Flamengo mostra sua evolução diante de um tímido Inter

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Rubro-negros saíram do Maracanã com sorrisos de orelha a orelha. Abraços foram dados em desconhecidos. Gols comemorados à exaustão. O Flamengo é o líder do Campeonato Brasileiro. O que isso significa após meras quatro rodadas? Em termos de disputa de título, não muito. Claro que é precoce. Mas a vitória de 2 a 0 sobre o Internacional em um Maracanã abarrotado demonstrou uma evolução do Flamengo. De todo o Flamengo. Dentro de campo, um time mais ajustado, parecendo revigorado desde que desceu ao inferno antes do confronto com o Ceará. Fora de campo, uma diretoria mais sintonizada com o desejo de sua gente: reduziu o preço dos ingressos e fez do Maracanã um mar rubro-negro capaz de ajustar a sintonia com a equipe. Evolução.

É cedo. Mas também é visível. São três boas partidas em sequência. Um Flamengo que ainda busca se entender, ajustar. 4-1-4-1 ou 4-2-3-1? De um a outro. Os dois no mesmo jogo. Um novo velho esquema. Pois Mauricio Barbieri preferiu adequar a equipe inicialmente ao 4-2-3-1. Quem faz a função de segundo volante, no entanto, é o diferencial. Em vez de Willian Arão, que corre e infiltra, Lucas Paquetá, quase alinhado a Cuellar, que acelera, segura e distribui passes com visão privilegiada do jogo. Rege o time. O Flamengo melhora assim. Pressiona a saída de bola rival, tenta se impôr, controlar o jogo. Conseguiu no Maracanã, quando teve quase 60% de posse no primeiro tempo. E a postura do Inter ajudou. Em um 4-1-4-1, o time de Odair Hellmann foi ao Rio para impedir o Flamengo de jogar apenas. Não tentou, ele, arriscar, tomar a iniciativa de um contra-ataque. Apenas se a ele fosse oferecido. A ideia era bloquear espaços somente. Deu certo por pouco tempo.

Leo Duarte em Flamengo x Internacional - Foto: Gilvan de Souza
Durante 20 minutos, o Inter teve fôlego. D’Alessandro, pela direita, buscava fazer o vaivém e trocar com Pottker, do outro lado. Patrick, por vezes, também caía à esquerda, quando Pottker avançava para ajudar Leandro Damião. Mas, na prática, o Flamengo não tinha muitas dificuldades em conter o Inter. A bola passava pelos pés rubro-negros na maior parte do tempo. O time pressionava, dificultava a saída de bola colorada, girava a bola, de um lado ao outro. Mas havia dois problemas: primeiro, a impaciência. Depois de dois jogos usando pouco o velho artíficio, o abuso de cruzamentos voltou. Foram 30, segundo o Footstats, em toda a partida.

E o segundo foi o posicionamento de Paquetá. De novo onipresente, o garoto ficou mais postado à direita. Auxiliava Cuellar no início do jogo, mais ao cair mais à direita ocupava por vezes a mesma faixa de Everton Ribeiro e Geuvânio. Do outro lado, Vinicius Junior, mais solitário, encontrava dificuldades com a marcação mais pesada e ausência de apoio de Renê. Quando a bola chegou ao lado esquerdo, o lateral por vezes travou na intermediária, deixando o garoto sozinho com Fabiano, Moledo e até Gabriel Dias. Três contra um. Por mais que se livrasse de um, Vinicius Junior já encarava a sobra mais severa. Com o corpo de um garoto de 17 anos, difícil levar o tranco e seguir. O Flamengo era melhor, mais bem posicionado. Evolução. Mas futebol tem daquelas. As duas melhores chances foram gaúchas.

Duas cabeças de Leandro Damião paradas por Diego Alves. A primeira em um cruzamento de Fabiano pela direita, sempre um tormento a Renê ao subir constantemente, e outro de Pottker pela esquerda. O Flamengo tinha presença de área com Henrique Dourado, mas arriscava pouco. A bola não chegava a ele limpa. Em uma única chance, quando Rodinei passou pela esquerda, o atacante escorou e quase marcou. Ainda assim, o Maracanã não cessava em pedidos por Guerrero, que aumentaram no intervalo. Era óbvia a sua entrada no segundo tempo. Mas Barbieri segurou por minutos. Antes, preferiu corrigir o posicionamento de Lucas Paquetá.

Logo no início do segundo tempo, as mudanças ficaram claras de lado a lado. Paquetá saiu da direita e foi mais à esquerda, onde atua melhor, sente-se mais à vontade e pode dialogar com Vinicius Junior. Fixado mais naquele setor, o desgaste físico é menor. O Inter tentou dar companhia a Damião no ataque, com o avanço de Pottker, em um 4-1-3-2. Mas ainda esperava o Flamengo. Dava coro ao time impulsionado pela arquibancada. Um erro fatal. Assim que Guerrero voltou ao campo após seis meses, na vaga de Dourado, o Maracanã explodiu. Energizou o time rubro-negro e o deixou mais à vontade para empurrar o Inter em seu campo. D’Alessandro permaneceu mais centralizado entre Patrick e Gabriel Dias. Mas já parecia cansado. Ao seu estilo, esbravejava, tentava pilhar os mais novos do time rival. Em vão. De cabeça em pé, Paquetá ditava o ritmo do Flamengo. Acionava Everton Ribeiro, tentava achar Vinicius, buscava Guerrero. Aí um parênteses.

