Liderança com uma ideia na cabeça

CHUTE CRUZADO: por  Pedro Henrique Torre

A receita mais evidente para atravessar um longo campeonato de 38 rodadas e chegar à frente na tabela é manter a regularidade. O mínimo de oscilação possível para encarar os baques da competição. Necessário, então, ter um jogo amadurecido, uma ideia bem absorvida. Gera confiança a time, torcida e ao próprio técnico. Seria exagero dizer que o Flamengo está totalmente pronto. Mas não é nenhum pecado entender que a vitória de 2 a 0 no Fla-Flu de Brasília indicou que o líder do Campeonato Brasileiro está amadurecido. 17 passes trocados, girando de um lado ao outro, da defesa ao ataque, em 56 segundos geraram o segundo rubro-negro no palco. Um reflexo claro de um time que tem uma ideia na cabeça e sabe se adaptar a diversos contextos dentro de uma mesma partida. Mérito, em tão pouco tempo, de Mauricio Barbieri. O Fluminense não foi páreo para fazer frente ao rival.

Vinicius Júnior, do Flamengo - Foto: Staff Images
Um dos indícios de que o jogo está amadurecido é a capacidade de se adaptar a desfalques sem perder o nível de desempenho. Diego, melhor homem em campo contra o Corinthians, camisa 10, referência da equipe, estava fora, suspenso. Natural sentir falta de um jogador desta importância. Barbieri, então, adaptou com a entrada de mais um atacante, não um meia. Marlos Moreno, pela direita, com Everton Ribeiro deixando o lado para dialogar por dentro por Paquetá. Um 4-1-4-1 com cara de 4-3-3. A estratégia era clara diante do rival tricolor: esticar ao máximo Vinicius e Marlos pelos lados do campo e esgarçar a defesa do Fluminense. Abel Braga dava indícios de que entraria em campo num 3-6-1. Foi, na verdade, o 5-4-1 já utilizado com eficiência diante de rivais que têm a posse e gostam do jogo, Atlético-PR e Grêmio. Mas o Flamengo compreendeu melhor o rival histórico.

A leitura de Barbieri deu efeito nos minutos iniciais. Gilberto e Marlon se desgarravam para tentar dar combate em Vinicius e Marlon. Mas perdiam a passada. Abriam a defesa tricolor, gerando espaços. Pela direita da defesa tricolor, por exemplo, Renato Chaves teve de sair da área diversas vezes para caçar Vinicius Junior, enquanto Gilberto já tinha passado da bola e tinha de se preocupar com Renê. O resultado foi um massacre inicial rubro-negro: farta troca de passes, giro de jogo pelo meio e tentando aproveitar essa brecha entre os alas e os zagueiros, causando buracos. Assim o Flamengo era soberano em campo com o que tem de melhor. Pressão na saída de bola do adversário, farta troca passes e objetividade. Jogo pelo chão, não com cruzamentos. O Fluminense sentiu o golpe imediatamente. Pesavam, claro, os desfalques.

Pedro, lesionado, tem maior capacidade de reter a bola no ataque e busca o jogo com as ultrapassagens rápidas dos alas ou a chegada de Sornoza. João Carlos, não. A técnica lhe falta para segurar a posse, fazendo com o que o time, principalmente os volantes Douglas e Jadson, se ajustem para subir e auxiliar a saída rápida para o contra-ataque. A bola, então, batia e voltava aos pés rubro-negros, principalmente pela esquerda. Reside ali o garoto endiabrado, pronto para o drible, quase sempre decidido a rumar à área. Vinicius Junior tirava o sossego de Renato Chaves. Chamava o zagueiro para fora da área, ameaçava ir ao centro, buscava o fundo. Chegou a driblar João Carlos com extrema facilidade e cruzar bola rasteira que Léo Duarte quase completou. Levou ao centro e bateu forte, rasteira, para difícil defesa de Julio Cesar. Com 17 anos, já causa temor nos rivais. Era de se imaginar que o gol estava perto. Este Flamengo tem uma ideia. Este Flamengo busca muito o gol, com toques rápidos. Nada aleatório.

Para este tipo de jogo fluir é fundamental a movimentação. Com a defesa tricolor esgarçada, havia espaços. Vinicius cansou de cair ao centro. E levava com ele Renato Chaves, abrindo espaço ao mesmo tempo em dois lugares: pela esquerda e na área. Em uma tacada só, tudo que o Flamengo precisava para criar lance de perigo. Everton Ribeiro caiu pela esquerda e tabelou com Renê. Renato Chaves, preocupado com Vinicius, deu espaço pela direita da defesa tricolor e tampouco preencheu a área. Pois nestes dois setores a jogada do primeiro gol nasceu. Cruzamento de Everton Ribeiro da esquerda, Paquetá, sozinho entre Gum e Luan Peres, este junto de Dourado, cabeceou para outra ponta, onde Marlos Moreno ultrapassava Marlon até ser puxado no ombro. Pênalti cobrado por Henrique Dourado com sua única característica de craque. 1 a 0.

A vantagem rubro-negra deixou o Fluminense mais atordoado. Irritadiço. Renato Chaves chegava forte em Vinicius Junior. Richard fungava em Paquetá. A garotada rubro-negra também ficou irritadiça. Talentosa e com personalidade, decidiu responder na bola. Mas cometeu o pecado do exagero ao tentar menosprezar com os pés os rivais. Não há nada de errado no drible, recurso nobre do futebol. Mas há maneiras de executá-lo. Até como autopreservação. Expressões corporais nada objetivas que podem contribuir para elevar a temperatura de um jogo mais quente e pedir entradas mais fortes. O preço de uma lesão para um garoto tão jovem pode ser caro demais.

