Flamengo transforma êxtase no Maracanã em rotina

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Se há um mérito fácil de apontar no trabalho de Mauricio Barbieri é a sua capacidade de, em pouco tempo, ter transformado o Flamengo em um time organizado e, principalmente, sólido. Observe a equipe em ação atualmente. Os jogadores se movimentam de forma sincronizada e os passes saem de forma natural. Pressiona logo para ter a posse e comandar o jogo. Tem esse desejo. E, com isso, permite à defesa ser resistente. Intransponível nos últimos cinco jogos. Com esse pacote, o Flamengo criou uma atmosfera no Maracanã que o levou não só à liderança folgada do Brasileiro. Uma vez mais com o estádio pulsante, o Flamengo venceu o Paraná por 2 a 0, abriu mais um ponto no topo. Deixar o Maracanã em êxtase é rotina.

Uma experiência difícil de assimilar por meio de imagens em tvs, por melhor qualidade que tenham. O percorrer dos olhos na arquibancada no frescor pós-gol encontra garotas, mulheres, garotos e homens feitos, até senhores, olhando ao horizonte, mãos ao céu. Acompanhados por sorriso largo, escancarado. Não é apenas satisfação de ver o Flamengo líder. É testemunhá-lo líder com boas atuações. Consistente. Sólido. Isso mesmo diante de mudanças. Se não teve Diego, suspenso, no Fla-Flu, dessa vez Barbieri não contou com Paquetá, pelo mesmo motivo. Há quase uma hierarquia já estabelecida. No 4-1-4-1, Jean Lucas assumiu o lugar do camisa 11 ao lado de Diego, com Everton Ribeiro e Vinicius Junior por fora. Saiu Rhodolfo, lesionado? Entra o garoto Thuler ao lado de Léo Duarte. Um time que, de tão sólido, já faz a torcida escalá-lo de cor.

Diego vibrando com gol pelo Flamengo - Foto: Alexandre Loureiro/Getty Images
A dúvida seria sobre o rival. Chegaria o Paraná ao Maracanã disposto a duelar de peito aberto com o Flamengo líder diante de sua gente? Ou, prudente, entraria fechado para esperar o contra-ataque? Inicialmente, Rogério Micale preferiu a primeira opção. Pareceu indicar um 4-2-3-1, com Serginho e Léo Itaperuna pelos lados, Caio Henrique encostando em Carlos. O Flamengo não sentiu. Manteve a posse e, gradativamente, passou a empurrar o Paraná ao campo defensivo com sua característica. O girar da bola, de um lado ao outro, esperando uma melhor brecha. Um tipo de jogo que a arquibancada já parece entender. Não há irritação com a farta troca de passes. Falam, já, a mesma língua, time e torcida. Lua de mel rara no universo rubro-negro.

Ocorre que a troca forçada de Paquetá por Jean Lucas mantinha o Flamengo com o bom toque de bola, mas sem ser tão incisivo. O primeiro é elétrico, onipresente, busca passes agudos, sempre verticais, tentando encontrar um adversário no gol. Jean Lucas carrega mais a bola, toca ao lado e, por vezes, procura infiltrar. Tornou o time um pouco mais lento, até por forçar Diego a retornar mais para o auxiliar o início do jogo. A movimentação entre os meio-campistas, porém, era grande como sempre. Com essa imposição rubro-negra, o Paraná passou a se encolher, indicando um 4-1-4-1. E mantinha o olho em Vinicius: tentou reduzir espaços do garoto. Assim que ele punha os pés na bola, dois ou três jogadores, principalmente Junior, encostavam para reduzir seu campo de ação, a velocidade, o drible fácil. A saída rubro-negra foi inteligente: tocar mais rápido para embaralhar a organização paranista e abrir brechas pelo meio. Mas sempre pressionado a saída rival.

Desta forma, chegou ao gol. Diego abafou a saída e a sobra caiu nos pés de Vinicius Junior. O drible falhou, mas a estourada da defesa foi em Jean Lucas e caiu de novo nos pés da revelação rubro-negra. Com 17 anos, ele já causa temor aos adversários. Três deles se juntaram para manter a estratégia de limitar o seu espaço. Ao fazer isso, o Paraná abriu brechas. Renê e Diego ficaram sozinhos. O lateral avançou, recebeu a bola e rolou para Diego, rápido no drible para ser derrubado sem piedade pelo zagueiro. Na cobrança do camisa 10, o Maracanã recheado de luzes na arquibancada viu a bola bater na barreira antes de vencer Thiago Rodrigues, goleiro do Paraná. 1 a 0 que deixou o Maracanã, de novo, em um tom só.

