Flamengo busca o simples como solução contra o Ceará

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

No futebol, o grande perigo de tentar uma reação imediata em um panorama de forte pressão é buscar soluções excessivamente criativas. Tentar tirar um coelho da cartola com novas táticas, improvisações de jogadores. Fugir ao usual. Ainda sob efeito da violência sofrida no embarque para Fortaleza, o Flamengo teve um grande mérito. Conseguir respirar em meio à poeira e buscar a simplicidade. O encaixe do simples nem sempre é o mais comum no futebol. Mas foi o que Mauricio Barbieri, Diego e os outros jogadores tentaram no Castelão: render-se às evidências, ao óbvio. Deu certo. Com uma das melhores atuações em tempos recentes, o Flamengo venceu bem o Ceará por 3 a 0.

Talvez o jogo sirva, além de amansar a ira da maior parte da torcida, como um divisor de águas. Afinal, o time saiu do 4-2-3-1 dos últimos jogos, Willian Arão foi ao banco e Everton Ribeiro voltou ao time. Um 4-1-4-1 como no início de Paulo Cesar Carpegiani no ano. Mas a grande sacada não estava no esquema em si. As trocas de posicionamento de dois jogadores fizeram a equipe mudar. Revigorar. Diego e Lucas Paquetá. O primeiro abandonou ou foi convencido a abandonar de vez a tentativa de voltar aos zagueiros para receber a bola e iniciar o jogo. Aos 33 anos, o desgaste é maior, a explosão menor e a retenção da posse, característica do camisa 10, ainda maior. O time ficava travado e mais previsível. Diego, então, foi para onde pode render melhor: mais à frente, próximo à área, aproveitando o fato de finalizar bem.

Rodinei em Ceará x Flamengo - Foto: Staff Images
Paquetá, por sua vez, saiu da direita e jogou mais centralizado. Mas não avançado. Dois ou três passos atrás. Rápido, com passe sempre vertical, ele enxerga muito bem espaços no campo. Recebia a bola de Cuellar e observava o campo à sua frente. O time ficou mais veloz, móvel. Fundamental para o funcionamento de um esquema com apenas um volante de origem. Movimentação intensa dos meias. Incluindo aí Vinicius Junior, que parece já conseguir fazer melhor o trabalho do vaivém com um desenvolvimento físico, e Everton Ribeiro. O Flamengo estava bem. Troca rápida de passes, maior fluidez. O Ceará sentiu e ficou completamente retraído mesmo em seu estádio. Se a intenção seria um 3-4-3, na prática os alas recuavam e no primeiro tempo foi um 5-4-1. A tentativa de fechar os espaços ao Flamengo.

Ocorre que desta vez o time rubro-negro não apenas girava a bola de um lado ao outro. Tentava, sim, ir até a linha de fundo, finalizar mesmo que de longe. Tinha, de acordo com o site Footstats, 60% da posse. Renê, geralmente tímido no ataque, avançava mais por dentro do que pelo lado. Diego caía à esquerda, Vinicius entrava na área. Everton Ribeiro abria passagem para os avanços de Rodinei pela direita, sempre convidado pela marcação muito fraca de Romário. Henrique Dourado finalizou uma vez após cruzamento, Paquetá mandou o chute de longe defendido com dificuldade por Everson e, em seguida, obrigou o goleiro de novo a trabalhar em uma cobrança de falta. O camisa 11 vestia o papel de meio-campista moderno como manda a cartilha. Marca bem, cria e finaliza. Onipresente.

Com um funcionamento tão bom da movimentação da equipe, natural que todos os jogadores tivessem maior facilidade para se destacar. Cuellar, bem mesmo nas horas difíceis, conseguiu sobrar em campo mais uma vez. Desarma na boa e chega junto quando necessário. Capricha no desarme e no passe. No primeiro gol resumiu sua atuação. Deu o bote em Juninho e tocou em Dourado. Recebeu de volta e, embora o camisa 19 pedisse a bola no pé de novo, ele enxergou Vinicius Junior ocupar o lugar do centroavante, como uma flecha. A enfiada de bola foi precisa e o toque do garoto, inteligente. Rápido, sobre o goleiro. No fundo da rede. 1 a 0. O menino brincou. E o Flamengo, com boa atuação, fez o seu papel no primeiro tempo.

