"Não voltei pela Seleção, mas pelo Flamengo", diz Diego Alves

GLOBO ESPORTE: Na isoloada posição em campo, Diego Alves muitas vezes é o mais participativo. Gesticula, orienta e tenta, principalmente, ajudar os mais novos. A versão atual do goleiro que chegou ano passado para ser titular e resolver um ''problema'' que havia na posição no Flamengo é autêntica. De personalidade forte em um futebol muitas vezes de discursos engessados, ele sai do lugar comum.

Em entrevista ao GloboEsporte.com antes do duelo diante do River Plate, nesta quarta-feira, Diego Alves falou sobre os principais temas desde sua chegada ao clube. O incômodo pela pressão de ''pegador de pênaltis'' na chegada, o drama do ex-companheiro Muralha visto de perto e o entendimento rápido quase que forçado da pressão que se vive dentro do Rubro-Negro.

Diego Alves, goleiro do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
Lembrou com tristeza a lesão que o tirou do que seria sua primeira final no clube. Mas não se arrepende de ter dividido a bola com o atacante do Junior de Barranquilla. Faria de novo.

Dificuldade de lesão e adaptação

Nunca estamos preparados para uma lesão. É um esporte de contato físico e sabemos que ela pode acontecer a qualquer momento. É claro que senti bastante. Foi num momento em que estávamos jogando por uma vaga na final (da Sul-Americana). Mas não me arrependo. Na jogada, lembro que caí no chão, e a primeira coisa que pensei foi que tivesse sido gol (risos). Aí me falaram que não foi. Então tá tranquilo (risos).

Já tinha tido uma lesão de recuperação mais longa na Europa e foi bem difícil. Acho que o fato de chegar com pressão e já ter que se adaptar e jogar foi mais difícil. Eu ficaria com a adaptação. A lesão não temos como controlar. Mas a adaptação, sem pré-temporada, vindo de um futebol europeu diferente, com uma responsabilidade enorme que é jogar no Flamengo, foi mais difícil. Mas me senti bem. Foi um início muito positivo.

Alex Muralha

Eu conhecia o Muralha desde a época que ele não tinha o apelido. Era o Alex, treinava no Olé Brasil com a mesma pessoa que me treinava. Eu vi o crescimente dele, o quanto ele ralou, foi para o Comercial, passou pelo Votorat, ele ralou mesmo. No Figueirense ele conseguiu o reconhecimento a nível nacional. Depois veio para o Flamengo, chegou à Seleção e depois sabemos o que aconteceu. Goleiro é uma posição de tranquilidade. Todos nós podemos passar por esses maus momentos. Houve esse período de irregularidade que fez que o torcedor e a imprensa cobrassem.

Acho normal nós sermos criticados pelo o que fazemos em campo. Mas daí chegar ao que aconteceu com o Muralha foi um passo adiante. Além do jogador tem a pessoa, tem o pai. Imagina nós irmos ao seu trabalho xingar vocês perto da sua família, perto de todos. São muitas coisas que acontecem. A gente vê tanta coisa que acontece no país com pessoas importantes. E essa pessoas talvez não passem pelo o que nós passamos quando estamos em um momento ruim dentro de campo, que é ser xingado, ameaçado de morte, ser agredido.

Eu vi uma falta de limite nessas críticas com o Alex. Ele vai seguir a vida dele, está no Japão, mas não tem que pegar no pé dele. Ele é um trabalhador normal. Quem somos nós para julgar uma pessoa. Ele aprendeu com essa situação, é um goleiro jovem e tenho certeza que um dia vai voltar para o Brasil e mostrar o goleiro que ele é.

Incômodo com fama de pegador de pênalti

Não foi um incômodo. Mas acho um pouco oportunista por parte de algumas pessoas. Sempre falei que pegar pênaltis é muito difícil. Com certeza vou sofrer mais gols do que defender pênaltis. Achei um pouco de oportunismo. Na primeira cobrança, no gol do Neilton, saí de campo e a imprensa perguntou muito porque não defendi. Você não pode desmerecer ninguém. Todo jogador tem qualidade para fazer um gol de pênalti. Foi o oportunismo que me incomodou. Não a situação de defender pênaltis, até porque convivo com isso por 15 anos.

Achei um oportunismo barato, chato, que incomodou porque tinha acabado de chegar. E me deparei com uma situação de que, o fato de não ter defendido um pênalti, virou uma coisa chata. Mas estou me acostumando. Uma hora a gente vai pegar, outra vamos tomar o gol. Pênalti é uma guerra psicológica, mas a chance de sair o gol é muito maior.As pessoas não pensam muito, mas o poder do microfone é muito forte. Esse oportunismo é chatinho. Mas a gente que é veterano já está acostumado com isso.

