Atmosfera de liderança

CHUTE CRUZADO: Publicado por Pedro Henrique Torre

Consolidar-se na liderança de um campeonato tão disputado quanto o Brasileiro requer a junção de vários fatores. Acertos táticos, técnicos, alta competitividade, sintonia com a arquibancada e ação nos bastidores para evitar a influência negativa do apito. Se ainda peca no último item, o Flamengo de Mauricio Barbieri mostra que aos poucos encaixa as peças necessárias. Claramente encorpa um ou outro elemento a cada rodada e assim cria a atmosfera favorável que permite a manutenção da liderança. Há, óbvios ajustes a fazer, mas a vitória de 2 a 0 sobre o Bahia em um Maracanã cheio indica um Flamengo em um trilho mais estável.

Diego beijando o escudo do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
É um mérito para o jovem técnico. Em tempos idos, o Flamengo encontraria grandes dificuldades para se impôr diante de um rival reconhecidamente inferior, mesmo em seus domínios. Ainda que num Maracanã fundamentalmente rubro-negro, o Flamengo se trajou inexplicavelmente de branco, num daqueles arroubos recentes e comuns contra a própria identidade. Mas se impôs desde o início. De novo no 4-1-4-1, o time não abriu mão da ideia de ter em suas mãos – ou pés – o controle de toda a partida. Fundamental para manter o apoio da arquibancada em um tom só: o de apoio, pulsando sem resmungos por um ou outro passe errado. Um Flamengo que, no todo, deseja vencer. Com Jonas em substituição a Cuellar – vetado pela Fifa – e uma trinca de meias ao lado de Vinicius, o jogo rubro-negro fluiu bem. Intensa movimentação, troca grande entre Diego, Paquetá e Everton Ribeiro. Aí um dado importante: o Flamengo atual precisa de ótima capacidade física para impôr o seu jogo.

Diante do Atlético-MG, o time contava apenas três dias desde a viagem até Buenos Aires, no embate com o River Plate. De sábado até quinta-feira, o elenco teve quase cinco dias para respirar, colocar as pernas em dia e executar com precisão tudo que era pedido. Descansado, passou a jogar no campo do rival, trocando passes, girando a bola, acelerando quando necessário. Sem afobação, calmo, com uma maturidade rara em equipes recentes do clube. Confiança de quem parecia ter a certeza que o gol sairia. A vitória chegaria. Mas não seria, claro, fácil.

O Bahia de Guto Ferreira é um bom time. Atropelou o Vasco por vezes na Fonte Nova com um ritmo forte, também muita movimentação e fatal nos ataques. No 4-2-3-1, o Tricolor de Aço optou por não ter referência alguma na área. Vinicius e Elber alternavam entre a direita e o centro do ataque, tentando confundir a marcação rubro-negra. Zé Rafael, mais à esquerda, buscava as costas de Rodinei, enquanto Régis, solto mais ao centro, era bem acompanhado pela firme marcação de Jonas. O camisa 14 do Flamengo, aliás, estava em boa tarde: nada atabalhoado, firme nos combates e, se não tem a mesma qualidade de passe de Cuellar, também comprometeu menos, ao sair com bons lançamentos para os pontas. E finalizava. Foi dele um chute na entrada da área, logo depois de uma pancada de Paquetá, que acordou o Maracanã. O Bahia sentiu. E se desorganizou. Espaçou-se.

Não era um time totalmente retraído. Mais defensivo do que na Fonte Nova, mas que tentava, sim, sair ao jogo, acelerar pelos lados. Mas acabou empurrado por um Flamengo que era envolvente e tinha mais de 70% de posse de bola. Paquetá e, algumas vezes, Diego retornavam para iniciar o jogo. Desta vez, sem prejudicar o andamento. O camisa 10 teve uma atuação como há muito não se via. Acelerava a saída com toques rápidos. Mostrou agilidade não vista desde antes de sua lesão contra o Atlético-PR, na Libertadores, em 2017. Parecia leve. E caiu muito pela esquerda, próximo à área. Com Vinicius Junior, seu jogo cresce. Tem sempre opção de passe. Bastava a Diego ter a bola e olhar, nada de cadência. Enfiada de bola a Vinicius, que disparava nas costas de João Pedro, solitário sem tanta ajuda de Elber pelo lado direito. Faltava ao Flamengo ser incisivo. Um passe agudo, em direção ao gol.

