O teatro do absurdo

O GLOBO: Por Carlos Eduardo Mansur

No início da última semana, a entrevista do árbitro Marcelo Aparecido ao “Redação Sportv” teve uma passagem que ganhou menos atenção do que merecia. Pivô da enorme controvérsia instalada na final do Campeonato Paulista, disse que “a reação dos jogadores” lhe deu a certeza de que a decisão — correta — de não marcar o pênalti para o Palmeiras fora acertada.

As últimas semanas foram ricas em lances cujo grau de dificuldade, repercussão e nível de detalhe com que foram exibidos pelas dezenas de câmeras já bastariam para justificar a necessidade do apoio tecnológico aos árbitros, algo que 12 clubes e CBF decidiram rejeitar. Os erros crassos, como os que influíram decisivamente no Vitória x Flamengo do último sábado, mais ainda. A confissão de Marcelo Aparecido, no entanto, acrescenta outro ingrediente: a transformação do campo de jogo num autêntico teatro do absurdo.

Erros da arbitragem contra o Flamengo diante do Vitória - Foto: Reprodução
Aparecido expôs um traço da vida real dentro do confuso ecossistema do campo de futebol. A insegurança do juiz, dono da responsabilidade de decidir, mas em tese o único sujeito privado da informação que a tecnologia disponibiliza, cria um convite à encenação. Sem todos os instrumentos a seu dispor, o juiz apita também por indícios num esporte cada vez mais desafiador ao olho humano. E, neste ponto, a capacidade do jogador de reagir teatralmente a decisões não merece desprezo.

Pior, há um roteiro que se segue a cada decisão que, instantes depois, as câmeras revelam equivocada: a informação chega ao campo, e o time prejudicado faz enorme esforço para que algum integrante da equipe de arbitragem saiba que o erro existiu.

Em Salvador, a comissão técnica e o banco de reservas do Flamengo foram ao quarto árbitro. No intervalo, dirigentes atravessaram o caminho do juiz. A partir daí, o que se tem é uma arbitragem comprometida irremediavelmente: seja pela percepção do comportamento dos jogadores, seja pela pressão, seja pela informação que lhe chega através do lado prejudicado. É humano que qualquer julgamento passe a ter uma carga indesejável: a sensação de débito com um dos lados.

E cabe uma ressalva: não foi por isso que o gol de Réver, após cabeçada em impedimento de Willian Arão, foi validado. Um lance de bola parada como aquele revela uma deficiência técnica estarrecedora. E, diga-se, a interferência maior no jogo fora cometida no pênalti mal marcado e a consequente expulsão de Éverton Ribeiro. Ali, num lance rápido, o erro humano é admissível. Inaceitável é a tecnologia ser usada como rival, e não como aliada da arbitragem.

O maior prejuízo é do jogo: logo na primeira rodada, a polêmica rouba tempo de discussões futebolísticas. Por exemplo, o Vasco fizera o suficiente para virar o jogo contra o Atlético-MG, criara chances, voltara a enfrentar bem um jogo grande. E este era um temor que cercava a entrada do time no Brasileiro. Mas o pênalti que decidiu o jogo, num lance com boa carga de subjetividade, ganhou protagonismo. O argumento de que o árbitro de vídeo não soluciona lances subjetivos não resiste.

Afinal, se o lance é interpretativo, por que privar apenas os árbitros das dezenas de imagens para interpretar?

Prevalece a lógica da pressão. Tão triste quanto os erros recentes, é ver dois dos raros momentos de ponderação serem tão duramente recriminados no mundo insano das redes sociais. Diego e Réver reconheceram a fragilidade do árbitro no cenário atual. Tiveram um gesto de humanidade raro. Pareciam ter traído a camisa que vestem.

Os erros crassos, como os que influíram decisivamente no Vitória x Flamengo do último sábado, mais ainda.



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