequência de fim de ciclos iniciada por Everton parece inevitável. Na imensidão do Maracanã vazio, o Flamengo, uma vez mais, foi um time sem eco algum.


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