O apito como obstáculo

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Em um apito, um mundo de ideias se esfarela. Cai a estratégia trabalhada pelo técnico ao longo de dias. A concentração dos jogadores fica abalada. A fé em quem deveria zelar pela partida se esvai. As análises serão quase em vão. Tudo desmorona em um simples apito. Wagner Reway, árbitro do empate em 2 a 2 entre Vitória e Flamengo, deveria mediar o jogo. Apresentou-se como o mais duro obstáculo. Principalmente aos visitantes. Do Flamengo, ceifou a chance de disputar o jogo com 11 jogadores, zerou a vantagem obtida em segundos e ignorou um pênalti. Do Vitória, permitiu um gol irregular do Flamengo. Na balança, tornou o duelo desigual.

A expectativa era grande na torcida carioca em torno da versão rubro-negra após a demissão de Paulo Cesar Carpegiani diante da eliminação contra o Botafogo. Mauricio Barbieri, o escolhido pelos atletas, parecia não ensaiar grandes mudanças. Manteve o 4-1-4-1 com uma troca: a vaga de Everton, praticamente negociado, foi dada ao precoce Vinicius Junior. Lucas Paquetá caiu à ponta direita. Diego e Everton Ribeiro pelo meio. O Flamengo estava pronto. Ligado. Antenado. Em 15 segundos, provou.

Erros da arbitragem contra o Flamengo diante do Vitória - Foto: Reprodução
No rolar da bola, Juan recebeu na defesa e tentou lançar aos meias. Kanu errou o bote e o garoto disparou por dentro. Apenas rolou para Paquetá, consciente e com o buraco deixado por Pedro Botelho, na direita. O toque foi sutil, com extrema categoria, no canto direito de Caíque. Com 15 segundos, 1 a 0 na estreia do Campeonato Brasileiro. Certamente nem Barbieri tinha imaginado o time com vantagem tão precoce. Como se portaria o Flamengo a partir dali? Chamaria o Vitória e buscaria a velocidade dos garotos pelos lados? Ou tentaria controlar o jogo com seus meias experientes? Não houve tempo para resposta.

O Vitória, postado em um 4-2-3-1, deixou claro que apostava nos avanços de Yago e Rhayner pelos lados para buscar Denilson na área. William Farias dava passos infiltrar e tentar complicar Cuellar, o único volante rubro-negro. Era apenas um esboço. A partir daí, o jogo se modificou. Com o apito. No bate-rebate na área, Rhayner, na terceira tentativa baiana, mandou um balaço para o gol. Everton Ribeiro, instintivamente, abriu os braços. A bola explodiu em seu rosto para o mundo. Para Wagner Reway, em suas mãos. O 7 virou camisa 1. Um 7 a 1. E não apenas o pênalti foi assinalado. Cartão vermelho mostrado. Em um lances, dois erros. E o jogo foi arruinado. Yago empatou, cobrando bem. Mas e daí? Reway, individualista e convicto em seu erro, mandara a partida às favas.



Não havia muitas opções ao Flamengo. Faltavam ao menos 80 minutos para o fim do jogo. Rapidamente o time se arrumou em dois blocos de quatro jogadores, deixando Henrique Dourado à frente. Uma tentativa de Barbieri para tentar entender até onde seria possível aguentar assim. Durou pouco. O Vitória adiantou os laterais e deixou apenas Uillian Correia mais preso com os zagueiros. Empurrou o Flamengo e roubou o meio de campo. O jogo rubro-negro, baseado neste setor, encolheu. Henrique Dourado, de boa presença de área, tem pouco a acrescentar fora dela. Aos 26 minutos, Barbieri mexeu. Willian Arão por dentro ao lado de Cuellar. Vinicius Junior na direita, Diego na esquerda. Paquetá à frente, elétrico. Um garoto que merece um capítulo à parte.

Na ponta, no meio ou como atacante, o garoto tem se destacado. Tem dribles rápidos, curtos e pareceu ter melhorado a finalização. Deu um bom arremate pela esquerda que obrigou Caíque a fazer boa defesa. Assumiu, naturalmente, a tarefa de reger o time. Adiantado e com menos um companheiro em campo, caiu de produção. Provavelmente seria mais produtivo na vaga de Diego, pelo lado esquerdo. O camisa 10, por outro lado, melhoraria por dentro. Na ponta, ele ajudava Renê na vigília a Rhayner. Mas faltavam pernas para acelerar o jogo e buscar o contra-ataque. Ao segurar uma ou duas bolas, sofria o bote rival. Ainda assim, o time segurou bem o Vitória com os respiros de Paquetá. Ele achou Rodinei pela direita, mas o lateral foi empurrado por Yago. Pênalti ignorado por Wagner Reway, em noite calamitosa.