Na volta do intervalo, o Flamengo logo cometeu seu único erro grave defensivo do jogo. Rever saiu para o bote em Felipe Azevedo e deixou Arthur, livre, receber e penetrar pelo meio, concluindo na cara de Diego Alves, para fora. Seria, de fato, a única chance do Ceará de mudar o caminho do jogo. Pois o Flamengo, de novo, fez o simples. Movimentação, Paquetá ainda mais recuado, Diego mais avançado, toques rápidos, passes verticais, chutes de fora. No segundo gol, um resumo de tudo. Vinicius puxou a bola ao meio, Diego entrou na área. O chute saiu forte e Everson espalmou. No rebote, Rodinei recebeu na direita e rolou para Paquetá, aproximando. Sem pensar pela segunda vez, o camisa 11 devolveu com carinho ao camisa 2 nas costas de Romário. O cruzamento saiu forte e Vinicius, livre mesmo diante de três defensores na pequena área, completou para o gol. 2 a 0.

Um gol de encher os olhos dos rubro-negros e aniquiliar as esperanças cearenses. Marcelo Chamusca tentou mexer na partida com três substituições, desfazendo os três zagueiros e liberando o time ainda mais, em um 4-2-3-1. Continuou a sofrer. Minutos depois, Diego recebeu de Rodinei na área e acabou desarmado por Everson, que mandou a escanteio. Na cobrança, Rodinei na cabeça de Paquetá, que desviou para a cabeça de Diego, fulminante, rumo ao gol. E aí o simples encontrou a momentânea redenção. Agredido na ida para Fortaleza no aeroporto, Diego não reagiu. Esperava-se, então, uma reação de desabafo. Até houve. Sem rancor, mágoa, xingamentos. Com classe. De forma inteligente, o camisa 10 virou o jogo para si. Disparou como um moleque rumo aos amigos após um gol na pelada da rua. Subiu as escadas e abraçou a torcida. Se marketing ou não, apenas o meia poderia confirmar. Mas fato que em um momento extremamente delicado Diego soube trazer os holofotes para si de forma positiva. O Flamengo, com o fôlego preso desde o jogo contra o Santa Fé no meio de semana, enfim respirava. Oxigenava.

Barbieri passou a fazer as substituições e poupar pernas para o meio de semana. Cuellar, soberbo, deu lugar a Jonas. Henrique Dourado, sacrificando o seu estilo a favor de um time mais móvel, saiu para a entrada de Lincoln. Diego centralizou um pouco, Paquetá recuou mais à esquerda e fixou mais, assumindo de vez a função de volante, distribuindo o jogo com categoria até ser substituído, no fim, por Jean Lucas. Um 4-2-3-1. Com 53% de posse de bola, o Flamengo finalizou 17 vezes no jogo, com sete no alvo. Trocou 379 passes e teve incríveis 19 desarmes certos. Com maior mobilidade, trocando posições, entendo melhor seu funcionamento, o time teve 20 cruzamentos mesmo diante do ferrolho cearense no primeiro tempo. Ao ajustar o coletivo, o Flamengo possibilitou que cada jogador rendesse melhor.

Haverá, claro, quem bata no peito e acredite, mesmo, que a agressividade no aeroporto despertou o time para boa atuação que o fez, sete anos depois, assumir uma vez mais a liderança do Campeonato Brasileiro. É apenas uma muleta de quem tem a visão limitada ao jogo. O Flamengo voltou a correr, como já tinha corrido em outros jogos. Mas enfim organizado, sem espaços, com jogadores alternando posições e assumindo funções que berravam de tão necessárias. Paquetá retornando para distribuir o jogo, Diego mais próximo da área, Vinicius Junior como finalizador – chegou aos oito gols na temporada, artilheiro da equipe –  e com físico para preencher o lado esquerdo mesmo na defesa. Mesmo aos 17 anos, tem potencial para contribuir bem mais do que o negociado Everton. Não houve fórmula mágica. O Flamengo encontrou o seu grande futebol recorrendo ao simples. Muitas vezes é o que basta para assentar a poeira.

O Flamengo encontrou o seu grande futebol recorrendo ao simples. Muitas vezes é o que basta para assentar a poeira.



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