O Flamengo ainda está em construção

CHUTE CRUZADO: A sequência é boa. Impossível dizer que não. Seis jogos sem sofrer gols, atuações consistentes e uma trégua com a arquibancada. Boa. Mas não o suficiente para dizer que o Flamengo navega com céu de brigadeiro em 2018. Não. Após a retomada na ótima apresentação diante do Ceará, o time acumulou mais algumas boas atuações. Mas a classificação no empate sem gols com a Ponte Preta no Maracanã chegou em um tom abaixo. Menos empolgação do que nos outros jogos. Com um time mais cansado pela sequência, verdade. A notícia, no entanto, não é ruim. Só deixou evidente o necessário para pôr os pés no chão: o Flamengo é um time em construção.

Há uma ideia tramada de forma mais encorpada por Mauricio Barbieri desde a partida contra o Ceará. Passa por Lucas Paquetá iniciando o jogo ao lado de Cuellar para dar mais fluidez à equipe. É um time que alterna do 4-2-3-1 ao 4-1-4-1 de acordo com o posicionamento do garoto. Aos 20 anos, o camisa 11 é referência neste Flamengo que revive. Assim como em jogos mais recentes, ele iniciou o jogo no Maracanã mais como um volante, levando à primeira opção por esquema. Everton Ribeiro seria o jogador centralizado, mas por cacoete ele cai mais à direita, encostando em Geuvânio. O faixa à frente da grande área rival fica, por vezes, desabitada. É um trabalho a consertar. A Ponte Preta foi inteligente. Tinha também uma ideia específica para esse jogo. Fechar-se e dificultar a entrada do Flamengo pelo meio, justamente com os avanços de Paquetá. Conseguiu sucesso na maior parte.

Jean Lucas e Vinicius Júnior em Flamengo x Ponte Preta - Foto: Gilvan de Souza
Em um 4-1-4-1, o time de Doriva se protegia com André Castro à frente de zagueiros e laterais. Colado ao zagueiro, um outro bloco de quatro jogadores. Ao contrário do primeiro tempo contra o Internacional, quando rendeu pouco e embolou pelo lado direito, Paquetá esteve do lado esquerdo, onde se sente mais à vontade. Ao recuar para iniciar o jogo era acompanhado por Paulinho. Já em seu cangote. Não podia girar e correr o risco de entregar a bola ao rival. Optava pelo passe para trás aos zagueiros, que rodavam o jogo aos lados. A marcação paulista era eficiente. Vinicius e Geuvânio abriam pelos lados na tentativa de carregar rivais junto e espaçar a Ponte Preta. Não ocorreu. O Flamengo, então, teve dificuldades, apesar de ter a posse de bola por quase 70% do tempo.

Um cenário parecido com o que ocorreu diante do Internacional, no domingo. O Flamengo tenta impôr seu jogo, valorizar a posse. Fatalmente encontrará rivais fechados. Deve criar ideias para superá-los. Girar a bola é uma delas. Movimentar os jogadores pelo meio é outra. Mas três dias depois do duro confronto com o Internacional, após uma sequência de viagens por Brasil e América do Sul, o time apresentou cansaço. Instintivamente, a falta de fôlego exigia o desacelerar do passe, sem tanta troca de posições. Everton Ribeiro mostrava grande capacidade, ao retornar quase junto a Rodinei e buscar abrir espaços. Os garotos rubro-negros, geralmente elétricos, sentiam. Paquetá avançava menos, Vinicius errava lances fáceis, como domínio de bola. Mas ainda assim deles vieram as maiores chances da primeira etapa: um chute de longe de Paquetá defendido por Ivan e uma finalização rasteira de Vinicius, próximo ao gol, após cruzamento de Renê. Não era bom, mas tampouco era ruim.

