Da arte de bater em bêbado

Tem uns bons anos que o Campeonato Carioca para o Flamengo é como bater em bêbado. Se nós vencemos, é obrigação; se perdemos… É papelão

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por MARCELO DUNLOP

“O duro é o seguinte”, repetia o Mantuano na saída do Maracanã, voltando a tese que já levantara no metrô da ida. “Tem uns bons anos que o Campeonato Carioca para o Flamengo é como bater em bêbado. Se nós vencemos, é obrigação; se perdemos… É papelão”.

Confesso que, como alcóolico simpatizante, me senti incomodado com a comparação. Seríamos nós, os pinguços, alvos assim tão fáceis? E o valente Botafogo, vitorioso num improvável 1 a 0 – um 1 a 0 inaceitável, quiçá – se assemelharia a um bebum contumaz? Verdade que os antigos porristas consagraram aquela expressão clássica, “Rapaz, hoje eu tô de fogo…” Mas a analogia pareceu um pouco injusta com o time da Estrela Solitária.

Time do Flamengo de amarelo - Foto: Gilvan de Souza
Nos atiramos para dentro de um táxi, e no conforto do banco de trás, após passar pelo Bellini e tentar reparar pela centésima vez se a estátua tem mesmo a cara do cantor Francisco Alves, me rendi à teoria etílica do meu dileto amigo: realmente, os primeiros meses do ano rubro-negro lembram uma pavorosa briga de bar de velho oeste, daquelas cenas de dar orgulho a Ted Boy Marino e Bud Spencer.

Visualize a cena. Passa o feno, gaita ao fundo, uma tábua range. Surge nosso herói, com trajes rubro-negros. O ano de 2017 não foi fácil, e ele adentra o salão de ressaca, puto da vida e revirando os bolsos, sem saber onde havia deixado seu técnico. Há, no entanto, um certo otimismo em seu rosto: tem feito bons negócios, ganhou um bom dinheiro e é querido por muitos, esta fase vai passar. Ele só quer relaxar um pouco.

A caminho do balcão, porém, um punhado de nanicos mais para lá do que para cá surge para perturbá-lo. Ele nem pisca, o cabelo cheio de brilhantina nem venta: um sossega-palhaço e, puf, estão fora de combate.

Perto da máquina registradora, no entanto, uma dupla o encara com olhares nada amistosos. Trata-se do dono da espelunca, um ancião desbocado com a camisa da Ferj, e um português cheio de problemas e aguardente na moringa. Na coxa de um deles, um papel de pão escrito “Regulamento”, todo rabiscado ali na hora.
– O que tá olhando, Da Gama?

Peleja feia de se ver, daquelas de sobrar mata-cobra no pianista e arruinar o bar todo. Lamentável. Depois de quase 90 minutos, foram enfim apartados e saíram cada qual para seu lado – na saída, por sinal, duas cotoveladas certeiras encurtaram novo sururu: uma no queixo de um soldado (Severiano, dizia o documento) e outra num abusado de Saquarema, tal de Boavista.

Nosso herói decide trocar de bodega, e acha um bem mais requintado para enfim tentar tomar seu chopinho. Basta entrar, porém, para dar de cara com um argentino vestido de vermelho e branco cheio de marra.

Apesar de parrudo e bom de pugna, o grandalhão hermano está totalmente borracho; é só encaçapar. Decepção total: ninguém acerta quase nada e saem ambos estropiados, com duas rasteiras para cada lado. “Esse aí já não é de nada”, avaliam alguns populares. “Já foi uma fera, agora não mete medo em ninguém…”, cochicham.

Surge então um outro pau-d’água, desta vez um equatoriano metido para cacete. É a chance que nosso mocinho precisava. Ele começa tomando um cruzado inesperado e, quase indo à lona, tira da manga dois golpes de capoeira e derruba o vizinho sul-americano. O velho Mengo estava de volta, bradaram todos.

Mas, logo se viu, não foi bem assim, e o fim da fita o torcedor já sacou. O topetudo fica poderoso e decide retornar ao mal-afamado botequim. Aboleta-se no balcão, pede uma Stellinha (anuncie aqui), passa as costas da mão no beiço e mostra o muque para dois beberrões: Zé Tapete, um quitandeiro e floricultor de Laranjeiras, e o milico Severiano, o mesmo da outra escaramuça, ambos agora munidos de garrafas, gandulas e uma retranca daquelas. Não podia acabar bem.

Ao fim do trelelê, nosso herói confere os hematomas e, ao meter a mão na calça, ainda percebe: “Putz, deixei meu treinador cair de novo”.

Moral da história: Urubu que arrota peru acaba por tomar medidas enérgicas.


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