Caetano critica fala de Lomba e interferência da torcida no Flamengo

Caetano não fugiu do tema e admitiu: a manifestação do vice de futebol Ricardo Lomba contribuiu para a demissão no Flamengo.

GLOBO ESPORTE: Em uma hora de entrevista, a primeira desde que foi demitido pelo Flamengo, Rodrigo Caetano, normalmente polido na frente dos microfones, contou sobre os bastidores da saída do Rubro-Negro, o primeiro desligamento na carreira em mais de 10 anos no futebol profissional.

O clube da Gávea foi o quarto na trajetória do ex-meia esquerda de 48 anos - com início e títulos no Grêmio, Vasco (duas passagens) e Fluminense. No Rubro-Negro, um título estadual e dois vice-campeonatos no ano passado.

Ex-presidente da associação brasileira de diretores executivos de futebol, o dirigente enumera, para além dos resultados esportivos que reconhece terem sido abaixo da expectativa e do investimento, os retornos administrativos ao clube.

Foto: Gilvan de Souza
Cita a integração e a valorização na base, a implantação do centro científico e do centro de inteligência no mercado, a economia no período em contraponto aos investimentos nas contratações (de 29 jogadores em 2015 para nove em 2018 entre os não aproveitados no plantel, com economia de R$ 60 milhões nas despesas do clube) e as vendas da ordem de 72 milhões de euros (desde Samir por 4,5 milhões de euros até Vinicius Junior, 45 milhões, e Jorge, 9 milhões, os mais recentes e mais valiosos).

Caetano não fugiu do tema e admitiu: a manifestação do vice de futebol Ricardo Lomba - com críticas veementes que incomodaram no vestiário, mas tiveram aplausos da arquibancada - contribuiu para a demissão no Flamengo. Apesar disso, o dirigente valoriza o legado que deixou e agradece ao presidente Bandeira, a funcionários e também aos cartolas amadores ("mesmo aqueles que entenderam que era o momento de troca”).

Confira a entrevista exclusiva com Rodrigo Caetano ao GloboEsporte.com:

Como foi sua saída? O que aconteceu depois do jogo e no dia seguinte, quando se consumou a sua demissão?

Depois da derrota, natural que todos estivessem tristes e de cabeça quente. Algumas reações após o jogo me desagradaram. Mas acertamos que qualquer conversa relacionada à continuidade ou não seria no dia seguinte. Foi aí que o presidente (Eduardo Bandeira) e o (CEO) Fred (Luz), pessoas pelo qual tenho o maior carinho, me comunicaram, na quinta, que o melhor caminho era a minha saída. Posteriormente, me falaram que também tirariam o Paulo (Carpegiani). Nem fui ao Ninho naquele dia (quinta).

O que Bandeira e Fred Luz disseram para justificar a demissão?

Os motivos alegados todos já sabem. Um pouco de desgaste. Foram três anos e três meses de um trabalho incessante. Lamento que tenha acontecido nesse momento, após uma derrota. Em momento nenhum o Campeonato Carioca foi a obrigação do ano. Haja vista que ano passado o Flamengo ganhou o estadual invicto e nem por isso se deixou de ter críticas. Estava muito claro, desde o início, que a meta era avançar na Libertadores. Mas infelizmente, após esse jogo, resolveu-se mudar.

A única coisa que discordo são palavras usadas como reformulação. Reformulação é quando as coisas estão no caminho errado. O tempo, o prazo e a evolução provam que ajustes eram necessários. Mas mudança de rota é uma coisa maior do que o momento exigia.

O desgaste ao qual você se refere era político? Com o vice de futebol Lomba? Como era essa relação?

Era boa até então, de respeito. É um equívoco falar que o diretor tem total autonomia. Nunca trabalhei assim, sempre em equipe e respeitando uma hierarquia. Todas nossas escolhas de chegadas e saídas tiveram a participação de todos. Algumas não foram consenso, mas, a partir do momento que foi decidida, tornou-se consenso.

