Um Flamengo agoniado por ideias

CHUTE CRUZADO: Desde que foi eliminado pelo Botafogo na semifinal do Campeonato Carioca, há quase um mês, o Flamengo se jogou no escuro em busca de mudanças. Trocou técnico, diretor de futebol e dispensou profissionais do departamento. Mas segue estagnado em campo. Ou pior: esfarela-se lentamente, como no fim da era de Zé Ricardo no comando do time em 2017. Em termos práticos, o empate sem gols contra o Santa Fé não foi nada trágico ao olhar a tabela do Grupo 4. Mas o futebol apresentado pelo time confirmou um Flamengo agoniado por ideias. Algo que estanque o desmoronar da equipe como fez a chegada de Reinaldo Rueda em 2017. O Flamengo precisava melhorar. Piorou. É o que preocupa.

Tudo parece ocorrer porque o clube busca de soluções em velhos problemas. Um andar em círculos. Willian Arão, desgastado com a arquibancada e com um futebol aquém de seus melhores momentos, voltou a ser opção de dar uma nova cara ao time. Um equilíbrio entre ataque e defesa que parece não ser capaz, ultimamente, de entregar. Pelo contrário. Arão é, com seu atual desequilíbrio em campo, um símbolo deste Flamengo. Foi escalado mais uma vez por Mauricio Barbieri. Inicialmente, parecia ser uma tentativa de um 4-2-3-1. Mas o camisa 5, ávido por uma resposta às críticas, debanda ao ataque. Cuellar, solitário, fica responsável em um meio vazio. Diego, de volta de lesão, encosta excessivamente no lado esquerdo, embolando com Vinicius. O centro do meio de campo rubro-negro vira um latifúndio improdutivo.

Willian Arão em Santa Fe x Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
Em seus domínios, o Santa Fé naturalmente foi uma equipe bem mais avançada do que a que se apresentou em um Maracanã vazio, uma semana antes. Em vez do 4-4-2 mais defensivo, um claro 4-2-3-1, com Gordillo e Perlaza mais à vontade para sair na faixa vazia deixada pelo Flamengo no centro. Pelos lados, rápidas saídas, principalmente à direita, com Plata tentando aproveitar, de novo, as costas de Vinicius Junior e o embate com Renê. Ocorre que o time colombiano é extremamente limitado tecnicamente. Esforçado, aposta na correria e com Morelo de intensa movimentação à frente, mas sem assustar de fato. Bolas longas, cruzamentos. Pouco para quem deseja vencer até mesmo este Flamengo.

Que não é um time que não corre. Pelo contrário. O Flamengo de Barbieri se esforça. Mas mal posicionado. Sem uma ideia clara, indica a imagem de um time apático. Errou, então, passes em demasia, os jogadores não conseguiam encontrar uns aos outros facilmente. Espaçado, com possibilidade de o rival interceptar uma tentativa de bola atravessada. Um Flamengo sem organização e sem ideias. Não sabe, ao certo, como atacar. Como aproximar. Como ser um time. Depende, então, das individualidades que por vezes o salvaram. Vinicius Junior tirou as suas da cartola contra o Emelec e até diante do próprio América-MG. Como uma semana antes, o garoto foi bem acompanhado por Arboleda. Marcado em cima. Sufocado. Sem auxílio de Renê, de presença rara no ataque, e com Diego que mantém a posse em vez de fazer o jogo andar, ele acabou isolado. Como Paquetá.

Geralmente o suspiro técnico do time no passado recente, o garoto tentou alguns deses dribles curtos e rápidos. Deu trabalho a Gil, mas era parado com frequência. Com Diego afastado mais ao outro lado do campo e Arão à frente, já quase dentro da área, sobravam os avanços de Rodinei, menos frequentes. Assim ele ficou mais isolado, também. Foium primeiro tempo sofrível, de viagem da bola de um campo ao outro. O lance mais maarcante, mesmo, foi o pênalti cometido por Henrique Dourado, ao salvar um chute de Pajoy com o braço, e ignorado completamente pela arbitragem, apesar de claro. Foi, portanto, um primeiro tempo daqueles típicos nos quais o apito que o encerra soa mais como alívio aos torcedores.

