Para o Flamengo, os números não interessam

REPÚBLICA PAZ E AMOR: JORGE MURTINHO

Vou logo avisando: vai ser um post aborrecido, abarrotado de datas e números. O motivo é que vi um monte de gente querendo dar a River Plate e Flamengo uma dimensão que a partida não tem – ainda bem –, e achei que era o caso de usar o democrático espaço republicano para contra-argumentar.

Aviso feito, bola pra frente. Tenham paciência.

Um dos personagens principais da vida recente da Libertadores da América é o argentino Juan Román Riquelme, talentoso meia do Boca Juniors que levantou a taça por três vezes, em 2000, 2001 e 2007. Em 2012, para desdenhar o fato de o Boca ter passado às oitavas em segundo lugar no seu grupo, Riquelme disse a frase que ficou famosa: “A Libertadores começa agora”.

Foto: Buda Mendes/Getty Images
É relativa e discutível a importância de se terminar em primeiro para decidir em casa – razão alardeada por jornalistas e torcedores para pôr fogo no jogo da próxima quarta-feira, mesmo que para isso demonstrem desprezo pelo histórico da competição. Não se trata de estatística, como aquela que valorizava o número de passes certos de Márcio Araújo, ignorando que ele os dava invariavelmente para trás. Aqui, não: bem mais do que de números, tratam-se de fatos. Melhor: de uma desmistificação.

Se pegarmos as dezessete Libertadores disputadas no século XXI, notaremos que a vantagem obtida por ser o rola grossa da primeira fase dificilmente se transforma em título. Na descrição abaixo, o item “pontuação” identifica o clube que conseguiu o maior número de pontos na fase de grupos, carregando o direito de disputar a segunda partida dos mata-matas sempre em casa. Vejamos.

2001: pontuação, Vasco; campeão, Boca Juniors.

2002: pontuação, América do México; campeão, Olimpia.

2003: pontuação, Corinthians; campeão, Boca Juniors.

2004: pontuação, Santos; campeão, Once Caldas.

2005: pontuação, River Plate; campeão, São Paulo.

2006: pontuação, Vélez Sarsfield; campeão, Internacional.

2007: pontuação, Santos; campeão, Boca Juniors. (O Flamengo terminou em primeiro lugar no seu grupo e foi eliminado nas oitavas de final, no Maracanã, pelo fraquíssimo Defensor Sporting do Uruguai.)

2008: pontuação, Fluminense e Flamengo; campeão, LDU. (Terminando novamente em primeiro lugar no seu grupo, o Flamengo foi eliminado nas oitavas de final, no Maracanã, pelo América do México.)

2009: pontuação, Grêmio; campeão, Estudiantes.

2010: pontuação, Corinthians; campeão, Internacional.

2011: pontuação, Cruzeiro; campeão, Santos. (A decisão reuniu dois clubes – Santos e Peñarol – que tinham se classificado em segundo lugar em seus grupos.)

2012: pontuação, Fluminense; campeão, Corinthians. (O Boca Juniors chegou à final depois de decidir todos os mata-matas – contra Unión Espanõla, Fluminense e Universidad de Chile – fora de casa. No último, contra o Corinthians, finalmente perdeu.)

2013: pontuação, Atlético Mineiro; campeão, Atlético Mineiro.

2014: pontuação, Vélez Sarsfield; campeão, San Lorenzo. Curiosidade: a final foi disputada pelos dois piores clubes da fase de grupos. Ambos com oito pontos, o San Lorenzo ficou em 15º lugar e o Nacional do Paraguai em 16º. Para chegar à final, decidiram todos os mata-matas fora de casa. A registrar, ainda, que não dá para levar a sério um torneio em que um dos artilheiros foi o paraguaio Julio dos Santos, que jogou durante dois anos e meio no Vasco sem fazer um gol sequer.

2015: pontuação, Boca Juniors, com nada menos de seis vitórias; campeão, River Plate – por ironia, o maior rival do Boca e que passara à fase seguinte com apenas sete pontos e na condição de último dos dezesseis classificados. Os dois se enfrentaram nas oitavas: o River venceu o jogo de ida, em casa, por um a zero; na partida de volta, depois de zero a zero no primeiro tempo, alguns iluminados da torcida do Boca tiveram a genial ideia de atirar gás de pimenta nos adversários. O jogo foi suspenso e o Boca eliminado. O River fez a segunda partida da final em casa, contra o Tigres, devido ao estranho regulamento que, provavelmente escrito por Donald Trump, penalizava os times mexicanos pelo simples fato de que eram mexicanos.