Prefiro acreditar que minha demissão não teve nada de pessoal. Meu desgaste (no clube) era pelo tempo. Pelo o que li na imprensa, parece que a minha demissão também foi um desejo de alguns vice presidentes. Sempre tive o maior respeito por todos. Mas agora isso é o que menos importa para mim.

No ano passado, após a queda na Libertadores, a mesma pressão existiu. Você não achou, naquele momento, que já poderia ter sido demitido? Que parte da diretoria já não te queria no Flamengo?

Eu me sinto orgulhoso por ter ficado todo esse tempo no Flamengo. Ter sobrevivido tanto tempo a pressões externas, pressões políticas. Se fiquei até hoje, acredito que tive a confiança dessas pessoas. Tivemos ídolos como Zico e Junior que trabalharam nessa função e sofreram.

É natural quando não existe o insucesso de campo. Acho que o presidente e o Fred Luz e outros pares da diretoria executiva conseguem compreender um pouco mais o que é o nosso trabalho. Ele não se limita à montagem de elenco.

No ano passado, apesar das críticas, para mim foi um ano altamente positivo. O Flamengo disputou tudo, com exceção do nosso grande revés que foi a Libertadores. Como você pode definir como ruim o ano de 2017?

Com exceção da Libertadores, fomos campeões estadual invictos, chegamos às finais da Copa do Brasil e da Sul-Americana e conseguimos uma vaga direta na Libertadores. Se pedir hoje para alguém apontar três equipes que podem ser campeãs dentro de qualquer torneio, o Flamengo estará entre elas. Isso foi um trabalho realizado ao longo dos anos.

As declarações do Lomba foram fundamentais para sua saída?

Pode ter sido. Jogou-se no ar uma necessidade de mudança. Mas eu não quero avaliar as declarações. Só fiquei sabendo depois (o que ele falou). Quero avaliar a forma em que penso ser correto atuar. Foram vários os motivos de desgaste.

Obviamente eu não vou ser um objeto de exposição de quem trabalha comigo. Isso é uma questão de princípio, eu fui atleta. Sei bem como funciona. Estou há praticamente 30 anos vivendo no meio do futebol, e alguns princípios valem muito.

Passou-se a imagem que não tinha cobrança. Mas os atletas sabem da forma que eu cobro. Mas preservo os meus comandados. Talvez isso não agrade.

Pelas reações, os torcedores pareciam estar querendo ouvir aquele tipo de declaração. Em algum momento você achou que seria necessário "dar um soco na mesa", mostrar indignação, em frente às câmeras?

Eu não penso assim. Não vou ficar aqui recriminando. Não sei se em algum momento isso deu resultado. Recebi inúmeras mensagens de atletas e treinadores após minha saída. O perfil do atleta mudou. Não só no Flamengo. Hoje, os atletas são muito responsáveis. Esse grupo do Flamengo, acredito, que é subavaliado.

Muitos dizem que o elenco é supervalorizado. Eu penso o contrário. O fato de ter perdido duas finais foi tratado como fracasso. Isso só acontece aqui no nosso país. E os outros times que ficaram pelo caminho? Esses jogadores sempre foram comprometidos.

Não tive um único problema de disciplina, o que era normal no Flamengo em épocas passadas. Quando você tem um elenco de bom nível, você tem uma forma de se comunicar. Se tivéssemos atletas com outra postura, talvez teríamos outra forma. Mas, na minha opinião, para fora (críticas) nunca.

Carpegiani disse em entrevista que achou precipitado todo o processo de demissões. Você concorda?

Não vou avaliar as frases do Paulo. Além de um grande técnico, tem uma grande história. Fez um grande trabalho no Bahia. Todos sabem o que aconteceu na saída do Rueda. O Flamengo ficou de mãos atadas até o último momento. O que restou ao Flamengo foi se preparar para a saída.

O Carpegiani comentou que desde dezembro o Flamengo sabia que o Rueda sairia...

O Rueda nunca nos comunicou. Inúmeras vezes cobrei dele para que deixasse clara sua intenção. Ele deixava claro que retornaria ao Flamengo e não tinha proposta oficial. Muito provavelmente ele estava aguardando essa proposta.

