A retomada de liderança do Flamengo

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

A agilidade dribla o rival com a mesma velocidade que a desconfiança de olhares invejosos é deixada para trás. Aos 17 anos, Vinicius vê além. Fareja como um veterano o perigo iminente. Arregala os olhos, parte confiante. Ele vai errar. Basta um quique da pelota para que o número 20, camisa ainda frouxa no corpo de guri, tenha certeza. Emerson, já desajeitado, percebeu que tinha trocado de papel. De predador a presa. Tenta, em vão, se recuperar. E comete o erro fatal: busca adivinhar o movimento. Vinicius finge travar, indica que vai ao meio. Em vez disso, dispara pela linha de fundo. Ele já tinha visto o espaço. Os olhos arregalados do atleticano indicam desespero. Tarde demais. A rolada suave encontra Everton Ribeiro, rumo ao gol. Flamengo um. Atlético Mineiro zero. Uma vitória daquelas improváveis. Daquelas que se somam ao currículo de quem promete. De quem está à frente. De quem vê além. Vinicius, 17, vê. E com a visão do seu moleque prodígio, o Flamengo recuperou a liderança do Brasileiro. Na unha.

Jogadores do Flamengo comemorando gol no Horto - Foto: Pedro Vilela/Getty Images
Pois, claro, não foi um jogo fácil. Não era mesmo de se esperar que fosse. E o Flamengo, uma vez mais, não se apresentou bem. Há, claro, alguns poréns. A zaga formada por dois garotos da base seria um. Mas Léo Duarte e Thuler conseguiram ser, ao lado de Vinicius e do goleiro Diego Alves, as boas notícias na noite no Estádio Independência. Com eles, o Flamengo trilhou sua vitória. Cuellar, fundamental ao time de Mauricio Barbieri, estava ausente. O técnico manteve o 4-1-4-1 utilizado nos últimos dois jogos. À frente da zaga, Jonas. Um volante que foi até eficiente e duro na marcação. Uma qualidade que não compensa a falta de outra: a inabilidade para sair ao jogo. Sufocado, sem espaço, o Flamengo não conseguiu dar qualidade ao passe. O volante recebia dos zagueiros, passava aos lados e os laterais, invariavelmente, tentavam lançar a bola à frente. Na maioria, a bola batia e voltava. O Galo era feroz em seu terreiro. Líder, com a torcida a favor, em ascensão. Fez de tudo.

Bem postado também em um 4-1-4-1, o time do jovem Thiago Larghi é difícil de marcar. Troca bastante de posição, tem Roger Guedes e Cazares saindo dos lados para dentro, abrindo caminho aos laterais. Luan e, principalmente, Gustavo Blanco, infiltram por dentro, mas também arriscam finalizações de fora da área. O Galo tinha enorme posse, quase 70%, mas não girava a bola com tranquilidade. Era nervoso, arisco, incansável. O Flamengo teve trabalho. Talvez, neste sentido, o time rubro-negro teve uma bafejada de sorte ao contar com zagueiros mais jovens e rápidos, que davam combate e conseguiam acompanhar os lançamentos para Roger Guedes, de um lado a outro, tentar entrar na área para concluir. A saída de jogo era um complicador. Não só pela falta de capacidade de Jonas de desempenhar esse papel como Cuellar, mas também por ter Diego e Paquetá bem acompanhados no meio. Ainda que tentassem retornar um pouco e ajudar o início do jogo, eram pressionados.

Diego tentou fazer a bola andar, soltá-la rápido. Entendeu que a temperatura do jogo não teria piedade com sua característica de pegar a bola, prendê-la um pouco e girar até escolher o melhor momento de fazê-la andar. Mas, bem marcado, rendia pouco na criação de jogadas, embora tenha sido bem combativo. Paquetá cometeu erros demais: embora seja quem tente passes verticais, como no lance em que deixou Vinicius em boa condição de finalização pela direita, tenta o drible constantemente em zona perigosa, na intermediária da defesa.

Ao ser desarmado, criou alguns lances de perigo ao adversário. O Atlético-MG sabia disso. Pressionava para não deixar o meio rubro-negro respirar. Recuperava a bola e partia com tudo. Foi um primeiro tempo sofrido para o Flamengo. O momento de maior tensão com o cruzamento de Blanco, da direita, para Roger Guedes, solitário no segundo pau, testar na trave de Diego Alves. Pela direita, o Galo forçava o jogo com Emerson. E abria um porém: uma avenida a ser explorada por Vinicius Junior. Por ali, o garoto recebia lançamentos e partia no mano a mano com Bremer ou o próprio Blanco. Com um Galo bem superior, o Flamengo ficou aliviado ao ver o primeiro tempo chegar ao fim com o placar zerado.