Tudo para aproveitar espaços deixado pelo Bahia. Em mais um bom jogo defensivo, Renê aos poucos parece mais à vontade para arriscar visitas ao ataque. Neste sentido, tem característica similar a Trauco: ataca mais por dentro do que por fora, não busca a linha de fundo. Mas em vez de cruzamentos do peruano, tem mais o passe pelo chão, de acordo com este Flamengo. Com campo para jogar, ele avançou por dentro, jogou em Diego, recebeu de volta e retribuiu, de novo, ao camisa 10. O meia tentou dominar a bola, mas ela escapou. Um toque sem querer que foi fatal para matar a linha de defesa do Bahia e até o goleiro Anderson. Parado, ele assistiu Diego acertar a passada e bater para o gol vazio. 1 a 0. A atomosfera da liderança instaurada no Maracanã.

Com o Bahia ainda atônito e cedendo espaços com volantes tão descolados de zagueiros, o Flamengo aproveitou. Por vezes até exagerou. Paquetá deu dribles desnecessários, Diego cruzou bola na frente da área, Everton Ribeiro tentou lances de efeito com o calcanhar. Mas logo em seguida o time voltou ao chão. Havia um jogo a jogar, uma liderança a defender. Renê lançou Vinicius Junior no contra-ataque. Ele dominou e cruzou para Dourado. O centroavante dominou e viu a aproximação de Paquetá, que ajeitou para Renê e disparou nas costas de Tiago. Ao receber, o toque por cima de pura classe determinou o Maracanã em êxtase. 2 a 0. Assim como no gol contra o Vasco, um girar da bola de um lado ao outro, por baixo, sem alar bolas. Um detalhe de um Flamengo que encorpa.

Na segunda etapa, Guto Ferreira soltou o Bahia. Liberou ainda mais os avanços de João Pedro para auxiliar Elber pela direita. E o Flamengo apresentou alguns defeitos. De posicionamento e postura, ao mesmo tempo. Com 2 a 0 favorável no placar, o time rubro-negro tentou responder o ímpeto da torcida com o avanço em campo. Bolas esticadas, jogadas individuais de Vinicius Junior. Com isso, se expôs de maneira desnecessária a contra-ataques perigosos. Mas houve porém: Jonas passou mal no intervalo e foi substituído por Romulo. Sem ritmo e com pegada menor do que o companheiro, o Flamengo perdeu muito da segurança atrás de sua trinca de meias. Por ali, o Bahia avançou com Moisés e, posteriormente, Allione trocando com Zé Rafael. Houve espaço para o Bahia finalizar de longe e exigir de Diego Alves. O goleiro fez duas defesas salvadoras seguidas, em chutes de Rafael e Elber. A torcida comemorou como um gol. De maneira justificada. O Flamengo corria riscos desnecessários para quem se impôs tanto no primeiro tempo e abriu placar confortável.

A solução de Barbieri foi sacar Henrique Dourado, avançar Vinicius, jogar Paquetá à esquerda e colocar Jean Lucas em campo. Ganhar força pelo meio e evitar o jogo do Bahia por ali, onde Romulo era menos eficaz na marcação do que Jonas. O jogo esfriou, mas terminou com 17 finalizações do Bahia na meta rubro-negra: sete no alvo, de acordo com o Footstats. Um exagero em um confronto com 58% de posse do Flamengo que cruzou apenas oito bolas na partida, trabalhando claramente pelo chão. Descansado, o Flamengo voltou a apresentar um bom futebol. Respirou, vibrou, organizou. Comandou. Mantém a ponta da tabela e terá pela frente, nos quatro jogos antes da parada da Copa, ainda três confrontos decisivos para mostrar ao que veio: Corinthians, Fluminense e Palmeiras. Aos poucos, o Flamengo encorpa. Vê a técnica de jogadores como Paquetá, Diego, Vinicius e Diego Alves florescer. Organiza-se. Cria uma atmosfera de liderança.

Aos poucos, o Flamengo encorpa. Vê a técnica de jogadores como Paquetá, Diego, Vinicius e Diego Alves florescer.



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