O Paulo nesses três meses saiu com um aproveitamento altíssimo, campeão da Taça Guanabara e deixou bem encaminhada uma classificação na Libertadores, em um grupo dificílimo, considerado o grupo da morte.

Foi um jogo (contra o Botafogo), o Paulo fez algumas mudanças e o Flamengo infelizmente não foi bem. O que não justifica tudo isso. Talvez foi algo que estivesse sendo solicitado para haver todas essas mudanças.

Considera que o ano de eleição fez diferença?

Já vivi períodos eleitorais em outros clubes. Obviamente é sempre um ano diferente. Inclusive, entre tantas mensagens que recebi, algumas foram de ex-dirigentes da oposição agradecendo pelo trabalho. Mas é óbvio que um ano eleitoral gera uma instabilidade maior. E não é só a questão política. As redes sociais no Flamengo têm influência absurda.

Como assim?

No Flamengo, o externo, às vezes, pauta o campo. Isso é um fenômeno novo que está tomando conta dos clubes do Brasil e é extremamente perigoso. Muitos não se identificam atrás das redes sociais. E trazem agressividade absurda, com calúnias e injúrias. Acaba que essa turma percebeu que tem força e pode pautar os clubes.

E no Flamengo, por ser a maior torcida do Brasil, isso é maior. Mas isso acontece em todos os clubes. Técnicos e jogadores estão sofrendo com isso e muitas vezes já vão acuados para campo. Quero deixar claro que me refiro a uma minoria, mas faz um estrago danado. Isso pode trazer um prejuízo para o futebol que é afastar pessoas do bem.

Você está processando algumas pessoas até.

Mas não por críticas, mas por calúnias e injúrias. Nem gostaria de entrar nesses detalhes. Dependendo do que eu fale, serei agredido novamente. Isso tem que parar. Quem não é do bem, se acostuma com isso. Eu não vou me acostumar jamais.

Como você avalia seu período de três anos e três meses no Flamengo?

De forma equivocada, a figura do executivo no futebol é atrelada ao resultado. Somos profissionais que damos suporte para a parte técnica, facilitadores do processo. Nesse período participei ativamente do processo da construção do CT, da construção do CEP, do Centro de Inteligência, que hoje tem mais de 500 fichas de avaliações de jogadores, de toda integração com a base, pois até então o orçamento da base era um e com o passar do tempo foi aumentando esse orçamento, o que contribuiu nessa formação.

Existia meta no clube de ter 35% do elenco formado na base e hoje tem. É muito fácil para executivo sair contratando jogadores para compor o elenco e nunca foi minha filosofia. Fala-se muito que o clube se viabilizou financeiramente. Isto teve a participação do departamento de futebol, com as vendas realizadas, respeitando rigorosamente o orçamento passado. Não abdicamos de um centavo previsto no orçamento nem ultrapassamos um centavo.

Está se referindo à venda do Vinicius Júnior?

Não só essa. Participamos sim, ao lado dos agentes do jogador, da maior venda do futebol brasileiro no período, do Vinicius Junior, num caso inédito de venda acima do valor da multa, porque geralmente é menor que a multa ou no máximo a multa. Tivemos a venda do Jorge também. São em torno de 72 milhões de euros nesse período de vendas. Renovamos todos contratos desses jovens, com multa que tranquilize o Flamengo. Falam nos jogadores que não deram certo – e não quero discutir esse conceito de dar certo -, casos do Mancuello e do Donatti, mas foram vendidos pelo mesmo preço de compra.

Apesar de tudo que está dizendo, muitas contratações não renderam. Por que não deram certo?

A grande maioria dos jogadores que está no elenco do Flamengo foi recebida com festa aqui. Foram exaltados. O Flamengo tem elenco forte, bons profissionais, estrutura que dá condições, estabilidade e tudo foi construído nesse período.

Se me perguntar o que poderia fazer diferente, em algumas dessas competições que disputamos e não tivemos sucesso talvez deveria ter dado ênfase e privilegiado uma delas. E a gente teve como filosofia disputar todos os títulos para chegar.