Paquetá ainda fizera jogada individual, agora pela esquerda e rolou ao centro. Mas a zaga se antecipou a Arão. O time da casa saía ao ataque, mas faltava técnica, melhor estratégia. O homem a mais tornou o time mais impulsivo, menos cerebral. Baumjohann, responsável por organizar o meio, estava mal. Não por acaso deixou o campo na segunda etapa. Mancini colocou Juninho em campo pela esquerda, com Yago mais centralizado. Tentava explorar os avanços de Rodinei e Vinicius Junior no setor. Paquetá mostrou cansaço algumas vezes, mas era o jogador mais efetivo do time. A saída para a entrada de Geuvânio como atacante centralizado fez o time diminuir o ímpeto. Estratégia que já dera errado em 2017 diante do São Paulo. Jogador de drible e velocidade, Geuvânio tinha de receber a bola, prender e aí girar. Além de não ter presença de área. Foi pouco efetivo.

O Flamengo, de fato, chegava pouco. Natural. No meio do segundo tempo, o jogador a menos desde o início da partida cobraria o seu preço. Talvez por isso a tentativa de oxigenar o time por parte de Barbieri. Dar velocidade nas pernas de Geuvânio. O Vitória, adiantado, trocava passes, mas sem drible, sem infiltração. Cruzava a bola. Ocupava o campo rival, mas sem grande perigo ao simplesmente cruzar a bola. Foram 31, de acordo com o Footstats. Estratégia pobre e previsível. E arriscada. No desafogo que conseguia, o Flamengo se aproximava da área pelos lados e vez e outra garantia faltas perigosas. Em uma delas, Diego levantou para Arão, completamente impedido, errar a cabeçada. A bola sobrou para Geuvânio, que bateu cruzado para a testada de Rever. Era irônico. Com ajuda do apito, o Flamengo conseguia tornar a balança justa a seu favor diante de tantos erros grosseiros. Confuso. Desleal. Mas um retrato do futebol brasileiro. 2 a 1.

Bastaria, então, ao time tentar manter a posse de bola, diminuir o ímpeto do Vitória. Mancini trocou Pedro Botelho por Guilherme Costa, garoto emprestado pelo Vasco. Tentava, ainda força o jogo pela esquerda. Mas foi pela direita que conseguiu o empate. Renê deu campo para Rhayner parar, olhar e cruzar na medida para Denilson, tranquilo entre os zagueiros, tocar de cabeça no canto de Diego Alves. 2 a 2. O jogo, então, foi engessado. Barbieri repetiu a dobradinha Pará/Rodinei pela direita para evitar a maior aposta de Mancini pelo lado esquerdo. Vitória com a bola, toque, toque, toque e cruzamentos nada efetivos. O empate foi o placar. Mas não justo.

Há maneiras de se analisar um jogo. Desde que transcorrido de forma normal. Na estreia de Barbieri, o Flamengo pouco apresentou novidades, mas por simplesmente não ter tido tempo. Foram apenas dez minutos. 80 foram desconstruídos por Wagner Reway. Sempre criticados pela postura, os jogadores do Flamengo, ou melhor, o Flamengo foi valente em campo no Barradão. Lutou com dez jogadores em quase todo a partida, arrancou um empate e por pouco não triunfou. Só há uma maneira de se avaliar o jogo no Barradão. O Flamengo, no soar de um apito, encontrou seu primeiro grande feroz obstáculo no Brasileiro.

O Flamengo, no soar de um apito, encontrou seu primeiro grande feroz obstáculo no Brasileiro.



Postar um comentário

[facebook]

FlamengoResenha

{facebook#https://www.facebook.com/FlamengoSouRubroNegro} {twitter#https://twitter.com/FlamengoResenha} {google-plus#https://plus.google.com/u/0/107993712547525207446} {youtube#https://www.youtube.com/channel/UCiHkjDj2ljgIbiv_zUvdG6g/videos}

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget