Desculpa do Presidente do Flamengo para ingresso caro não bate

ESPN: Por Mauro Cezar Pereira

"A gente procura praticar uma política de preços que privilegie tanto o torcedor, as possibilidades do torcedor, mas também a saúde financeira do clube. Não adianta nada, não gostaria de fazer nenhum tipo de demagogia, não adianta nada você colocar os ingressos a R$ 5, você vai privilegiar os cambistas, você vai ter problemas de acesso e você vai ter que pagar para jogar, porque vocês sabem muito bem que as taxas do Maracanã não são nada camaradas com os clubes que jogam".

Foram essas as palavras do presidente do Flamengo depois da festa popular realizada na tarde de terça-feira, com o treino aberto que levou perto de 50 mil rubro-negros ao Maracanã. Assim Eduardo Bandeira de Melo respondeu aos repórteres, minutos depois de ouvir apelos de torcedores por ingressos mais baratos, em coro, com a arquibancada pedindo em peso, e pessoalmente, no contato com quem estava perto do gramado.

Torcida do Flamengo - Foto: Arthur Brito
A política de preços dos ingressos adotada pelo Flamengo está contaminada pelo Sócio Torcedor, que é ruim, tendo como único apelo o desconto nos preços dos tíquetes. Sem atrativo para quem mora fora do Rio de Janeiro (a maioria da torcida rubro-negra), sufoca quem não é associado, e muitos não aderem ao programa por falta de dinheiro mesmo. O clube se orgulha de ter "40 milhões de torcedores", mas não consegue ir muito além dos 100 mil sócios. Pífio!

Evidentemente ainda assim a receita gerada pelo programa é importante, mas parte dela se esvai em jogos deficitários, que o Flamengo faz aos montes, apesar de o presidente discursar como se os ingressos caros lhe assegurassem receita. Fora as partidas de maior apelo ou em bons momentos do time, as aparições rubro-negras são deficitárias até no pequeno estádio da Ilha do Urubu, onde passou a atuar em 2017, com seus cerca de 20,5 mil lugares.

No recém-encerrado Campeonato Carioca, o Flamengo registrou um prejuízo de R$ 321.408,08. Dos 15 jogos, só cinco não tiveram resultados negativos, quatro deles vendidos para fora, com cota fixa (dois em Cariacica, um em Brasília e outro em Cuiabá). Dentro do Estado do Rio, o único que não ficou no vermelho foi contra o Macaé, na cidade de mesmo nome. Lucro de esquálidos R$ 14.900,00.

Se o Estadual não é um bom parâmetro, voltemos ao Brasileiro de 2017. Os jogos do primeiro turno na Ilha do Urubu ficaram no azul, com ingressos caros e o time ainda motivando a torcida, o que fez os sócios comparecerem. Quando a equipe virou a metade do campeonato, os associados se desinteressaram e os que não integram o programa Nação Rubro-Negra acabaram barrados pelo bolso. Resultado: públicos vergonhosos, cinco abaixo de 10 mil pessoas e resultados negativos (veja quadro).

Jogos do Flamengo na Ilha do Urubu no Brasileiro 2017: prejuízo em todos as partidas do returno 
Na prática o não sócio, se for ao jogo, subsidiará quem pertence ao programa. Poucos vão. Um jogo que chamou a atenção foi diante do Atlético Goianiense. Dos 7.082 presentes, apenas 782 (11%) compraram tíquetes como não sócios. Naquela partida contra um dos mais fracos times da Série A, rebaixado ao final como lanterna; os preços para quem não era associado foram R$ 120 (meia R$ 60), R$ 150 (R$ 75) E R$ 180 (R$ 90). Os sócios pagaram um terço da inteira (R$ 40, R$ 50 e R$ 60) de acordo com o setor do estádio. Contra o São Paulo as cifras mais assustadoras para os não sócios, que desembolsaram R$ 200 (R$ 100 a meia entrada), R$ 280 (R$ 140) e R$ 360 (R$ 180). Eles eram 597 apenas, ou 3% dos 17.302 presentes à Ilha naquele domingo.