Paquetá recebeu na esquerda e chamou Gum a bailar. Pulou sobre a bola com os dois pés, girou de um lado ao outro. Levantou a arquibancada do Mané Garrincha como um toureiro chamando um animal ao baile. Era, claro, um deboche, reprovado pelos tricolores. Logo ele, Paquetá, dono de um estilo de dribles curtos, de futsal, com soluções rápidas pela objetividade. Vinicius Junior penteou a bola para trás, tocou de calcanhar. Ao se concentrar na vingança, os próprios garotos se desconcentram no jogo objetivo que fazia o Flamengo ser amplamente superior em campo. Com a temperatura elevada, Rodinei deu cotovelada desnecessária em João Carlos e teve sorte de não sofrer uma expulsão sem margem para contestação. Com a vantagem rubro-negra, o intervalo chegou para esfriar ânimos.

O bom trabalho no Brasileiro indica que Abel tem noção do que tme em mãos e percebe quando a estratégia dá errado. Naquele momento, o primeiro tempo tinha sido um desastre, proporcionado por Mauricio Barbieri. Resolveu, então, desfazer. Sacou Renato Chaves, lesionado e que embaralhava a defesa, e Sornoza, em péssima noite. Desfez o sistema de três zagueiros com Matheus Alessandro e Pablo Dyego, velocistas, pelos lados. Desejava evitar o jogo rubro-negro por ali e diminuir os espaços causados em sua defesa. Foi traído por mais uma artimanha do calendário: com dez minutos de um Fluminense mais presente no campo rubro-negro, Pablo Dyego sentiu lesão e acabou substituído por Robinho, mais driblador do que veloz. O Flamengo ficou à vontade. O Flamengo, amadurecido, tinha uma ideia.

Neste segundo tempo o time deu passos atrás e passou a travar o rival tricolor na intermediária. Baixou a rotação do jogo intencionalmente para atrair o rival e, ao recuperar a bola, trocar passes da direita à esquerda, mantendo a posse, cozinhando o jogo. Na prática, não era ameaçado por um Fluminense tão desfalcado quanto frágil. Quando enxergou o time perdeer vigor físico com Marlos Moreno, Barbieri pôs Jean Lucas em campo e devolveu Everton Ribeiro ao seu habitat. Dali do lado direito o camisa 7 sabe controlar o jogo. Cadencia e acelera. Fecha ao meio e abre espaço para os avanços de Rodinei. Minutos depois, tirou Dourado e pôs Vizeu. Mesmo motivo da troca contra o Corinthians: ter alguém com maior capacidade de pivô para tramar o jogo por dentro e, se possível, triangular pelos lados. Uma ideia. Uma feliz ideia. Sim, o Flamengo amadureceu.

Pois lá foi o Fluminense ao ataque. Em mais uma partida soberba, Léo Duarte tomou a frente de Jadson na zaga. E algo bem notável neste Flamengo: há pavor ao chutão. A bola deve ser tratada com carinho. Quase afeto. De pé em pé, suave. Dali, de dentro da área, para Renê, passando por Vinicius Junior, Jean Lucas, Thuler, de um lado ao outro. O Fluminense assista, se encolhia, recuava instintivamente ao não conseguir dar um bote sequer. A pelota chegou em Rodinei. Fosse o lateral de outro tempos, o cruzamento seria alçado na área sem grandes perspectivas. Neste lance, o mérito de Barbieri ficou evidente. Cercado por Marlon, o camisa 2 rubro-negro travou o cruzamento. Recolheu a pelota e a deixou, mansamente, correr para Everton Ribeiro. O camisa 7 decide o ritmo. Fingiu cadenciá-la. Num truque delicioso com a ginga do corpo, acelerou para direita. Trouxe Richard e tocou em Paquetá. Recebeu de volta no espaço vazio, um latifúndio para trabalhar. Espaços criados com o giro da bola. Com a troca de passes. Eram 16 até então. O 17º e último de Everton Ribeiro encontrou Vizeu. Ele ainda matou a bola, travou e bateu no fundo da rede. Uma ideia representada em 56 segundos. 2 a 0.

Não havia mais o que fazer ao Fluminense. Desfalcado, inicialmente dominado e depois traído com a ideia de que respirava no jogo. Na verdade, em momento algum ameaçou, de fato, o Flamengo. Foram oito finalizações rubro-negras no gol contra três tricolores, de acordo com o Footstats. E incríveis 23 desarmes do Flamengo. Quase metade – dez – apenas de Cuellar, de volta em grande estilo. Tem velocidade e técnica para ocupar espaços, marcar e trocar com Paquetá o início do jogo rubro-negro. O segundo apontou: o Flamengo não é líder com vantagem à toa. O time já gira a bola com plena consciência de onde cada jogador vai estar. Há uma ideia assimilada. Repetição de jogadores. Defesas mais consistente. Toques rápidos. Pelo chão. Nada pelo alto. Posse. Claro, o Flamengo não está mesmo pronto. Nem poderia, em tão pouco tempo da chegada do novo técnico que já fez dissipar a alcunha de interino. Não há tabela fácil com dez rodadas. Tampouco favorecimento de arbitragem. O Flamengo é líder do Campeonato Brasileiro porque, depois de muito tempo, amadureceu uma ideia.

O Flamengo é líder do Campeonato Brasileiro porque, depois de muito tempo, amadureceu uma ideia.


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