Claro que o peruano é um jogador muito mais técnico do que Henrique Dourado. Mas são complementares. Um oferece o que outro não pode dar. Guerrero, como de hábito, saiu mais da área e deu sossego ao miolo de zaga colorado. Mas passou a perturbar Rodrigo Dourado, já amarelado, ao circular às suas costas. Por ali, passou a ajeitar bolas e servir os lados fazendo o pivô. Mas o time perdeu a presença de área de Dourado. Trata-se de uma opção de estilo. Cada uma pode se adaptar a um rival ou a um jogo específico. O Flamengo ganha opções, não uma disputa interna de “eu ou ele”. Um raciocínio que parece infantil.

Hellmann tentou aplicar velocidade no ataque para incomodar o Flamengo. Damião por Lucca. Não deu muito tempo. O time da casa rondava a área colorada, girava a bola de uma ponta a outra e com Guerrero trabalhava na entrada da área. O peruano cobrou dali uma falta perigosa. Minutos depois, Cuesta atropelou Paquetá em falta. O garoto mesmo cobrou na barreira. Na volta, ele ajeitou e bateu de novo. A bola triscou na defesa e morreu no fundo da rede de Danilo Fernandes. O placar, enfim, refletia o jogo. 1 a 0 em um Maracanã elétrico, em transe. Abraços em desconhecidos. Muletas jogadas ao alto. Aplausos. Time e torcida se abraçavam novamente, naquela sinergia irresistível de não admirar. Evolução.

Só então Odair Hellmann tentou liberar o seu Inter ao sacar Gabriel Dias e colocar Brenner, atacante. Lucca iria à esquerda e Pottker iria à direita, de novo em um 4-1-4-1. Mas o camisa 99 colorado colocou tudo a perder. D’Alessandro aí tem sua parcela. De tanto pilhar os garotos rubro-negros, deixou mesmo seu companheiro irritadiço. Pottker reclamou de um lateral com Renê e deu uma cabeçada em Vinicius Junior. Bem expulso em raro momento de lucidez e Luiz Flavio de Oliveira, com arbitragem totalmente contraditória e conivente com a cera gaúcha existente desde o primeiro tempo. D’Alessandro, 37 anos, tentou tirar Paquetá, 20 anos, do eixo. Não conseguiu. Ali, naquele momento, uma espécie de passagem de bastão do tempo. O veterano, inconformado, apelava a velhas táticas. O novato, com o quê de deboche da nova geração, tapou os ouvidos e saiu andando. Ao rolar da bola, aplicou um chapeu no argentino que o deixou transtornado, berrando. O Inter estava descompensado.

Barbieri sentiu o bom momento e chamou a arquibancada. Tirou Geuvânio, esforçado, mas errante e alvo de fúria da arquibancada, e pôs Jean Lucas. Everton Ribeiro à direita. Paquetá mais à frente. O time se ajustou ao 4-1-4-1. Evolução. E passou a pressionar o Inter, em busca de um gol redentor. Na cobrança de escanteio, Guerrero achou Everton Ribeiro no contra-ataque. Vinicius passou serelepe à esquerda, nas costas de Fabiano. O camisa 7 ignorou e lembrou, ainda que de forma mais lenta, seus tempos de Cruzeiro, comprovando por que se sente melhor à direita. Levou a bola por ali e passou a corta para dentro, driblando dois e batendo no contrapé de Danilo Fernandes. 2 a 0 em uma festa apoteótica do Flamengo com sua gente. O primeiro momento da tentativa de resgate. Após dois jogos fora, o time jogou bem e se impôs em seus domínios.

Dez anos depois, o Flamengo volta a liderar um Campeonato Brasileiro no início de sua disputa. Em 2008, tinha na quarta rodada os mesmos dez pontos de 2018, mas perdia no saldo para o Cruzeiro. Na quinta rodada, chegou aos 13 pontos e inverteu as posições. Na época, em um clube ainda combalido, tudo era visto com desconfiança e surpresa. Dez anos depois, tudo é visto com alívio. O Flamengo se estruturou para lançar-se candidato ao título desde início. Por enquanto, indica que será. Em meio a tantas linhas tortas, em uma semana o Flamengo escreve um texto com caligrafia de dar gosto no início do Brasileiro. Talvez tenha se recuperado a tempo? Manterá o pique da remada? É cedo. Provavelmente haverá turbulências, Barbieri será posto a prova. Mas dentro e fora de campo, o Flamengo se ajusta. Joga bem, parece consciente em campo e fora dele ao convidar sua gente ao estádio a preços mais acessíveis. É, sem dúvidas, uma evolução.

O Flamengo se ajusta. Joga bem, parece consciente em campo e fora dele ao convidar sua gente ao estádio a preços mais acessíveis.

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