O que faz um ídolo?

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

O que faz um ídolo? Os torcedores entram no estádio aos poucos, buscando lugares. Estão ali por um motivo além do rotineiro. Por alguém que carregou suas cores como poucos. Ganhou o mundo. E voltou para casa. Que cometeu erros e acertos, como qualquer um deles. Que se reapresentou voluntariamente para fazer parte de novo daquela religião que nunca deixou de ser a sua. Por um último adeus. Por imagens a colecionar. O que faz um ídolo.

De repente ele surge. Sozinho. Camisa amarela, distinta de praticamente toda a massa rubro-negra que urra, acena para os seus. Sente-se parte da arquibancada. A arquibancada sente-se parte do campo. No ar, a comunhão é quase palpável. Estão ali, excepcionalmente naquela noite, por ele. O elo. O que faz um ídolo.

Júlio César no Flamengo - Foto: Buda Mendes/Getty Images
O discurso no microfone vem com um som abafado, quase inaudível. E daí? A massa aplaude. Grita seu nome como se acostumou a fazer nas últimas duas décadas. “Ah, é Julio César!”. Ele parece se emocionar. Cumprimenta o presidente do clube, dribla o bolo de gente que se acumula por ele e acelera o passo rumo ao vestiário. Parece se segurar. Não quer desmoronar. Não agora. O que fazem com um ídolo.

As equipes entram em campo, a bola rola. Uma, duas defesas. Cada lance, por mais trivial, é motivo de alegria. Seu. Deles. De todos. Até que sai o gol no ataque. Braços para cima, comemoração solitária, como fez tantas vezes na carreira. Consegue se conter. Pênalti a favor. A torcida grita seu nome. “Ah, é Julio Cesar!”. Um delírio que a noite, mesmo especial, não permitiria. Ele se contém. Mas não por duas vezes. Outro gol, o veterano de 38 anos dispara, corre como um garoto. Abraça os companheiros. A festa é pelo gol. Mas é por ele. Para ele. O que faz um ídolo.

A bola viaja pelo céu e explode no travessão. Não seria ela, tão sua amiga, a lhe trair logo agora. Os minutos se arrastam para o fim. 21 anos de carreira profissional se apressam para encerrar um ciclo. Não sem antes fazer o que faz de melhor. Defender. Paradoxalmente evitar gols para promover alegria. Escancarar o sorriso da arquibancada. Aos 38 anos, realizado, cai no chão com cãibras. Efeito da idade. Da inatividade. Ri de si. Ri da vida. Da festa. Ri de nervoso. Ri de tudo. Ri sem saber o porquê. O que fazem com um ídolo.

A agilidade do garoto que explodiu na Gávea ainda está ali no homem maduro, já de cabelos grisalhos. Em cima, embaixo. As bolas não entram. “Ah, é Julio Cesar!”. De repente, o Maracanã explode. Pede o impossível. Quer eternizar o momento. “Fica!”. Ele sabe não ser mais possível. O apito indica o fim. Da carreira. Não da relação. Em êxtase, a arquibancada pulsa em um só nome. “Ah, é Julio Cesar!”. O fim deve ser apoteótico. Ali, diante da massa, ele se ajoelha. Abre os braços. Redentor. Assim se faz um ídolo.

O fim está ali. Os passos, agora, são História. Um contemporâneo, amigo de fé, atravessa o gramado. Não se aguenta. Introspectivo, frio. Com tudo isso, outro ídolo desmorona. Juan o abraça, em lágrimas. Soluça como um garotinho. As lágrimas se espalham pelo estádio. Pelo país. Pelo mundo. A imagem está eternizada. Como aquela dos três garotos observando em um treino quem tanto admiram. Morada eterna. “Ah, é Julio Cesar!”. O transe continua no Maracanã. O goleiro se aposentou. Fica na memória. Torcedores aplaudem, choram. Até quem desconfiou de seu retorno entende, agora, tudo que representa no Flamengo. Seu tamanho. Seu legado. Um protagonista no adeus. É o que faz um ídolo.

Até quem desconfiou de seu retorno entende, agora, tudo que representa no Flamengo.


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