Já pegou pênalti do Dourado?

(Risos) tem que ser igual a lutador. Você já viu algum lutador comentar sobre os treinos antes da luta? Tem que ficar tudo internamente. Temos hoje alguns dos melhores cobradores do mundo. Os números demonstram que o Henrique é um excelente cobrador de pênaltis, ótimo jogador. Ele tem nos ajudado bastante. É difícil você encontrar um jogador que cobre da maneira como ele bate, com a pressão que envolve o pênalti e ter esses números absurdos. Segredo de jogadores (risos).

Personalidade nas entrevistas

Cada jogador tem suas particularidades. Alguns são mais tímidos, outros encaram com mais naturalidade. Você fica tranquilo antes de uma entrevista? Não porque você não sabe o que será perguntado. Mas depende de cada um. O mesmo direito que vocês têm de fazer a pergunta, temos o direito de responder da forma que queremos e não da maneira que é levada a pergunta. Por isso pode ser que saia dessa mesmice. Tento responder da melhor maneira possível. Tento explicar da forma que acho correta. Não vou deixar todo mundo contente, mas... (risos).

Liderança em campo

Muita gente relaciona o goleiro a defesas. Hoje o futebol mudou. O goleiro participa com os pés, joga mais próximo das linhas defensivas, tem vários fatores. Quando alguém diz que você não participou muito e fez apenas uma defesa, eu estou cansado de quê (risos)?

O goleiro às vezes cansa mais mental que fisicamente. Eu vivo e participo muito do jogo. Independe de eu estar conversando com o time ou fazendo uma defesa.

Relação com Vinicius e Paquetá

Eu tento passar um pouco da minha experiência. Eu sei que às vezes a gente fica parecendo um pouco chato, sei como é a cabeça dos mais novos, eu já fui da idade deles. São meninos de muito potencial, tem que ter essa conversa. A gente tenta facilitar o trabalho deles, passando um pouco dessa experiência.

Paquetá é um menino que cresceu muito com o Rueda. O Vinicius também entrava nos jogos, menos que o Paquetá. É o ano de afirmação deles. O Vinicius está tendo agora mais oportunidades. É uma pena que já está a ponto de poder seguir a vida dele em outro clube. Mas enquanto estiverem aqui, nós, os veteranos, tentamos orientá-los porque são jogadores que podem decidir o jogo a qualquer momento. E a gente precisa deles concentrados e participativos. Tentamos sempre apoiar, se tiver que dar uma bronquinha, vamos dar. Mas sempre para o bem deles.

Se fosse o Vinicius...

Eu não posso entrar nisso. É uma coisa muito pessoal do Vinicius. O Real Madrid já comprou ele. É uma situação que ele tem que resolver com Flamengo e Real.

Momento no Flamengo

Acho que é um momento de regularidade não só meu, mas também do time. Não completei nem um ano no clube ainda. Acredito que ainda tenha bastante coisas positivas pela frente. Engraçado que esse período que fiquei sem tomar gol também aconteceu em outros clubes: no Almería e no Valencia. Fico feliz. Não sei se é ou não o meu melhor momento, mas fico feliz por ajudar meus companheiros. Sem eles, nada disso seria possível.

Chegada com pressão

Foi uma situação diferente. Sempre fiz pré-temporada quando cheguei a outros clubes. No Flamengo tive que chegar, treinar e jogar. Meu primeiro jogo foi contra o Corinthians. O fator adaptação depende de cada jogador, mas eu me senti muito bem desde os primeiros dias. Os jogadores me deixaram muito à vontade. Encontrei um grupo muito bom, um dos melhores que trabalhei. Acredito que o crescimento é normal ao longo do tempo.

Era um momento conturbado, eu sabia da pressão sobre os goleiros. Mas a minha vida sempre foi assim, baseada na responsabilidade. E eu sabia que estava preparado para esse tipo de pressão. Já vivi situações que fizeram com que eu me acostumasse com essa pressão. Sabia que a posição de goleiro é de confiança. E isso você não conquista de uma hora para outra. Tenho muito tempo pela frente para mostrar e conquistar essa confiança de todos. Vou trabalhar para isso. Espero corresponder à altura

Tamanho da pressão no Flamengo

Não surpreendeu porque eu já conhecia o Flamengo. O Flamengo é uma marca que todo mundo conhece, são mais de 40 milhões de torcedores. Não é qualquer clube que tem essa dimensão, essa torcida, essa marca, essa responsabilidade. A pressão vem junto. Saí muito cedo do Brasil, fiquei 10 anos na Europa e me senti preparado e confiante. No ano passado, eu não pude jogar a Copa do Brasil, mas chegamos às finais da Copa do Brasil e da Sul-Americana.