Todas as partidas lá realizadas deram prejuízo no segundo turno. Quando o Flamengo precisava de pontos para se classificar à Copa Libertadores, os preços foram reduzidos para as duas últimas aparições, contra Corinthians e Santos. O público melhorou, os que adquiriram ingressos de não sócios foram 30% dos presentes, mas a renda não se elevou. Uma das razões: os valores pagos pelos associados são bem inferiores à meia entrada e se há redução para os demais, eles pagam valores bem pequenos, R$ 14 contra os corintianos, por exemplo.

Tal desequilíbrio fez surgir proposta interna que colocaria Norte e visitante pagando R$ 50 a inteira, com meia e sócio por R$ 25. No Leste, Oeste e Sul os valores seriam R$ 60 e R$ 30. Com 15 mil pessoas e um preço médio de R$ 40 por pagante, seriam alcançados os cerca de R$ 600 mil necessários para zerar a conta de cada peleja na Ilha. Renda abaixo disso é prejuízo certo por lá. Seria uma saída razoável num momento em que o time não empolgava, a ponto de o setor sul ficar vários jogos fechado, ele nem era aberto porque sabiam que não haveria demanda. Mas a ideia foi rejeitada.

O sócio torcedor teria como vantagem a prioridade, algo valioso num estádio tão diminuto. E nos cotejos realizados no Maracanã, pela maior oferta de lugares, outros benefícios poderiam ser agregados. Como o programa não tem outros atrativos além dos generosos descontos nos ingressos, que empurram para as alturas os valores pagos pelos não associados, os cartolas morrem de medo de mexer nisso. Não arriscam, não buscam soluções, mantêm o povão afastado e o sócio, em massacrante maioria, só vai na boa mesmo.

Pior, já passa dos R$ 20 milhões o investimento na Ilha do Urubu, entre montagem de arquibancadas, vestiários, campo, além manutenção e aluguel pago à Portuguesa. Interditada devido à queda de duas torres de iluminação, a cancha será reaberta apenas depois da Copa do Mundo, com os reparos gerando novos custos iniciais — o clube promete buscar, na justiça, o ressarcimento do que investiu. E sem o local, desembolsa em aluguéis de Engenhão e Maracanã.

No turno do Brasileirão passado foram arrecadados R$ 2.457.408,96 em sete jogos na Ilha do Urubu, média de R$ 351.05842. Já na segunda metade do torneio, que o Flamengo iniciou a 18 pontos do líder, Corinthians; os associados se desinteressaram, os preços para não sócios seguiram altíssimos e todas as partidas ficaram no vermelho em seus borderôs. Um negativo de R$ 874.296,08 ou R$ 109.287,01 por peleja. Resultado pífio para um presidente que muitos acreditam ser "bom de finanças".

Tal crendice se deve ao fato de o Flamengo ter passado por uma revolução em sua gestão, com redução de dívidas e avanços significativos em diferentes áreas. Na verdade, obra arquitetada por outros dirigentes, ex-dirigentes e profissionais que passaram pelo clube ou seguem por lá. O futebol rubro-negro segue mal e sob interferência do mandatário, que admitiu aos repórteres, após o empate com o Independiente Santa Fé, que não entende do assunto.

O torcedor pode lamentar que, ao contrário do que fez na parte administrativo-financeira, ele não delegue. O mesmo vale para a questão dos preços de ingressos, vinculada à vice-presidência de marketing, mas que depende do crivo presidencial e do CEO, Fred Luz. Assim, o time segue sem render e incapaz de reencontrar o seu povo. E o Flamengo sem sua gente não é Flamengo, mas apenas um time comum. É esse aí que se vê em campo.

O clube se orgulha de ter "40 milhões de torcedores", mas não consegue ir muito além dos 100 mil sócios. Pífio!


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