Boçalidade não ganha jogo

CARLOS EDUARDO MANSUR: Há uma série de abordagens possíveis após uma vitória como a do Flamengo, em Fortaleza. Se o objetivo for se ater apenas a questões futebolísticas, é obrigatório falar da brutal influência de Lucas Paquetá. Meio-campista total, escalado em sua função natural ganhou direito a olhar o campo de frente, com visão panorâmica. Passou, armou, desarmou. Por mais que o Brasil dê tanto protagonismo a discussões anímicas, o maior progresso do Flamengo foi técnico e tático.

O problema é que, a esta altura, alguns dos trogloditas que foram ao aeroporto na última sexta-feira celebram o que consideram uma vitória pessoal. E limitar o debate sobre o Ceará x Flamengo de ontem ao campo talvez nos impeça de pensar sobre como naturalizamos as agressões, morais ou físicas, a jogadores de futebol, única classe obrigada a considerar normal lidar com ofensas de acordo com o desempenho no trabalho.

Torcida do Flamengo na Gávea - Foto: Gilvan de Souza
O mundo consagrou como aceitável que o futebol assumisse o papel de território onde a sociedade descarrega suas frustrações. Em nome da paixão, transgressões são aceitas. Soma-se a isto a distorcida visão de que os bons salários pagos a jogadores de elite os obrigam a suportar todo tipo de boçalidade. É assustador perceber o quanto impera o medo. Ou, pior, o quanto prevalece a deturpada noção de que a violência é uma consequência natural de derrotas esportivas. O “joga por amor ou joga por terror” incorporado à rotina. Nenhum cidadão merece ser submetido a qualquer forma de terror. Se Diego, autor de um gol emblemático após ser violentamente assediado no embarque para Fortaleza, decidisse não jogar ontem, ninguém poderia lhe tirar a razão.

Um dos efeitos colaterais deste cenário é ver os alvos das agressões como vítimas acuadas, impotentes. Aeroportos, para usar o exemplo mais recente, são locais por onde transitam trabalhadores indo ou voltando dos locais onde desempenham suas funções. Se são ofendidos, agredidos, estão diante de um crime. Ocorre que, no futebol, tudo parece diferente.

O Flamengo passou os últimos dias discutindo seu planejamento de segurança, que obviamente falhou. Mas e a as denúncias aos agressores? Seja o jogador, seja o clube, sejam as entidades de classe que deveriam proteger os atletas, seja a polícia, parece ter passado o momento de retirar dos valentões a sensação da impunidade. Há imagens de sobra para que os infratores sejam identificados. A guerra entre torcidas não é única face da violência no futebol que merece atenção imediata.

No sábado, um Fluminense x Vasco pelo Carioca sub-20, nas Laranjeiras, repetiu cenas ocorridas uma semana antes, só que em São Januário: invasões de campo para agredir jogadores adversários. Isso numa competição de base. De novo, a impunidade imperou.

Levar tais fatos adiante pode responder a perguntas inquietantes. No caso das agressões em aeroportos e centros de treinamento país afora, os torcedores agiram por conta própria? É apenas coincidência que a temperatura das cobranças aumente em anos eleitorais dos clubes? Por que as emboscadas, algumas previsíveis, raramente deparam com a presença da polícia? E tão pouca foi a resistência às invasões a campo nos jogos sub-20 que resta saber se os clubes fizeram todo o necessário para impedi-las.

Há mais motivos para refletir. Nosso jogo vive uma ditadura da alma, da vontade. Atletas, treinadores e analistas abusam das explicações anímicas, de enorme reverberação na arquibancada. Quem ganha, correu. Quem perde, foi indolente. Combustível indesejável numa era tão intolerante.

O Flamengo passou os últimos dias discutindo seu planejamento de segurança, que obviamente falhou.


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