A vantagem fez não só o Maracanã pulsar, mas o Paraná encolher ainda mais. O Flamengo manteve a calma na troca de passes, mas por instantes mudou de estratégia. Como o time de Micale geralmente marcava bem desde a intermediária de seu campo, concentrando seu esforços em anular Vinicius pela esquerda, o time passou a tramar o jogo pela direita. Interessante: era por ali, com Serginho e Igor, que o Paraná tinha as saídas mais rápidas para o ataque. Por ali, inclusive, Carlos deu chute perigoso rente ao travessão de Diego Alves. Ao acionar mais Everton Ribeiro, com apoio de Jean Lucas e as ultrapassagens de Rodinei, o Paraná ficou ainda mais tímido, resignado com o caráter defensivo que deveria ter para manter o jogo ainda aceso no segundo tempo. De fato, a equipe de Micale conseguiu limitar o número de finalizações do mandante. Foram quatro, apenas um no alvo, a do gol, na primeira etapa. Muita posse, poucas chances reais.

Era, no entanto, um Flamengo imponente. Estava bem claro de que o Paraná teria dificuldades para duelar com o time rubro-negro. A dupla de zaga, Thuler e Léo Duarte, cumpria mais uma ótima apresentação. Por vezes avançavam além da linha do meio de campo. Mas, velozes, conseguiam recuperar rapidamente a posição com o auxílio de Cuellar, uma vez mais um soberbo em desarmes nos contra-ataques rivais. Micale tentou duas vezes soltar mais a equipe. No intervalo sacou Johnny Lucas, volante, e colocou Carlos Eduardo, contratado como astro no Flamengo de 2013. Queria mais posse e criatividade. Depois, sacou Serginho, mais velocista, por Thiago Santos, de maior presença de área. A opção era cruel de uma maneira: postar-se mais à frente significava dar mais campo ao Flamengo para jogar. Espaços, justamente o que tentara reduzir na primeira etapa. Barbieri entendeu o recado. Precisava de mais velocidade para manter o embalo do Maracanã, pulsante. Um time de acordo com a arquibancada. Que, ainda assim, destoou por alguns segundos.

Tão logo Jean Lucas, já amarelado, cometeu falta em frente à área, Barbieri chamou Willian Arão. As vaias chegaram em peso. Ao mesmo tempo, chamou Felipe Vizeu, ovacionado. Uma ótima sacada: deixou a arquibancada na dúvida sobre o comportamento a seguir e a indecisão dissipou a insatisfação. Ainda com o controle do jogo, o Flamengo passou a girar a bola como antes. Mas agora com a diferença: Arão infiltra com muito mais velocidade do que Jean Lucas. Ideal para Everton Ribeiro. Adaptado e mais solto, o camisa 7 fez ótima partida. Dribla por instinto, costura as jogadas por dentro e sabe achar espaços com posicionamento ou o passe. Parece conhecer cada metro do Maracanã, o tempo a dar ao jogo. Ao receber a bola, ele enxergou Arão passando como um raio pela direita. O passe açucarado se transformou em um cruzamento fatal, nos pés de Vizeu na pequena área. 2 a 0.

Um jogo liquidado. A solidez atual deste Flamengo permite raciocinar assim. Dificilmente dá brechas. É firme. A pressão na saída rival continua mesmo com vantagem. Talvez por isso deixou um Maracanã entorpecido com a certeza de que a liderança seria rubro-negra ao menos até meados de julho. Pulsava. Vibrava. Gritava. Mas também angustiado pela incerteza de que sua grande promessa, com ares de realidade, poderia dar o seu adeus. O próprio time rubro-negro tentou tornar a partida uma possível despedida digna de Vinicius Junior do Maracanã. Na grande chance, em contra-ataque, duas certezas: Vinicius, com o peso de sua possível saída, teve noite discreta. Perdeu chance clara na frente do goleiro. Mas mesmo assim consegue ter momentos para ser diferente: o passe dado pelo alto para Everton Ribeiro completar um voleio em cima do goleiro seria daqueles lances de eternizar na memória do torcedor. Não foi possível.

Maduro, o Flamengo alcançou os 26 pontos na tabela em uma partida na qual trocou 562 passes e teve 58% de posse, de acordo com o Footstats. Um Flamengo calmo, paciente, mas que empolga. Sólido, o líder do Campeonato Brasileiro vive céu de brigadeiro com o qual sonhou por tanto tempo. Não é um voo de verão. É um time sólido, com ideias claras e capaz de se impor aos adversários. E, assim, tornar o êxtase da arquibancada uma rotina no Maracanã.

Não é um voo de verão. É um time sólido, com ideias claras e capaz de se impor aos adversários



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