O segundo tempo trouxe panorama parecido. Um Galo envolvente, apostando nas subidas de Emerson pela direita, as infiltrações de Blanco pelo meio para dialogar com Roger Guedes, que saía da esquerda para desespero de Rodinei e tentava invadir a área. O Flamengo, recuado, tinha um Everton Ribeiro apagado, bem encostado no canto e sem ter espaço pelo meio e Henrique Dourado, uma vez mais lutando fora de suas características. O time certamente sabe, mas ignora seu estilo. É finalizador, de completar bolas às redes, como fez diante do América-MG no Maracanã. Exigir que saia da área, domine, gire e tabele como Guerrero tornará sua presença e, por consequência sua contratação, inútil. É um dilema com o qual o Flamengo tem de lidar. Em parte, lidou neste duro jogo no Horto.

Larghi sacou o menino Alerrando, substituto de última hora de um Ricardo Oliveira abatido por uma virose, e pôs Erik, mais veloz e experiente. Talvez a ideia fosse confundir ainda mais a defesa do Flamengo e exigir a saída dos zagueiros, que rebatiam bem as bolas levantadas na área pelos lados. Barbieri respondeu com uma aposta direta em Vinicius Junior. Sacou Dourado, preencheu o meio com Jean Lucas e deixou o garoto solto na frente, puxando com velocidade a bola. Jogava pelo contra-ataque, claramente. Mas jogava, muito, a esperança em um lance do garoto. Uma boa visão do técnico. Vinicius, em alguns lances, já consegue antever. O gol rubro-negro saiu com essa característica da preciosidade da base.

Otero mal acabara de substituir Blanco e foi ao canto cobrar escanteio de forma venenosa. Todo Atlético, praticamente, estava no campo de ataque, sedento pelo gol que insistia em não sair. A bola subiu e a zaga rebateu. Everton Ribeiro, à espera, dividiu com Fábio Santos e a bola voltou à área rubro-negra. Jonas bateu de primeira. Emerson estava soberano. Bastaria um toque à lateral, uma antecipação de cabeça. Tudo menos ser traído pelo quique da bola. Foi fatal. Vinicius já havia percebido e se tornou ali indecifrável para o marcador. Indicou ir ao meio, como tantas vezes, mas buscou o lado. Neste segundo, o garoto ganhou a área, o espaço. O jogo. Rolou para Everton Ribeiro tocar ao gol e ser doce lembrança amarga, de seus tempos de Cruzeiro, à arquibancada do Horto. 1 a 0.

O Flamengo, então se recolhia para garantir uma vitória fundamental para suas pretensões no Brasileiro. Chamou, claro, ainda mais o Atlético-MG. O festival de bolas cruzadas foi impressionante. De acordo com o Footstats, o Galo cruzou 49 bolas no jogo contra apenas cinco do Flamengo. Lançou outras 40 durante a partida. Foram fundamentais no miolo de zaga Thuler, com incríveis 11 rebatidas e Léo Duarte, com cinco. Gabriel ainda acertou o travessão no fim após os cinco minutos de acréscimo de Anderson Daronco, em mais uma jornada ruim com o apito. Inverteu faltas, foi autoritário e tentou dar reprimendas como um professor de quinta série a jovens como Thiago Larghi e Vinicius Junior, amarelado por, supostamente, fazer cera antes de ser substituído.

Foi, sim, um daqueles jogos nos quais o resultado foi o que mais importa. É possível ser campeão brasileiro construindo capítulos assim. Vitória suada, apertada diante de grande rival, com time desfalcado e pressionado na maior parte do tempo. Um grande achado de três pontos. A tônica rubro-negra, no entanto, deve ser outra. Buscar o bom desempenho. Insistir em ideias como Paquetá iniciando o jogo, Diego mais próximo à área. Tentar trilhar a melhora que parecia ter sido iniciada contra o Ceará. Talvez por desgaste, talvez por simples desorganização, o avanço parece ter se dissipado. Sim, o Flamengo é líder do Campeonato Brasileiro. Conseguiu ser competitivo, lutar em campo como perde a torcida. Mas o sorriso só é possível graças à visão de um moleque de 17 anos. Vinicius viu, foi e venceu.

Mas o sorriso só é possível graças à visão de um moleque de 17 anos. Vinicius viu, foi e venceu.


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