Multidões em treinos abertos alertam sobre algo além da elitização

O próximo jogo do Flamengo na Libertadores, para quem não puder comprometer R$ 40 de seu orçamento com sócio-torcedor, custará R$ 180.

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur

Foram 20 mil no Morumbi, 31 mil na Arena Palmeiras, 41 mil na Arena Corinthians, 50 mil no Maracanã. Treinos abertos, multidões em aeroportos e corredores humanos no acesso aos estádios passaram a ser parte do ritual que antecede grandes jogos. Um movimento nacional que não deve desprezar a exclusão de camadas populares dos estádios como um de seus componentes. Mas estamos diante de eventos que nos ensinam muito mais sobre a relação entre o futebol brasileiro e o torcedor.

É verdade que, na final do Campeonato Brasileiro de 1992, era possível estar no Maracanã com 3% do salário mínimo do país. Na primeira década deste século, os principais jogos no estádio variaram entre 4% e 8% do salário mínimo. Com alguns picos, como o Fluminense x LDU da final da Libertadores, que custou 14% de um salário. O próximo jogo do Flamengo na Libertadores, para quem não puder comprometer mensalmente R$ 40 de seu orçamento com um plano de sócio-torcedor, custará R$ 180, ou 19% de um salário. O preço mínimo para se entrar num estádio subiu, seja pelo fim de setores populares ou pelas sucessivas reformas. Um crime. E os treinos abertos ou festas de rua incluem gente que deixou de ter acesso aos jogos.

fumaça treino aberto
Maracanã lotado pela torcida do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
Mas é preciso ponderar. Primeiro, que o processo é menos recente do que parece. Segundo, que o futebol já foi bem barato no país. E, mesmo assim, nossa rotina é de estádios vazios. E este é o tema que merece reflexão. Um estudo da empresa Golden Goal, que incluiu todas as partidas dos Campeonatos Brasileiros entre 1971 e 2007, mostrou que a média de ocupação de estádios foi de 31%. Ou seja, por 36 anos, 69% dos bilhetes do maior torneio do país encalharam. A imagem dos estádios abarrotados é muito ligada a grandes decisões. No ano passado, evoluímos para 41%, mas ainda é muito pouco.

Há um outro tipo de atração movendo tanta gente a treinos abertos e “invasões” a aeroportos. São eventos em que a torcida se vê como protagonista, em que a arquibancada é o palco. Claro que, no meio dos 50 mil que foram ao Maracanã, havia quem desfrutasse da única chance de entrar neste novo e caro estádio. Mas a grande mobilização também parece ter a demonstração da capacidade de cada torcida de realizar um evento maior do que o feito pela rival. Uma espécie de competição velada, de afirmação, de orgulho. Não foi para ver jogadores fazendo uma roda de bobo no centro do campo que 50 mil saíram de casa. A torcida foi ver a si própria.

O que nos ensina algo sobre sensação de pertencimento, tão em falta em tempos de um futebol impessoal, de jogadores que trocam rapidamente de camisa. O elo precisa ser o clube. E nunca foi fácil motivar o torcedor brasileiro a sair de casa para ver seu time na vitória ou na derrota. Neste ponto, estes treinos abertos transmitem certa segurança: tanto pela noção de que ocorrências violentas são improváveis, quanto pela óbvia convicção de que ninguém sairá dali derrotado.

Por fim, o mais importante: a rua, o aeroporto ou o treino aberto desmentem o mito do desinteresse por nossos clubes. Ao menos, mostram que eles ainda mobilizam muita gente. É preciso entender, então, por que falhamos em algo vital: ocupar estádios, preencher os tantos assentos vazios que dominam o cenário, seja pelo preço, seja pela segurança, seja pelo calendário. Enquanto não o fizermos, seguiremos olhando nosso jogo doméstico com a sensação do potencial inexplorado.


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