O homem que não deixou o Flamengo cair

Júlio César nunca fugiu da responsabilidade, nunca deixou de lado o coração, nunca esqueceu a importância e o significado da camisa.

ESPN FC: Por João Luis Jr

Existem vários critérios possíveis para avaliar se um jogador merece ou não ser chamado de ídolo. Você pode analisar o número de títulos pela equipe, você pode levar em consideração a identificação do jogador com o clube, para alguns pode pesar também o tempo que ele passou num time ou mesmo a postura dele fora de campo. E ainda que, por todos esses critérios, Júlio César já pudesse garantir uma vaga no hall dos heróis rubro-negros, talvez o grande diferencial do goleiro que se aposentou com festa e emoção ontem no Maracanã tenha sido a sua capacidade de salvar o Flamengo exatamente nas horas em que ele mais precisou.

Alguns podem lembrar de Júlio César como um goleiro competente mas não tão bom quanto outros da história rubro-negra - Raul, Cantarelli, Zé Carlos - e para outros, mais jovens, Júlio pode ter ficado marcado apenas como o goleiro da seleção brasileira no famigerado 7x1. Mas se você tiver mais ou menos a mesma idade que eu e tiver acompanhado o Flamengo no começo dos anos 2000 da maneira que eu acompanhei, é impossível negar o quanto de história o “Buzz Lightyear” da Gávea fez durante as 284 partidas de sua primeira passagem pela Gávea e o quanto dela aconteceu em momentos críticos para o Flamengo.

Júlio César vibrando pelo Flamengo - Foto: Staff Images
Júlio César esteve lá nos melhores momentos, claro. Após colocar Clemer no banco, foi Júlio que fez parte daquele Flamengo Campeão Carioca e da Copa dos Campeões de 2001, um super-time que tinha desde Gamarra até Petkovic, mas que garantiu vários resultados exatamente através das mãos e pés do seu jovem goleiro, que com 22 anos já assumia com segurança uma posição cuja pressão provavelmente é maior do que a do cargo de presidente de alguns países.

Mas era nos piores momentos que Julio César mais brilhava. Quando a dupla de zaga era André Bahia e Fabiano Eller, ele estava lá. Quando os laterais eram China e Valdomiro, ele estava lá. Quando nosso meio de campo era Jorginho, André Gomes, Fabio Baiano e Iranildo, ele estava lá. Quando nosso ataque era Jean e Fernando Baiano, ele estava lá. E o simples fato de não apenas ele ter conseguido ajudar a manter Flamengos desse calibre na Série A do Campeonato Brasileiro, como não ter sofrido um colapso nervoso ou decidido abandonar o futebol nesse processo, mostra que Julio é não apenas um dos maiores goleiros da história do clube como possivelmente se consulta com um dos melhores terapeutas do mundo.

Então nada mais justo para um jogador que surgiu e se destacou na imensa fogueira que é o gol do Flamengo do que se aposentar não numa partida festiva, não contra um time qualquer no Campeonato Carioca, mas sim num jogo de Brasileirão, onde o time, pressionado, precisava vencer e ele foi obrigado a se esticar para fazer várias defesas importantes. Nada mais natural para um Júlio César que viu o melhor e o pior do Flamengo do que a sua última imagem com a camisa rubro-negra ser um abraço emocionado em Juan depois de 90 minutos atuando ao lado de Renê e Rodinei.

E por isso Júlio César se aposenta como ídolo. Não apenas pelos títulos que conquistou, que poderiam ser em maior número se a equipe tivesse ajudado, ou pelo número de partidas que disputou, que já o colocariam entre os maiores da história do clube. Mas sim porque quando o Flamengo precisou ele estava lá. Fosse para comemorar títulos importantes, fosse para impedir tragédias gigantescas, fosse para defender bolas impossíveis, fosse para correr desesperadamente para o ataque com a bola quando sofríamos uma goleada, Júlio César nunca fugiu da responsabilidade, nunca deixou de lado o coração, nunca esqueceu a importância e o significado da camisa rubro-negra.

Boa aposentadoria, JC. Obrigado por todas as defesas, desculpa ali pelas situações que o Flamengo te fez passar entre 2002 e 2005 e que sua dedicação e paixão sirvam de exemplo tanto para todos que ainda vão passar pelo nosso gol quanto para cada um que veste a camisa desse clube.


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