Mas acho que procuramos ter critério, nunca contratei sozinho. Queiram ou não, hoje o Flamengo é reconhecido no Brasil por ter mudado de patamar. O que é resultado de todos profissionais que passaram por aqui. Todos fizeram parte dessa transformação.

Ao mesmo tempo que se atinge outro patamar você está sujeito a essas cobranças excessivas e lamentavelmente houve essa interrupção do trabalho, que ia até o fim do ano.

Você falou nas metas de 35% do elenco que tinha que vir da base. Quais metas você respondia? O Pracownik deu entrevista no início do ano dizendo que a meta de 2018 era um título nacional. A meta nos últimos anos também era de título nacional?

Não, neste ano era um título nacional ou internacional. Ano passado a meta era, se não me engano, chegar na final da Copa do Brasil, classificar direto para a Libertadores, ser campeão estadual e chegar o mais longe possível na Libertadores.

Não lembro exato, mas acho que era quartas ou semis da Libertadores. Em 2018 o Estadual estava fora das metas esportivas. Agora, para ter ficado esse tempo todo acredito que internamente eu era bem avaliado.

E como funcionava essa avaliação? No fim do ano, você sentava com o Bandeira e o Fred Luz e discutia o que atingiu e o que foi ruim, o que foi bom?

Óbvio, sempre. Em algumas tantas vezes eu ia até o Conselho Diretor para esclarecer o que pediam.

Fred Luz disse em entrevista ao GloboEsporte.com que “o Flamengo ia ganhar, só não sabia quando”. Você, ao Uol, disse, em dezembro de 2015, que “o Flamengo estava muito perto de ganhar”. Por que o Flamengo nunca rendeu tanto quanto se esperava? Por que não ganhou?

Eu acredito nisso que falei no fim de 2015. O Flamengo não ganhou ano passado um título de expressão, mas chegou em dois. Significa que se o Flamengo tivesse ganho nos pênaltis do Cruzeiro teríamos sido a melhor equipe do ano e tudo no Cruzeiro estaria errado? Se tivesse ganho do Independiente nós estaríamos certos e do outro lado nada? Essa é a avaliação? O Flamengo passou a ser postulante de título em todas as competições que entra. O caminho está pavimentado.

Em 2016, o que eu faria diferente... Hoje o calendário une todas as finais de competições no segundo semestre. Uma equipe que não prioriza corre risco danado. Em 2016, lamentavelmente o Flamengo só tinha o Campeonato Brasileiro. O Palmeiras também.

Foi ano que o Grêmio venceu a Copa do Brasil e o Atlético Nacional na Libertadores. Em 2017 o Fla jogou final da Copa do Brasil, Sul-Americana e o Campeonato Brasileiro. Infelizmente por detalhes e competência faltou confirmar o título.

Mas, justamente, o Brasileiro não foi prioridade.

O Brasileiro ano passado tinha este olhar de, se não conseguirmos o título, ser a nossa classificação direta para a Libertadores. E conseguimos, mesmo daquela maneira como foi, com requintes de crueldade, lá na Bahia. É natural que o torcedor queira sempre o título e que a crítica venha quando fica em segundo lugar.

Mas a gente não pode, quem trabalha com futebol, desconsiderar que se chegar em final é algo relevante. Classificar duas vezes consecutivas para a Libertadores, o que não acontecia em 10 anos, é algo relevante. Isso mostra que o trabalho tem rumo. Este ano a ideia era fazer uma grande Libertadores e tenho certeza que o Flamengo vai fazer.

Você falou do Centro de Inteligência. Desde o início do ano que a crítica e a torcida falam da necessidade de laterais. Não conseguiram identificar laterais para suprir essa carência?

Este ano os bola da vez (das críticas) foram os laterais. A cada ano alguns eram rotulados. Este ano foram outros...

Você não concorda com essa avaliação, então?

Vou concluir... Se avaliar no futebol brasileiro, você tem vários laterais jogando ali adaptados. Ou zagueiro ou meio de campo...

Mas tem alguns. Marcos Rocha e Diogo Barbosa no Palmeiras, o Victor Luis que voltou do Botafogo, o Fabio Santos no Galo...

Não vou falar em nomes, mas pergunto: se a gente traz jogadores consagrados, afirmados, existe essa contestação toda, imagina se o Flamengo traz determinada aposta? Esse seria o melhor movimento?

Por isso que a gente entendeu que entre os laterais que tinham disponíveis o Zeca era o nome acima da média. E a ideia não era trazer o Zeca e tirar um dos que o Flamengo tem. A ideia era agregar mais uma opção, porque também era ambidestro.

Agora, todos dias existiam consultas por nossos laterais, todos eles. O Renê, antes de contratarmos, vários clubes queriam. O Trauco vai jogar uma Copa do Mundo. Nossos laterais estão na média de outras equipes no Brasil. Alternaram bons e maus momentos. Concluímos no Flamengo que, se for para fazer aposta, é melhor apostar nos garotos da base.

O Flamengo demorou a enxergar que precisava de outro goleiro quando só tinha Alex Muralha e Thiago? O Cesar era a terceira opção e terminou sendo a surpresa. Depois, contrataram o Diego Alves, que terminou ficando de fora da Copa do Brasil.

O Diego Alves tinha contrato com o Valencia. Só foi possível a vinda dele por que também era próximo de término de contrato. É o mesmo caso de quando trouxemos Diego Ribas, Éverton Ribeiro e outros casos. Mas sobre a questão de goleiro. O Alex Muralha foi convocado pelo Tite em 2016.

Quando o Flamengo traz o Muralha a ideia era tornar a disputa pelo gol competitiva, pois já tinha o Paulo Victor. Mas depois que o PV sai isso não se repete. Só depois quando vem o Diego Alves.

O Paulo Victor sai no início de 2017, depois do grande momento do Muralha, até o fim de 2016. Ficamos com o Thiago. Depois disso, retorna o Cesar. Ficamos com os três. Aí vem o Diego Alves no meio do ano.

Mas o raciocínio que valeu para o Paulo Victor em 2016 não se repetiu com o Muralha em 2017.

Talvez, podíamos ter feito isso. Poderia ser um movimento de segurança, sim, mas o momento era tão bom deles, acreditava-se nos meninos que acabamos não fazendo isso. Depois tentamos consertar.

Na gestão Bandeira foram 13 treinadores. Você não ficou o tempo todo. Mas por que tanta troca?

Sou sempre a favor da continuidade do trabalho de treinadores. Até outro dia conversando com um treinador que trabalhou comigo, falando de um melhor entendimento do que realmente nós, diretores executivos, fazemos, conversamos sobre isso.

Tem que descaracterizar esse negócio de que a gente contrata e dispensa sozinho, de acordo com a nossa cabeça. Não existe isso. Somos gestores de pessoas e de processos. Quando, infelizmente, me dou por vencido em relação a troca de treinador é porque dois meses antes já havia pressão e pedido para que ele saísse.

Você acha que o Zé Ricardo ainda conseguiria retomar o rumo naquele trabalho interrompido em 2016?

O trabalho dele foi muito bom. Mas você estava naquele jogo contra o Vitória, viu o que aconteceu? (refere-se às vaias e ofensas ao treinador) Foi uma coisa que não condiz com todo o trabalho que ele realizou. Ele sempre foi um grande profissional e um cara exemplar. Aí que falo que o externo nos nossos clubes tem peso muito grande.

Ele é muito mais destrutivo do que construtivo. Isso acabou por interromper o trabalho do Zé naquele momento. Eu já disse: sou sempre a favor da continuidade, mas naquele momento ficou insustentável para ele.

Ouvi nesse tempo críticas do tipo: Rodrigo Caetano não quer treino aberto, por que ele acha que é oba-oba etc. Existia isso? Chegou até você esse pedido?

Não tomo essa decisão sozinho. Acho que tudo tem momento. É difícil falar com amador. O cara não entende o que é o treino, o que significa o centro de treinamento. Não é só chegar lá e entrar dentro do campo e realizar algum tipo de atividade. O treino no Flamengo iniciava desde o café da manhã, quando o jogador se apresentava para ser avaliado, ser pesado no CEP. Ainda tínhamos o pós-treino.

