Um time reserva não sustenta

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

À primeira vista, a opção de Mauricio Barbieri pareceu perfeitamente compreensível. Havia desgaste de vários jogadores depois do jogo contra a Ponte Preta. Em três dias, o Flamengo vai receber o Emelec em casa para tentar afastar de vez a possibilidade de repetir o vexame de 2017 na Libertadores. É um peso significativo no ambiente do clube. Por isso, a escalação de reservas para encarar a Chapecoense foi encarada até com certa naturalidade no líder do campeonato. Mas um pacote de atuações individuais ruins trouxe ao time não só a perda da invencibilidade. A derrota de 3 a 2 na Arena Condá alertou: o Brasileiro não perdoa trocas em baciada, ainda que o elenco seja um dos mais fortes do país. Lição para a sequência do ano.

A combinação de desentrosamento e falta de ritmo de alguns jogadores pesou demais no coletivo. Até o goleiro, por exemplo, foi trocado. Diego Alves deu lugar a César, até então com 360 minutos em quatro jogos na temporada, o último contra o Boavista, na final da Taça Guanabara, em 18 de fevereiro. Três meses atrás. Barbieri arriscou. Porém, foi mal ao tentar enxergar a Chapecoense. A grande aposta do time desde 2017 é o avanço contínuo e agressivo de Apodi pelo lado direito. Na esquerda da defesa, o técnico rubro-negro apostou em Trauco na lateral e Marlos Moreno avançado. Juntos, somavam pouco mais de 300 minutos na temporada. Some a isso a conhecida deficiência do lateral peruano na defesa e seu retorno ao time após dois meses não poderia ser mais inapropriado. Em um 4-2-3-1, Jean Lucas permanecia mais à direita, Jonas centralizado à frente da defesa e a dupla de laterais, Pará e Rodinei, discreta.

Chapecoense x Flamengo - Foto: Staff Images
A Chapecoense, claro, adorou. Montada em um 4-3-3, com três volantes de origem no meio – Amaral, Márcio Araújo e Canteros – impediu os avanços do Flamengo na faixa central à base da pancada nos minutos iniciais. Seguidas faltas, várias violentas. Seria apenas o início de mais uma arbitragem calamitosa de Leandro Vuaden, há anos confundindo faltas com a máxima de “deixar o jogo correr”. A estratégia forçava o Flamengo a buscar mais o jogo pelos lados: ou sea, os laterais deveriam subir, principalmente Trauco. Foi um convite ao time catarinense. Guilherme, arisco e driblador, trocou com Arthur e foi para a direita, auxiliar Apodi. Bruno Pacheco, lateral-esquerdo, segurava a passada e trancava qualquer investida de Rodinei. O Flamengo não conseguiu andar. Não se encontrava. E dava espaços. Muitos. Era um jogo óbvio e que causou espanto a dificuldade do time rubro-negro em conter o perigo, mesmo com todo desentrosamento, logo no início.

O gol seria desenhado em qualquer pensata antes da partida: Guilherme e Canteros avançaram tocando em cima de Trauco, enquanto Apodi corria às costas do lateral para receber. O cruzamento rasteiro encontrou o volante argentino pronto para finalizar, sem que Jonas ou algum zagueiro o incomodasse. 1 a 0. Tonto, o Flamengo começou a cometer erros fáceis. César constantemente dava passes errados ao tentar sair com os jogadores de linha, provocando a marcação na saída de bola ainda mais intensa pela Chapecoense. Jonas, sem a qualidade de Cuellar, comprometia demais nesse setor. Os erros, então, se acumulariam: sem Paquetá, Diego de novo tentou voltar a antes do meio de campo para iniciar o jogo.

E cometeu os mesmos pecados: mantém demais a posse, não lança ao lateral que ultrapassa, gira demais e permite ao time rival se organizar defensivamente com facilidade. Guerrero, isolado, dependia dos lançamentos de Trauco. Gesticulava, brigava. Frustrado. O placar parcial de 1 a 0, então, foi até mesmo bem-vindo para o Flamengo. A alta quantidade de bolas que Trauco recebia nas costas, tendo de lutar quase sozinho contra três – Canteros, Guilherme e, principalmente, Apodi – proporcionaram inúmeros cruzamentos. O intervalo foi uma bênção a um time tão desentrosado quanto frágil diante de um adversário em máse fase – sem vitórias há seis jogos.

No segundo tempo, Barbieri encaixou melhor o time. Pareceu direcionar a equipe a um 4-1-4-1, com Jean Lucas trocando com Diego, da direita para a esquerda, auxiliando Trauco. Jonas também passou a vigiar mais o setor. O trio da Chapecoense sentiu a dificuldade de penetrar com a facilidade da primeira etapa e reduziu. Assim, Trauco se sentiu mais à vontade para avançar. Se tem inúmeras deficências na marcação, tem também várias facilidades ao atacar. Seus passes e lançamentos são importantes, com qualidade diferenciada no cenário nacional. Não à toa se destaca com assistências nos jogos. É um lateral que busca mais o jogo pelo meio em vez da linha de fundo. Gosta de aproximação para tabelas e entende muito bem Guerrero. Com três minutos, a dupla lembrou o porquê de ter feito tanto pelo time em 2017. Trauco cobrou falta com precisão aguçada no segundo pau, enxergando a entrada de Guerrero. Jandrei, indeciso, saiu mal e o atacante pareceu querer tocar de cabeça para o centro, mas a bola pegou efeito e entrou. 1 a 1.

