Foi o maior prazer vê-lo brilhar

CORREIO BRAZILIENSE: Por Marcos Paulo Lima

Julio Cesar disse em entrevista ao quadro 1 x 1 com Cleber Machado no Seleção SporTV que sabe qual será a manchete do Jornal Nacional no fim da vida: “Morre o goleiro do 7 x 1”. Bem antes disso, o marido de Susana Werner, pai de Cauet e Giulia, poderá contar uma linda história aos netinhos. Era uma vez, um goleiro nascido em Duque de Caxias (RJ) que pendurou as luvas sem jamais ter sofrido gol de Lionel Messi — o gênio que forma com Diego Armando Maradona e Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, a santíssima trindade do futebol.

Não foi por falta de encontros. O blog levantou todos os duelos de Julio Cesar contra Messi na carreira — jogos beneficentes, como um disputado em 2013, em Chicago, nos Estados Unidos, não entram na contabilidade. À vera, houve cinco confrontos diretos por clubes e/ou seleções. Um deles, justamente em Rosário, a cidade argentina em que a Pulga nasceu.

Júlio César sorrindo no Flamengo - Foto: Staff Images
Naquele 5 de setembro de 2009, o goleiro da Seleção Brasileira até sofreu gol do meia Dátolo, mas viu Luis Fabiano marcar duas vezes e Luisão, uma, no triunfo verde-amarelo por 3 x 1, no Gigante de Arroyito. O então técnico Diego Armando Maradona pediu para a equipe alviceleste mandar o clássico na terra natal do jogador eleito cinco vezes melhor do mundo como forma de estimulá-lo. Porém, os comandados de Dunga calaram os conterrâneos do craque.

Uma das obras-primas da carreira de Julio Cesar teve Messi como personagem, em outro habitat do astro — o Camp Nou. “Ele (Messi) é brabo comigo por causa disso. Uma das defesas mais legais que fiz na carreira foi contra ele, na semifinal da Liga dos Campeões, em 2010, no Camp Nou. Foi bacana. Ainda mais contra o melhor jogador do mundo, numa competição importante na casa deles”, contou numa entrevista em 2011.

A exibição garantiu a Inter na final da Champions League. O time derrotou o Bayern de Munique por 2 x 0 no Santiago Bernabéu, em Milão, e a equipe italiana quebrou tabu de 45 anos. Por sinal, Julio Cesar e Dida são os únicos goleiros brasileiros que sentiram o gosto de faturar o principal título de clubes do mundo.

O goleiro também poderá colocar os netinhos no colo e admitir que já foi vilão da Seleção nas quartas de final da Copa de 2010 contra a Holanda do carrasco Sneijder, mas também teve seu dia de herói. Graças ao gol de Adriano, o Imperador, no último lance da final da Copa América de 2004. A decisão foi para os pênaltis e ele defendeu a cobrança de D’Alessandro. Na segunda, Heinze mandou a bola pelos ares e o Brasil triunfou por 4 x 2. Por causa dele, o Brasil escapou de ser eliminado nos pênaltis contra o Chile nas oitavas da Copa de 2014.

Julio Cesar foi ídolo do Flamengo em um dos períodos mais difíceis da história do clube. Assumiu o papel de herói de um time que insistia em flertar com o rebaixamento no início dos anos 2000. Teve maturidade para estrear numa fria como goleiro rubro-negro. Tinha 17 anos e 8 meses na vitória por 1 x 0 no Parque Antártica, em uma semifinal de Copa do Brasil. Na partida seguinte, outra fria: titular no clássico contra o Fluminense pelo Campeonato Carioca, no Maracanã. O tricolor venceu por 2 x 0. O resto da história você conhece. Julio César virou ídolo do Flamengo, da Internazionale e participou de três Copas do Mundo: uma como reserva de Dida e Rogério Ceni, em 2006; e duas como titular (2010 e 2014). Em 2009 e em 2013, brilhou nas conquistas do tri e do tetra da Copa das Confederações com duas exibições épicas.

Aos 38 anos, o vilão de Messi não consegue mais ser herói de si mesmo. Perdeu para as dores nas costas. Luta desde 2010 com o problema. Há oito anos, na Copa da África do Sul, usou até uma proteção proibida pela Fifa para amenizar o problema. No Flamengo, vinha treinando à base de remédios. O italiano Buffon, por exemplo, continua atuando em altíssimo nível aos 40 anos.

A última página da carreira do melhor goleiro da Europa em 2010 foi escrita neste sábado numa vitória sobre o America-MG com a assinatura dele. Teve defesa bonita, sorte de goleiro em bola na trave, golpe de vista quando nada mais poderia ser feito, um pouco de cera na hora da pressão, dores, risos e lágrimas no apito final não de um jogo, mas de uma carreira.

Após seis clubes, quase 30 títulos na carreira e 286 jogos pelo Flamengo, ele ouviu “fica, Julio Cesar” de um coral de mais de 50 mil pagantes no Maracanã. Escutou “Ah, é Julio Cesar”, como naquela tarde de Maracanã em 2001 na qual foi tão brilhante na conquista do tricampeonato carioca diante do Vasco quanto no triunfo deste sábado. O gol cinematográfico de Petkovic e a imagem de Zagallo ofuscaram aquela tarde de gala de quem comemorou sozinho o gol marcado aos 43 do segundo tempo.

Julio Cesar recebeu proposta para renovar o contrato com o Flamengo e até mesmo assumir um cargo executivo no clube. Porém, não cedeu à tentação. “Foram 21 anos brilhantes. De muitos altos e baixos, mas coleciono mais momentos felizes do que tristes. Fiz um resumo rápido e achei que era o momento. A vida não é só de momentos legais, especiais. Há os dois lados da moeda. Procuro analisar friamente o quanto errei e aprender para errar menos daqui para a frente. Sou um cara privilegiado por ter tantas pessoas que me acompanharam, estiveram ao meu lado, vibraram, torceram, choraram.”

Diante da decisão irreversível, só posso dizer: Obrigado, Julio Cesar. Foi o maior prazer vê-lo brilhar…


Julio Cesar foi ídolo do Flamengo em um dos períodos mais difíceis da história do clube.



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