Na cadeia, Lula não poderá mais ajudar o Corinthians

Lula arrumaria uma maneira de o clube pagar o estádio. Ajudaria na reaproximação com a Caixa.

COSME RIMOLI: 12 anos e um mês.

4.410 dias.

Este é o tempo que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá passar preso, a partir de hoje.

O primeiro lugar que passará enclausurado, condenado por ter recebido um apartamento triplex como propina de empreiteiras, será em Curitiba. Em uma sala da superintendência da Polícia Federal.

Lula terá à disposição 15 metros quadrados. Ela era usada como alojamento para policiais federais de outras cidades. Fica no quarto andar, o último do prédio da sede da PF em Curitiba. É isolada das demais celas - onde estão presos o ex-ministro Antônio Palocci e o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, condenados pela operação Lava Jato, como o ex-presidente.

Lula e Andrés Sanchez com a camisa do Corinthians - Foto: Gastão Guedes
A alimentação será igual aos demais condenados.

Terá direito a duas horas de banho de sol por dia. Sozinho. Suas visitas não serão na quarta-feira, dia dos demais presos. Lula receberá amigos e familiares provavelmente na quinta-feira. E não haverá contato físico com quem for falar com ele. Um vidro os separarão.

Na sala adaptada, não haverá televisão ou rádio.

O que já será um problema a partir de domingo.

Não terá o direito a ver ou sequer ouvir a final do Campeonato Paulista, onde o 'seu' Corinthians enfrentará o grande rival, o Palmeiras. Terá de perguntar a um carcereiro. E imaginar como foi o jogo, se o agente federal se dispuser a explicar, se tiver visto a decisão.

Em Garanhuns onde nasceu, sua família garante que seu sonho não ser presidente do Brasil. Mas jogador do Corinthians. Confessou que, ao chegar em São Paulo, de pau de arara (caminhões que eram adaptados ilegalmente para transportar passageiros), fez questão de ir para o Pacaembu, ver o time do coração jogar.

"Me encantei com a vibração do povo. Todos juntos, pobres, ricos, brancos, pretos, japoneses. Todos amando aquele time. E eu pensei. Como é que um clube tão popular não tem uma casa? Isso sempre me incomodou", discursou Lula, em agosto de 2010, mês que foi confirmado que a abertura da Copa de 2014 seria em Itaquera. Dois meses antes, o Morumbi havia sido descartado.

Lula é odiado no São Paulo Futebol Clube. Conselheiros ligados ao falecido presidente Juvenal Juvêncio têm a certeza que ele articulou com a Fifa e a CBF para que o Morumbi ficasse fora do Mundial. E, com o auxílio fundamental de Emilio Odebrecht, garantiu o nascimento do sonhado estádio do Corinthians, o Itaquerão. Apelido que o próprio Lula adora usar ao citar o estádio.

"Teve o pedido do Lula para o meu pai: 'Ajuda o Corinthians a construir estádio privado'. Só isso. Aí nessa época, eu nesse assunto ainda não tinha me envolvido'", disse Marcelo Odebrecht, em depoimento à Polícia Federal.

O apoio federal viria através de liberação de empréstimo do BNDES (R$ 400 milhões). Para atestar que o BNDES estava alinhado, Marcelo conta que Luciano Coutinho também esteve no jantar que sacramentou o plano. Ele explicou que houve uma manobra para assegurar o empréstimo do BNDES. Ele disse que um empréstimo vultoso a um clube causaria reação negativa aos bancos, em virtude de dívidas do Corinthians.

Para facilitar a obtenção de empréstimos bancários, foi aberta uma conta desvinculada ao Corinthians para onde iria o empréstimo.

"Quem fez o estádio fomos eu e o Lula. Garanto que vai custar mais de R$ 1 bilhão. Ponto. A parte financeira ninguém mexeu. Só eu, o Lula e o Emílio Odebrecht", declarou Andrés Sanchez à revista Época.

"O dia em que essa história vier a público, vai ficar feio para quem?", perguntou o repórter.

" Não vai ficar feio pra ninguém. Vai ficar, talvez, não imoral, mas difícil para o Lula."

"Por quê?", insiste o jornalista.

"Porque vão falar:

“Pô, como é que uma empreiteira se submete a fazer isso?

"Por que o presidente pediu?”