O gol de empate empolgou o Flamengo, que passo a empurrar a Chapecoense para seu campo. A nova estratégia de Barbieri parecia ter surtido efeito: conteve o problema do lado esquerdo e permitia ao Flamengo sair jogando com um pouco mais de qualidade. Os zagueiros tentavam ir até o meio e achar rapidamente os meias. Mas com confiança até demais. Juan errou a saída de bola e Guilherme disparou até a entrada da área. Vuaden, mais uma vez, entrou em ação ao ver o atacante da Chapecoense desistir da jogada e reclamar um pênalti. Foi atendido prontamente, sem nenhum sentido. O próprio Guilherme cobrou bem e pôs a Chape de novo à frente. 2 a 1.

Imediatamente, Barbieri e Gilson Kleina tentaram adequar seus times ao placar. Jean Lucas saiu para a entrada de Vinicius Junior, com Marlos Moreno se deslocando à direita, por dentro. Kleina liberou Apodi de vez ao ataque, colocando Eduardo na lateral e sacando Guilherme. Toda força a Apodi, na expectativa de um Flamengo mais adiantado do que o devido em busca do gol de empate. Ocorre que o Flamengo, enfim, parecia ter aprendido a proteger Trauco e liberá-lo para atuar quase como um meia, sempre buscando por dentro. Dali chutou bola perigosa que Jandrei defendeu bem e, em seguida, levantou bola no pé de Vinicius Junior quase na pequena área. O garoto completou e empatou o jogo. Era um Flamengo, ainda que menos organizado do que em jogos anteriores, superior muito graças à maior qualidade técnica. Entre erros e acertos. Um ponto que deveria ser valorizado diante das circunstâncias: amenizava o erro de arbitragem, a escalação de reservas e manteria a liderança isolada em pontos.

Barbieri, porém, preferiu o jogo franco. Buscar a vitória. A Chapecoense, também. Henrique Dourado entrou na vaga de Pará, Rodinei retornou à lateral e Guerrero assumiu um pouco do lado esquerdo. Em seguida, Marlos Moreno deu lugar a Cuellar. O time pareceu se readequar ao 4-2-3-1, com Cuellar e Jonas na proteção à defesa, mas maior qualidade na saída de bola. Diego, no entanto, recebia a bola na faixa central e continuava a retardar o jogo. Seus giros são bem mais lentos do que as boas limpadas de lance que dava em 2016. Rodinei, algumas vezes, se apresentou para pressionar Bruno Pacheco e o camisa 10 travou a bola, girando e permitindo à Chape se fechar pelo meio para buscar o contra-ataque pelos lados. Tornava a ideia de um Flamengo trocando passes rapidamente para envolver a Chapecoense quase inviável.

Nesse jogo franco, o time rubro-negro não teve, nos minutos finais, a maturidade para entender que o ponto conquistado até então era muito importante. O empate seria razoável. A derrota, muito ruim. Aoss 45 minutos, Eduardo recebeu bola na direita e não foi combatido por Cuellar, ao seu lado. A bola viajou até a área e o Flamengo, de novo, desabou com erros individuais: Léo Duarte errou o tempo de bola, como tem sido costumeiro, e permitiu a antecipação de Leandro Pereira. César quase não esboçou reação, nem mesmo para tentar abafar a bola, que morreu no fundo da rede, decretando a derrota e deixando lições para o Flamengo, ainda líder do Brasileiro graças ao saldo de gols.

Ainda que a arbitragem tenha, pela segunda vez em cinco rodadas, prejudicado o time, a apresentação da equipe foi abaixo. Uma leitura ruim do rival durante todo o primeiro tempo expôs deficiências e comprometeu a partida. Após seis jogos sem sofrer gols, o time acabou vazado por três vezes em uma só partida. Era, sim, uma opção arriscada. César, Juan, Jonas, Marlos Moreno, Diego e Trauco – ainda que tenha contribuído com duas assistências – estiveram abaixo. Um pacote de atuações individuais que fez o conjunto ruir. Sim, o Flamengo avançou na Copa do Brasil, é líder do Brasileiro e está a uma vitória da vaga na Libertadores. Mas o recado foi claro: ainda que para padrões nacionais o elenco seja forte há deficiências. Zagueiros, laterais. Não há sustentação na briga pelo título com uma troca de baciada.

Sim, o Flamengo avançou na Copa do Brasil, é líder do Brasileiro e está a uma vitória da vaga na Libertadores.

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