O segundo tempo trouxe um Flamengo, enfim, com uma ideia. Tentar manter mais a posse e os jogadores aproximados. Arão deixou de ser presença constante ao ataque, Diego centralizou mais e o time formou um 4-2-3-1 facilmente melhor visualizado. Parecia uma melhora. Em termos de criação, porém, o time continuou uma nulidade. Diego, principal responsável por essa característica, voltou a ensaiar um cacoete que prejudica o seu jogo: retorna até a intermediária defensiva para receber a bola, como um volante. Quer organizar o jogo desde trás. Ao manter a posse excessivamente, recebe o combate de dois, até três rivais. Desarmado, vai ao chão e proporciona contra-ataques. O camisa 10 poderia deveria rever seu jogo. Jogar mais próximo ao ataque, com toques rápidos e mais chances de finalização. Tem qualidade para isso mesmo aos 33 anos. O tempo passa, mas o jogo muda.

O que não mudou, mesmo, foi a postura do Santa Fé. Manteve o 4-2-3-1 e trocou apenas Pajoy por Roa, mais driblador do que velocista. Pressionava mais o Flamengo, rondava a área obrigando Diego Alves e esfriar o jogo com frequência, o que lhe custou um cartão amarelo. Barbieri respondeu com Geuvânio no lugar de Dourado, jogando Paquetá à frente, como o centroavante móvel criado por Rueda em 2017. Queria, claramente, velocidade. Mas não era o ingrediente que faltava. O time carecia de inteligência, melhor criatividade. Algo que Diego não conseguia entregar. Boa deixa para Everton Ribeiro, que permaneceria no banco de reservas.

Entraram Marlos Moreno, na vaga de Vinicius Junior e a minutos do fim Diego saiu. Mas para entrar Jonas. Flamengo mais recuado, com três volantes, tentando valorizar o empate. Que só não chegou pela lei da compensação do uruguaio Daniel Fedorczuk. Atentamente, ele acompanhou a roubada de bola de Geuvânio sobre Gil no último lance da partida. E encerrou o jogo quando o atacante rubro-negro entrava na área e completava para o gol. Um gol arrancado para equilibrar com o pênalti a favor do Santa Fé ignorado.

Um jogo ruim como em uma sequência de dominó. Foi pior do que o do América-MG, que foi pior contra o Santa Fé no Maracanã, que foi pior do que contra o Vitória. O jogo rubro-negro esfarela mesmo com duas semanas de paralisação. É difícil condenar Barbieri por exercer uma função para a qual não estava preparado. Ao assumir o time, o risco foi do clube e do então auxiliar. Não é que Barbieri tenha uma avaliação definitiva: suas condições são adversas. Início de carreira, assumindo o clube mais popular do país em plena crise, em ano eleitoral e sedento por um título que alivie pressões. Não por ser jovem: tem a mesma idade de Jair Ventura quando assumiu o Botafogo. Mas a diferença: Jair colecionava uma década de experiência como auxiliar do clube aos 36 anos. Barbieri tem pouco mais de três meses no novo ambiente.

O Flamengo precisa estancar as sucessivas atuações ruins. Ainda que a classificação para a Libertadores seja provável, mesmo diante do histórico negativo, não há perspectiva de melhora. É hora de apresentar soluções para o futuro que não sejam problemas do passado. Oxigenar. Dar continuidade às mudanças esboçadas após a eliminação no Carioca. Pôr fim à sua agonia em busca de ideias que indiquem, ao menos, o início de um bom caminho.

Pôr fim à sua agonia em busca de ideias que indiquem, ao menos, o início de um bom caminho.


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