Flamengo, o time mais triste do Brasil

O Flamengo hoje é triste porque criou para si mesmo uma situação em que é praticamente impossível ser feliz.

ESPN FC: Por João Luis Jr.

Uma grande lição que a vida ensina é que nossa frustração é do exato tamanho da nossa expectativa. Se você sair de casa esperando ver um novo Cidadão Kane, quase todo filme vai ser decepcionante; se você for no trailer do Bocão esperando comer escargot, vai voltar meio chateado; se você usar no seu Tinder imagens do Rodrigo Hilbert, a garota provavelmente vai tentar te processar assim que bater o olho em você ao vivo. Como eu disse, é uma fórmula simples, quanto mais você espera, maior a sua tendência a não conseguir ter suas expectativas atendidas.

E por muitas razões esperávamos muito desse atual Flamengo. Primeiro porque é da natureza do Flamengo e da sua torcida sempre sonhar alto, seja pela história vencedora do clube que já teve Zizinho, Leônidas, Zico e Petkovic, seja porque o rubro-negro é incapaz de ver um jogador fazer um lance de mais qualidade sem concluir que estamos diante de um gênio e fazer alguma musiquinha alegando que ele é melhor do que um titular do Barcelona.

Torcida do Flamengo em treino aberto - Foto: Gilvan de Souza
Depois porque estamos diante de uma gestão que soube alimentar essas expectativas. Se o Flamengo, um clube tradicionalmente bagunçado, com finanças historicamente desequilibradas e arrasado por gestões incapazes de manter uma conta de luz em dia ou tapar um buraco na piscina da sede, conseguiu encher a Gávea de troféus, o que não faria um Flamengo bem gerido, com dinheiro pra investir, capaz de ouvir palavras como “SPC” e “Serasa” sem nenhum diretor se esconder debaixo da mesa? O céu claramente era o limite, nascia ali o Real Madrid das américas, meu filho vai ter nome de santo e quero o nome mais bonito, “Eduardo Bandeira de Melo”.

Por fim, existem os jogadores. Apesar do desempenho questionável dentro de campo, apesar dos resultados não condizentes com o investimento, apesar de todos os momentos em que você acreditou estar acompanhando não um time profissional mas sim uma equipe de showbol atuando após oito horas de churrasco e pagode, o Flamengo tem sim, ao menos no papel, uma equipe competitiva. Jogadores como Diego, Éverton Ribeiro, Diego Alves, Guerrero, Rômulo, entre outros, já viveram grandes momentos, seja na Gávea ou em outras equipes, então não existe nada de irracional em esperar que eles fossem capazes de repetir atualmente esse nível de futebol e obter com isso resultados vitoriosos.

E talvez seja isso que torna o Flamengo dos últimos anos tão triste. Nem tanto os resultados medíocres, nem tanto a ausência de evolução tática, nem tanto a clinicamente justificável dor emocional que nasce de ver um time que precisa do resultado tendo que usar o Geuvânio como recurso na reta final da partida. Mas sim a percepção clara de que poderia ser tão melhor, poderia ser mais fácil, o final dessa história poderia ser tão mais feliz, e as causas desse fracasso são ao mesmo tempo tantas e tão complicadas de identificar.

Como pode uma gestão tão brilhante no campo financeiro se mostrar tão perdida no aspecto esportivo? Como podem homens tão apaixonados pelo Flamengo afastarem tanto o clube de sua torcida? Como podem jogadores de tanta qualidade, com uma trajetória tão vitoriosa, se mostrarem tão carentes tecnicamente e tão displicentes diante da crise da equipe? Como pode um projeto que parecia tão capaz de dar certo gerar tão pouco resultado dentro de campo?

O Flamengo hoje é o time mais triste do Brasil exatamente porque tinha o potencial para ser o mais feliz e por vários motivos e ao mesmo tempo por motivo nenhum escolheu não ser. O Flamengo é triste exatamente porque diante da opção de ser Flamengo preferiu ser outra coisa. Uma outra coisa mais fria, mais distante, menos corajosa e que sonha muito mais baixo do que qualquer um de nós deveria sonhar. O Flamengo hoje é triste porque criou para si mesmo uma situação em que é praticamente impossível ser feliz. E sinceramente, do jeito que está, é complicado imaginar quando vamos poder voltar a realmente sorrir.


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