Flamengo, refém da hegemonia do futuro

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Era discurso fácil de ouvir ao conversar com integrantes da recém-empossada diretoria de Bandeira de Mello, no fim de 2012 e início de 2013. O Flamengo seria o clube do futuro. Hegemônico nacional e internacionalmente. Ajustaria as finanças, melhoraria a estrutura do futebol, contrataria grandes jogadores. E voaria. Alto, tão alto quanto os tempos da Era Zico. Falou-se em ano dourado. Ano mágico. Céu de brigadeiro. Fielmente, o torcedor comprou a história. Grande parte da imprensa, também. Só havia um problema: era um plano sem data marcada para ser concretizado. Talvez em quatro anos. Talvez em seis. Talvez em dez. O Flamengo virou refém da hegemonia do futuro.

A agenda no início da gestão de Bandeira foi positiva como praticamente nenhuma outra no futebol brasileiro. Em sites, revistas, jornais e tvs contavam-se apenas os efeitos positivos da nova administração. Apoiavam-se a mudança, de torcedores a analistas. O Flamengo chegaria lá um dia. E, de fato, houve feitos impactantes. A dívida impagável de R$ 750 milhões foi reduzida praticamente a menos da metade. O Ninho do Urubu saiu de um amontoado de contêineres para um dos melhores centros de treinamento do Brasil. Mas a filosofia da planilha, de quem um dia alcança, não se alinhou com a realidade do futebol. O Flamengo é um monstro que se alimenta de conquistas e mantém até hoje aquele sorriso em canto de boca zombeteiro do torcedor.

Protesto da torcida do Flamengo contra O valor dos ingressos - Foto:@ _ppmoreira
Era óbvia a necessidade de conquistas graduais do Flamengo. Amenizaria a expectativa, pavimentaria a estrada para maiores mudanças. Ao minimizar o presente, a diretoria do Flamengo ferveu o caldeirão para o futuro. Ignorou a sua ebulição constante, o acúmulo de decepções com péssima gestão no futebol até a atual explosão. Miopia misturada com arrogância de que custou caro. Sem olhar para si, admitir e corrigir os erros do trajeto, a conta cobrada pela torcida chegou. Não há mais paz em um Flamengo que perdeu a sua identidade. Ao elitizar a arquibancada, o clube que tinha orgulho de se dizer de raça, amor e paixão ficou frio. Como um bom burocrata, acredita que na planilha o futuro será inesquecível.

Sentimento que se estendeu ao campo. Respeitar as raízes de um clube é passo essencial para triunfar no futebol. Aos poucos, o torcedor passou a não confiar mais na planilha. Cansou. Era algo previsível. Nos últimos anos coleciona histórias tristes. Em 2014, goleado e eliminado pelo Atlético-MG na Copa do Brasil. Em 2015, recorde de derrotas – 19 – no Campeonato Brasileiro. Em 2016, derrotas e eliminações para Fortaleza e Palestino. Em 2017, queda na primeira fase da Libertadores e um mero coadjuvante no Brasileiro. Sob os olhares de um presidente que se desconstruiu.

Figura dócil e de palavras equilibradas, Eduardo Bandeira de Mello inicialmente foi a cara ideal para o novo Flamengo. Com o tempo, o mandatário deixou-se modificar. Talvez seduzido pelo poder, passou a ser centralizador, interferindo diretamente no futebol, contemporizando falhas no presente e contribuindo para condenar o futuro. As cenas vistas no Galeão, de extrema agressividade com os jogadores, fazem parte de todo o contexto. Dias antes, o presidente minimizou outro protesto. O corredor político da Gávea ferve. A emergência de resultados mina qualquer passo do futebol. O Flamengo briga com si próprio. Frio, afastado da própria identidade, o clube continua acreditando na planilha. Esquece o presente. E segue eternamente refém da virtual hegemonia do futuro.

Frio, afastado da própria identidade, o clube continua acreditando na planilha. Esquece o presente.



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