2016: pontuação, Atlético Nacional; campeão, Atlético Nacional.

2017: pontuação, Atlético Mineiro, Lanús, Grêmio, River Plate e Palmeiras; campeão, Grêmio.

Portanto, em apenas duas das dezessete últimas competições – Atlético Mineiro em 2013 e Atlético Nacional em 2016 –, o time com o maior número de pontos na fase de grupos levou o título. Se quisermos incluir o Grêmio de 2017 nessa lista, apesar de ter disputado a segunda partida da decisão fora de casa, o número sobe para três e continua sendo muito pequeno.

Outras informações interessantes:

● Neste século, o Flamengo passou três vezes da fase de grupos. Nas duas ocasiões em que decidiu as oitavas em casa, em 2007 e 2008, caiu. Quando o segundo jogo foi fora, em 2010, eliminou o Corinthians no Pacaembu e seguiu. Mais: na Copa Sul-Americana do ano passado, fizemos a segunda partida das semifinais fora de casa e passamos; fizemos a segunda da finalíssima no Maraca e morremos. Mata-mata com ida e volta tem uma receita clássica: ganhar como mandante e empatar como visitante. Isso é o que importa, e jogar a primeira ou a segunda em casa me parece irrelevante.

● Somente nesta década, temos catorze situações em que clubes brasileiros dançaram nos mata-matas, mesmo decidindo em seus campos. Em 2011, Internacional e Cruzeiro foram eliminados por Peñarol e Once Caldas. Em 2012, Fluminense pelo Boca Juniors. Em 2013, Corinthians e Palmeiras por Boca Juniors e Tijuana. Em 2014, Grêmio e Cruzeiro pelo San Lorenzo, Atlético Mineiro pelo Atlético Nacional. Em 2015, Corinthians e Cruzeiro por Guarani e River Plate. Em 2016, Corinthians pelo Nacional de Montevidéu. Em 2017, Palmeiras e Santos pelo Barcelona, Atlético Mineiro pelo Jorge Wilstermann.

● O outro lado da moeda: em seis das últimas sete decisões, o campeão disputou o segundo jogo em casa. Ou seja, o momento em que a vantagem se manifesta pra valer é na finalíssima, só que até chegar lá muita água tem de rolar.

Por mim, não daríamos a menor bola para essa partida com o River, guardaríamos os caras que vêm resolvendo (Everton Ribeiro, Lucas Paquetá, Vinicius Júnior) para o encrespado jogo de sábado que vem com o Atlético Mineiro – se não é imprescindível ser o líder do Brasileiro quando houver a parada para a Copa, convém estar entre os primeiros – e dedicaríamos à Libertadores a mesma soberba e a aparente naturalidade com que os argentinos a encaram. O que certamente não explica tudo, mas talvez seja uma das razões dos 24 títulos que eles têm, contra os 18 dos nossos clubes.

Invertendo a expressão e indo de oitenta a oito, comecei com Riquelme e encerro com Everton Silva, para uma lembrança grata a todos nós. Era o ano de 2009 e a partida com o São Paulo no Maracanã, pela vigésima nona rodada do Brasileiro, transformara-se no clássico exemplo de vencer ou vencer. Perdíamos por um a zero, quando Jorge Wagner fez pênalti em Toró. Petkovic bateu, Rogério Ceni defendeu e o juiz Wilton Pereira Sampaio mandou repetir a cobrança, pois Rogério se adiantara. O lateral Everton Silva, que substituía Léo Moura, encostou no gringo e deu uma breve aula de autoajuda: “Ô pai, você é nosso ídolo, e não é um pênalti que vai tirar isso de você. Fod*-se o pênalti.” Confiança revigorada, Pet meteu uma cavadinha, surpreendeu Rogério Ceni e empatou o jogo. Quinze minutos depois, Petkovic enfiou uma bola na medida para Zé Roberto, que tocou cruzado e fez dois a um. Começava a arrancada.

Por mim, não daríamos a menor bola para essa partida com o River, guardaríamos os caras que vêm resolvendo.



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