Não é para se afastar de torcida. Jamais. Ou achar que o torcedor não tem relevância. O futebol é profissional e tem método que não é só entrar dentro de campo e chutar a bola. Apenas isso. Não decidia nada disso sozinho.

Tudo fazia consulta à comissão, aos fisiologistas... Não admito que façam qualquer ilação como quem quer afastar jogador de torcida. Em hipótese nenhuma isso acontecia.

Vocês perderam o Rueda e já tinham o Carpegiani como nome para ser coordenador e acabou técnico. Não foi um passo arriscado chamar um profissional que você, pela relação que tem, talvez não conseguisse demitir?

Nós pensamos em possibilidades, mas elas eram quase nulas. E nós tínhamos que esperar até o final a tomada de decisão do Rueda. Foi ele que tomou a decisão e foi lá e pagou a multa.

Naquele momento, pelo conhecimento, experiência, o Paulo, até por um desejo de comandar o time na Libertadores, foi o nome. Neste momento tudo que não pensei foi em mim, se era arriscado ou não. Tinha que pensar no melhor para o clube.

Houve consenso no nome do Carpegiani? Apesar da história no Flamengo, os últimos trabalho dele foram curtos, mais de “bombeiro” do que de médio e longo prazo.

Avaliamos outras possibilidades, mas elas não existiam praticamente. Acreditamos justamente nele (Carpegiani) por conhecer o clube, pela história, pelo que investimos nas comissões – chegaram Mauricio Barbieri, Rogerio Maia -, pela união de um técnico experiente, somando à perda do Rueda e o ótimo trabalho dele no Bahia (quase classificou para a Libertadores), no ano anterior também foi bem no Coritiba.

Foi a escolha que se fez. Mas qual foi o grande pecado do Paulo nesse tempo? O jogo do Botafogo não ter vencido? Ele foi campeão da Taça Guanabara invicto. O Flamengo foi a maior pontuação do estadual e é líder do grupo da Libertadores. O jogo que perdemos para o Fluminense (4 a 0) foi risco calculado, porque tínhamos jogo da Libertadores.

Não dá para dizer que a escolha do Paulo foi equivocada. Acredito que entre os nomes de conhecimento de clube, de história, de desempenho recente, o Paulo desempenhou seu papel e, infelizmente, teve o trabalho interrompido também.

O Cuca já estava fora do Palmeiras. Não era um nome?

Não vou falar de nomes. Tínhamos que nos apresentar e começar o trabalho. E foi isso que o Paulo fez, com oito jogadores apenas na reapresentação (porque terminamos o ano dia 13 de dezembro e tínhamos férias para dar). O time foi campeão da Taça Guanabara. Jogadores desconhecidos se tornaram ativos do clube.

Agora, se amanhã ou depois nós sentíssemos que o trabalho não ia prosperar, com a maior tranquilidade eu conversaria com ele para fazer qualquer mudança. Mas não era esse desejo e não era isso que estava observando.

Você acha que, assim como avaliaram que a situação do Zé era insustentável (palavra que o Bandeira usou para falar da demissão do treinador), a sua permanência também era insustentável?

Por mais que façamos parte dessa engrenagem toda, sendo um dos líderes, obviamente não esperava a interrupção do trabalho. Em momento algum coloquei em dúvida ou foi procurar quem quer que seja do clube em pensar na hipótese de sair. Sempre cumpri meus contratos. Não gostaria de passar por isso, uma situação nova que o clube tem todo direito – de trocar os profissionais.

Mas, como foi dito a vocês (imprensa), se já existia algumas reuniões, prevendo mudanças e reformulações, não participei delas. Por isso a surpresa de tudo que foi criado. Eu lamento. Sei que existia cobranças, críticas, pressão. Mas a opção não foi minha.

De cabeça quente, talvez eu até pudesse entender que seria o melhor caminho (a saída). Mas nunca fugi da responsabilidade nem do trabalho e não seria no Flamengo que isso ia acontecer.


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