Também classificamos para a Libertadores. Claro que não conseguimos controlar externamente. Mas pessoalmente vi que é um clube que consegue ganhar um título Carioca, consegue chegar a duas finais. Por mais que não sejamos campeões, é uma marca importante. É claro que um clube vive de títulos, nós queremos isso. Mas acho que nesses seis meses no ano passado, chegar a duas finais não é uma coisa tão ruim.

Não conseguimos chegar nesse ano no Carioca, mas já conseguimos algumas marcas, que não foram atingidas em um passado recente. Sabemos da capacidade de cada um. Os resultados vão aparecer com o trabalho.

Esperança de ir à Copa

Nunca coloquei como objetivo principal ir à Copa na minha vinda ao Flamengo. Queria vir pelo Flamengo. É lógico que os resultados em campo fazem você chegar à Seleção. Tive a oportunidade de chegar à Seleção jogando por Atlético-MG, Almería e Valencia. É claro que poderia ir com o Flamengo. E por que não? Tenho tempo ainda. Não para o Mundial, mas a Seleção continua. É claro que você sonha com a Copa, até porque disputei Mundial sub-20 e Olimpíadas. Seria bonito fechar com o Mundial. Mas sempre coloquei o Flamengo em primeiro lugar.

Não voltei para o Brasil por causa da seleção brasileira. Até porque na Europa eu vinha sendo convocado. Vim porque o Flamengo é um clube hoje estruturado, uma das potências do país. É um clube que sempre atraiu os jogadores. Mas não só a minha chegada, como as chegadas do Diego e do Éverton Ribeiro, mostram que o clube está tomando as medidas certas para crescer e render o tanto que a torcida quer.

Volta ao Brasil

Está sendo boa. É uma situação que eu não sabia como seria. Minha esposa e meus filhos moraram 10 anos na Europa. Mas a adaptação foi ótima. Minha família está muito feliz. Isso dá tranquilidade para jogarmos futebol.

Partida contra o River

Um jogo difícil. Os dois times querem a primeira colocação do grupo, até pela vantagem de jogar o jogo de volta nas oitavas em casa. Não temos alguns jogadores importantes por causa de lesões e cartões. É uma oportunidade para quem entrar mostrar que tem potencial de jogar pelo Flamengo. O futebol não tem idade. Temos o caso do Vinicius Junior. É um jogo bastante interessante, e nosso pensamento é ganhar e conquistar essa vantagem nos jogos eliminatórios.

Ser capitão sem Réver e Juan

Isso é algo que não me importa muito. Nunca me interessou. É lógico que você ser o capitão do Flamengo é algo positivo, todos os jogadores têm esse sonho. Tenho jogadores muito experientes como Juan e Réver que são líderes a sua maneira. Eu realmente não tenho essa preocupação. Independentemente de usar a faixa, eu sou essa pessoa que se comunica muito em campo, vocês já conhecem. Dificilmente vou perder isso.

Diego Alves fora de campo

Sou bem tranquilo. Passei 10 anos na Europa e lá se vive muito em família. Não tem muito essa de concentração, às vezes você viaja no mesmo dia. O período dentro de casa é maior. Aqui no Brasil o calendário é mais apertado, as viagens mais longas. Às vezes ficamos um pouco cansados. Mas nesse tempo livre tento curtir minha família. Às vezes vejo meus filhos uma ou duas vezes por semana. Muita gente não sabe desse lado do jogador. É bem difícil. No período livre tento estar sempre com eles, com a minha esposa e com os meus familiares. A gente tenta adaptar esse tempo.

Julio Cesar

Já tinha convivido com ele na Seleção. Não um longo período, mas em convocações. É um cara que todos conhecem, extrovertido, chega em qualquer ambiente e é adorado em pouco tempo. Essa vinda foi muito boa para ele, para nós e para os goleiros mais novos. Eu brincava com ele: "Você é velhinho, eu não" (risos). Sempre tivemos essa brincadeira sadia. No último dia, ele nos reuniu e emocionado falou que foi um grupo de goleiros que ele se identificou muito. Hoje é um amigo. Tenho certeza que quando ele voltar para o Brasil, irá lá nos encher o saco (risos).

O que mais te importa no futebol?

Ganhar, ser vencedor. Tive a possibilidade de jogar na Europa contra o Barcelona em seu melhor momento. Acompanhava muito as entrevistas do Guardiola. Se você não tem ambição de ganhar e se acomoda após uma vitória, você não tem esse objetivo de ganhar. Então tento passar isso. Por mais que a gente esteja fazendo um bom trabalho, temos que melhorar a cada jogo. Chegar é fácil. Se manter que é difícil.

De personalidade forte em um futebol muitas vezes de discursos engessados, ele sai do lugar comum.



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