Jogaram para o time ou para a plateia?

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Sou velho. Sempre que velhos se encontram para falar de Flamengo, lá vem a lenga-lenga da falta de sangue e de raça, além da evocação de um tal DNA rubro-negro que ainda não entendi exatamente o que seria. E aí, é batata: junto com o tema, surge o nome do Liminha. Para os mais novos, Liminha foi um meio-campista que defendeu o Flamengo de 1968 a 1975. Dono de pouca técnica, lutava os noventa minutos, marcava implacavelmente, só parava de correr quando descia para o vestiário. Virou um símbolo de amor à camisa e dedicação ao clube. Entretanto, no dia do maior desgosto que eu já tive em um estádio de futebol – 15 de novembro de 1972, quando levamos uma chapuletada de seis a zero do Botafogo, no Maracanã –, Liminha estava em campo. Correu, marcou, lutou como sempre, e tomou de seis. E aí?

Jogadores de futebol preservam características que vêm desde as primeiras peladas na rua, e não é simples mudá-las. Corrige-se uma coisinha ou outra, apura-se algo aqui ou ali, só que o jeito de jogar e de entender o jogo, o caráter, a fibra ou a falta dela, isso é que nem catapora: ou se pega quando criança, ou raramente se pega depois. Não adianta montar um meio-campo com Márcio Araújo e Ganso, querendo que o Márcio Araújo tenha a visão de jogo do Ganso e que o Ganso corra o que corre o Márcio Araújo. Não há técnico ou esporro no vestiário que consiga, daí a necessidade de sabedoria e equilíbrio na montagem do elenco.

Ricardo Lomba, Eduardo Bandeira e Carlos Noval no Flamengo - Foto: Vinicius Castro
Quase quebrei a tevê quando Eduardo da Silva deu o toque de calcanhar safado no segundo gol do Atlético Mineiro, em nossa eliminação na semifinal da Copa do Brasil de 2014. E, de novo, quando Everton Ribeiro deu a ordinária letra que permitiu o contra-ataque do gol de empate do Independiente, na primeira partida da final da Sul-Americana no ano passado. Apesar disso, insisto no que escrevi em meu último post: não se trata de falta de raça, e sim da inexistência de uma atitude vencedora – que se traduz em concentração e seriedade. Não vejo o Toni Kroos dar carrinhos, cabecear chuteiras adversárias ou vibrar por ter interceptado um cruzamento. Porém, bastam cinco minutos de jogo pra gente perceber o quanto será dureza ganhar dele. Há muita técnica, óbvio, mas também há postura.

Depois de tentar uma cavadinha e pôr a bola nas mãos de Dida, na disputa de pênaltis que tirou o Corinthians das semifinais da Copa do Brasil de 2013, Alexandre Pato não teve mais ambiente para seguir no clube – sofrendo pressões, inclusive, do próprio grupo de jogadores. Ninguém está a fim de se matar, para um atacante popstar de cabelinho hipster atrasar a bola displicentemente para o goleiro adversário. No Flamengo, Diego perdeu um pênalti que nos daria a importantíssima vitória sobre o Palmeiras, no Campeonato Brasileiro de 2017, voltou a perder na disputa de pênaltis que nos tirou o título da Copa do Brasil, e aposto o valor da minha aposentadoria – não dá para fazer muita coisa, mas é o que tenho a propor – que ele continuaria sendo nosso batedor oficial se Henrique Dourado não tivesse chegado. É uma desagradável sensação de que passamos a conviver bem com o fracasso.

Apesar de ter pisado feio na bola, no argumento do preconceito contra jogador nordestino e também nas comparações entre Márcio Araújo e Cuéllar e entre Alex Muralha e Diego Alves, Juninho Pernambucano disse algumas verdades inconvenientes. A escalação de Everton na lateral, menos para barrar Renê e mais para permitir que Vinicius Júnior entrasse desde o começo, era um dos sonhos de consumo de boa parte da torcida. Trata-se de um caso típico de memória seletiva: lembramos que Everton jogou ali na arrancada para o título do Campeonato Brasileiro de 2009, e esquecemos que o Flamengo atuava com três cabeças de área. Maldonado, Airton e Willians eram os titulares, e se um deles ficasse de fora, Andrade lançava mão de Toró.

Juninho também acerta quando afirma que os rubro-negros – dirigentes e torcedores, juntinhos – superestimam o elenco que têm. Chega um momento em que a máscara cai, e percebemos que os laterais não são confiáveis, o miolo de zaga é lento e do meio para a frente somos pouco incisivos. Como o futebol brasileiro se encontra nivelado por baixo, nossas deficiências não nos impedem de brigar por títulos significativos. Para isso precisamos estar bem-treinados e, durante os noventa minutos de cada partida, manter a concentração e o espírito coletivo. Tarefas para um treinador eficiente.