A classificação ainda estava debaixo do braço no segundo tempo graças ao placar do primeiro jogo. Mas apenas um gol separava a Ponte Preta da disputa de pênaltis. Era evidente que o time ficaria mais solto, buscaria o gol redentor. Com sete minutos, Doriva confirmou. Sacou o amarelado Juninho, que vigiava bem Paquetá, para pôr Tiago Real. Saiu do 4-1-4-1 a um 4-2-3-1. Em menos de dez minutos, Barbieri deu a resposta: tirou Henrique Dourado e Geuvânio, nada efetivos, para pôr Geuvânio e Jean Lucas. Paquetá, sem um marcador para chamar de seu, avançou alguns passos, deixando Cuellar sozinho à frente da defesa. Um 4-1-4-1. E o time começou a se movimentar atrás de Guerrero. Everton Ribeiro e Paquetá trocavam lugar entre o meio e a direita. Jean Lucas aparecia na esquerda e por dentro, alternando com Vincius Junior. Até que o time se aquietou mais com Ribeiro pela direita, Jean Lucas, Paquetá e Vinicius. Não era ruim a ideia. Mas faltavam pernas.

Guerrero, por exemplo, não conseguiu arrematar lindo passe de Jean Lucas porque a inatividade de seis meses permitiu a Reynaldo chegar inteiro à sua frente e desarmá-lo. Paquetá já rateava, diminuía o ritmo. O time espaçou. Passou a dar brechas a uma Ponte sedenta justamente pelo contra-ataque, principalmente pelos lados, com Junior Silva e Aaron. Felippe Cardoso voltava para fazer bem o pivô e preparar a jogada para os pontas. O jogo estava tenso. E a arquibancada chamava a atenção. Não por vaias. Não houve praticamente nenhuma durante o jogo, apenas resmungos a Geuvânio e Dourado na escalação. Em um Maracanã abarrotado e pulsante, a liga que deu efeito no período entre 2007 e 2009 parece ser aos poucos reconstruídas. A todo momento a sinergia campo e arquibancada era observada. Um reencontro do Flamengo com sua gente. É notável.

A rigor, apenas um lance quase calou a massa de 55 mil torcedores. Um veloz contra-ataque paulista e uma tabela entre Junior Santos e Felippe Cardoso que deixou o camisa 9 na área, ganhando na corrida de Rever, pronto para finalizar. O chute cruzado saiu rasteiro, traiçoiero e beijou o pé da trave direita de Diego Alves. Mas quando a fase é boa para quem é atacado, diz a lenda, rebote volta na mão do goleiro. E voltou. Ainda assim, o Flamengo atacava. Everton Ribeiro fez minutos depois a sua jogada característica. Puxou para dentro e tocou para a ultrapassagem de Jean Lucas à direita. Um rolar para trás encontraria Marlos Moreno, substituto de Vinicius Junior. Mas a batida forte, reta, explodiu na zaga. O empate sem gols estava zelado. Mesmo em uma atuação mais fraca, abaixo do tom deste período de recuperação, o Flamengo avançou. Importantíssimo.

O clube tem a certeza de que continua vivo em um mata-mata após a disputa da Copa. Agora, vai viver o dilema de quem disputa em várias frentes: tentar defender a liderança do Brasileiro contra a Chapecoense, fora de casa, com titulares ou poupar alguns deles para o confronto decisivo na Libertadores, quarta-feira, contra o Emelec, no Maracanã. A primeira opção é mais do que necessária. Mauricio Barbieri terá um desafio pela frente: mesclar forças, dosar energias e tornar não o time, mas o elenco competitivo. Há peças para isso. Foram 65% de posse, cinco finalizações no gol e 474 passes trocados, segundo o Footstats, nesta quinta-feira, no Maracanã. Atuação que apresentou o caráter da irregularidade a um time que ainda tenta se entender ao olhar no espelho. Há erros a consertar, posicionamentos a acertar. No panorama geral da sequência dos jogos, não foi ruim. Deve, mesmo, ser desta maneira. Necessário para pôr os pés no chão e entender: é um Flamengo com um caminho, mas em plena construção.

Necessário para pôr os pés no chão e entender: é um Flamengo com um caminho, mas em plena construção.

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