Não custa lembrar. Nos 12 anos que o Brasil foi governado pelo PT, entre 2003 e 2015, o faturamento do grupo Odebrecht multiplicou-se por sete. Passou de R$ 17,3 bilhões para R$ 132 bilhões, em valores nominais.

Andrés e Lula eram amigos há décadas. Socialistas, os dois sonhavam com a presidência. Um com a do Corinthians e o outro com a do Brasil.

Ambos conquistaram seus sonhos no mesmo período. E desfrutaram da amizade. Andrés cansou de homenagear o presidente Lula. Tinha orgulho dessa proximidade. E não escondia de ninguém.

Por coincidência, também neste período, o Corinthians passou a ter o maior patrocíno já pago por um banco estatal, na sua camisa. A Caixa Econômica Federal, em 2012.

No mesmo ano, a Gaviões da Fiel homenageia Lula.

O enredo: "Filho Fiel Não Foge à Luta – Lula, o Retrato de uma Nação".

Vale lembrar essa a matéria apurada pela Folha em fevereiro de 2016.

"Luis Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula, recebeu cerca de R$ 500 mil entre 2011 e 2013 do Corinthians sem ter desempenhado função no clube.

"Não me lembro de nenhuma tarefa que ele tenha sido convocado para desenvolver ou que ele tenha realizado algo", afirmou Luis Paulo Rosenberg, economista e responsável pelo marketing do Corinthians de 2007 a 2012.

"Os pagamentos do Corinthians para Luis Cláudio, ocorridos entre 2011 e 2013, coincidem parcialmente com o período da construção, com empréstimos federais, do estádio do clube em São Paulo, de 2011 a 2014. A coincidência de datas abrirá uma nova frente de investigação da Polícia Federal na Zelotes, segundo investigadores.

"Time de Lula, o Corinthians foi o primeiro cliente da carreira de empresário de marketing esportivo de Luis Cláudio, iniciada com a criação da empresa LFT, em 2011.

"Antes, ele atuou como auxiliar de preparador físico na equipe do técnico Mano Menezes. Luis Cláudio deixou o posto de auxiliar em julho de 2010 com o argumento de que queria ser técnico e que não via espaço no Corinthians.

Disse a colegas que iria buscar seu sonho, mas voltou menos de um ano depois, em função diferente: responsável por prospectar patrocínios ao esporte amador.

Antes com carteira assinada e salário de R$ 15 mil, ele voltou em 2011 com a renda turbinada para R$ 20 mil mensais por quase dois anos, até 2013. Apesar disso, nunca conseguiu angariar nenhum parceiro para o clube.

Sanchez disse que o filho de Lula foi contratado a pedido do técnico. "O Mano [Menezes] pediu ele como auxiliar."

A versão não é confirmada pela assessoria do treinador, que afirmou que "foi uma indicação do clube à área física e que o treinador aceitou."

Lula ganhou o cargo de conselheiro vitalício do Corinthians.

Estádio, filho, Carnaval.

Por influência de Lula, Andrés se tornou deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores.

A ligação entre Corinthians e Lula foi se distanciando com os problemas insolúveis para pagar o estádio. O filho acabou dispensado do clube.  Lula não colaborou na busca de naming rights. Foi destituído do cargo de conselheiro vitalício por não participar de nenhuma reunião no Conselho. Houve até a ruptura com a Caixa.

Nunca mais fez parte de enredo algum da Gaviões.

Mas havia a esperança de muitos eleitores que recolocaram Andrés Sanchez à presidência do Corinthians. A amizade voltaria a esquentar.

Ainda mais com ele, favoritíssimo à eleição para presidente do Brasil.

Lula arrumaria uma maneira de o clube pagar o estádio.

Ajudaria na reaproximação com a Caixa.

Talvez, quem sabe, um novo estágio para Luis Cláudio, com Carille?

Mas nada disso se realizará.

Lula será preso.

O Corinthians voltará a ter a mesma preocupação dos tempos de garoto, em Garanhus.

Vai querer saber quanto foi o jogo e só.

O que tinha para fazer pelo clube já fez.

Agora, vai tratar da sua vida como condenado da justiça brasileira.

Como presidiário.

E o Corinthians que ande com as próprias pernas.

Sem o generoso escudo de Lula...



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