Do começo de 2013 até hoje, a diretoria capitaneada por Eduardo Bandeira de Mello, inicialmente com sua formação titular e depois, na reeleição, desfalcada de quadros importantes, obteve inúmeros acertos na parte financeira e cometeu incontáveis equívocos no futebol. Desses, dois são imperdoáveis: na primeira gestão – ainda com Bap, Wallin e todos os autodeclarados bambambãs –, a irresponsável, desnecessária e até hoje não explicada escalação de André Santos contra o Cruzeiro, que quase nos atirou aos braços da segunda divisão; no atual mandato, o maior de todos os erros foi a passividade com que se conduziu o episódio da deserção de Reinaldo Rueda, que está na origem do rebuceteio da semana passada.

Em junho de 2016, nosso presidente garantiu que era um absurdo o que o jornalista PVC escrevera em seu blog no UOL: a ideia de trazer Mozer para a gerência de Futebol tinha nascido em um grupo de whats app de torcedores, administrado por Lucas Mário, também conhecido por Orelha. Torcedor costuma misturar as bolas. O que o cara fazia dentro de campo é diferente do que ele precisa fazer fora dele, seja como técnico, gerente ou o que for. Rápido exemplo: lateral medíocre, Vanderlei Luxemburgo foi muito mais treinador do que Júnior, o melhor lateral-esquerdo que vi jogar.

Ainda no UOL, gosto dos textos do André Rocha e de suas abordagens bastante técnicas. Uma de suas mais recentes postagens trouxe o seguinte título: “Flamengo é administrado pelas redes sociais e não pode ser levado a sério.” Dá para discordar? Reconheça ou não o presidente, a largada para a vinda de Mozer aconteceu nas redes sociais (de onde PVC iria inventar o Orelha?). Para que Everton Ribeiro pousasse no Ninho do Urubu, os torcedores o bombardearam de mensagens no instagram e no twitter. Diego Alves, idem. Rueda. Independentemente da qualidade dos nomes, há que se admitir que esse é um modo estranho e pouco profissa de tocar os destinos rubro-negros.

O Flamengo adquiriu o péssimo hábito da procrastinação. Foi assim na demora para dispensar Wallace, que acabou abandonando o clube às vésperas da estreia no Campeonato Brasileiro de 2016. Foi assim, também, na insistência em renovar os contratos de Márcio Araújo e Gabriel. Na infinita paciência com Rafael Vaz. Na teimosia com Zé Ricardo – que embora tenha feito um bom trabalho por um certo período, viu se esgotar seu prazo de validade no comando do time. Ou seja: em vez de tomar as medidas a tempo e hora, espera-se que a bomba estoure.

Foi justo o siricutico de Ricardo Lomba? Pelo conjunto da obra, sim. Pela derrota para o Botafogo, não. Essa é outra questão interessante: precisamos definir o que queremos cobrar. Quando o Campeonato Carioca começa, esbravejamos que a competição é uma bosta e reclamamos do presidente por não bancar escalações somente com os garotos da base. (Pouco importa o fato de termos contratos assinados com patrocinadores e com a Globo, isso aqui é Flamengo, porr*.) Aí perdemos e o mundo acaba. Não me parece difícil sacar a ardilosidade euriqueana por trás das antiesportivas fórmulas dos últimos estaduais: elas representam a única possibilidade que o atual Vasco tem de ganhar um título na temporada. Claro, com os pequenos cariocas cada vez mais à míngua, a tendência é de que os quatro grandes cheguem às fases decisivas, e aí as rivalidades históricas se encarregam de reduzir os desequilíbrios. Caímos feito patinhos e alimentamos crises que legitimam a esperteza.

Mudanças eram necessárias. O jeito como as coisas têm sido feitas é que nos deixa com um exército de pulgas atrás das orelhas: jogaram para o time ou para a plateia?

JORGE MURTINHO

Pouco importa o fato de termos contratos assinados com patrocinadores e com a Globo, isso aqui é Flamengo.



Postar um comentário

[facebook]

FlamengoResenha

{facebook#https://www.facebook.com/FlamengoSouRubroNegro} {twitter#https://twitter.com/FlamengoResenha} {google-plus#https://plus.google.com/u/0/107993712547525207446} {youtube#https://www.youtube.com/channel/UCiHkjDj2ljgIbiv_zUvdG6g/videos}

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget