Um Flamengo em comunhão com a massa explode o Maracanã

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Seria injusto – até estúpido – indicar a um jogador de futebol que simplesmente ignore e coloque em segundo plano o sonho de jogar uma Copa do Mundo. Pois as fantasias que povoam a mente de qualquer guri que chute uma pelota numa rua, quadra ou campo incluem defender a sua seleção no torneio mais nobre futebol. É natural. É válido. É humano. Seria, portanto, até egoísmo recomendar que Diego deixasse a Seleção Brasileira de lado enquanto Tite, a cada entrevista, acalentava seu sonho. O ritmista. Indicava que, mesmo aos 33 anos e longe do auge, ele poderia realizá-lo. Não pode mais.

É daquelas incoerências que preenchem: Diego parece estar livre. Desfeito o sonho da convocação e sem as amarras necessárias para vivenciá-lo, voltou a jogar o que o Flamengo e sua massa esperam dele. Sob a batuta do camisa 10, 50 mil vozes empurraram o time rubro-negro em mais um daquelas tardes de fábula do Maracanã. 1 a 0, gol do garoto renegado Vizeu. Todos testemunhas da libertação de Diego. A camisa 10, enfim, corre solta pelo gramado. Livre.

Felipe Vizeu no Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
No processo de libertação é natural que o meia encare momentos com fúria. Que exploda, comande, agite, cobre. Esteja por vezes até acima do tom, pulsante. Estará fora do Fla-Flu, suspenso pelo terceiro cartão amarelo, justamente por isso. Mas era um jogo grande para o Flamengo: desdenhado por enfrentar, supostamente, adversários menos qualificados até então, tinha pela frente o atual campeão brasileiro. Com uma identidade, uma paciência, um jogo que se adapta de forma magistral a estes grandes momentos. Mauricio Barbieri encaixou uma maneira do seu Flamengo jogar. É o 4-1-4-1, com um volante à frente da defesa. Neste caso, Jonas, com Cuellar ainda impedido pela Federação Colombiana.

Mantém pegada e perde no passe. O que exige uma participação maior de Paquetá, um dos três meias, no iniciar do jogo. O interessante é ver como o Flamengo cresce. Como se entende melhor com o passar do jogos e quando têm fôlego em dia. Diego por dentro pela direita e esquerda. Paquetá por dentro, às vezes direita, às vezes esquerda. Quando tem fôlego, executa bem os movimentos e cada um parece entender onde está o companheiro. Vinicius Junior, à esquerda, é prova disso.

17 anos, vendido ao Real Madrid, enorme pressão nas costas. O garoto aos poucos vai encorpando como homem, ganhando músculos explosivos e movimentos mais fatais. Ali pela esquerda ele tinha vigília pela frente. Mas, acreditem, esse camisa 20 rubro-negro é um inferno. O sorriso escancarado cativa, o jeito malemolente de carregar a bola e partir rumo ao adversário levanta arquibancada. O Corinthians de Osmar Loss sabia: deveria marcar bem o garoto, tentar sufocá-lo. Inicialmente, o Corinthians indicou o seu 4-2-4, apenas com Gabriel e Maycon por dentro, Mateus Vital e Pedrinho mais à frente. Rodriguinho e Jadson soltos. Era essa a ideia. Mas logo viu que não seria possível. Elétrico, vibrante, com muita movimentação, o Flamengo tomou o jogo para si. Ditava o ritmo e contralava as ações. No Maracanã manda o preto e o vermelho. Mateus Vital e Pedrinho tiveram de recuar, formando na maior parte do tempo um 4-4-2.

Ainda assim, o Flamengo forçou o jogo pelo lado esquerdo. Mantuan, inseguro, tentava caçar Vinicius de todas as maneiras. Acompanhá-lo e empurrá-lo o mais próximo da linha lateral. Vinicius não deixava ser encontrado. Tentava o centro ou carregava à linha de fundo. Trocava com Diego e Paquetá. Mantuan o acompanhava e deixava um espaço em branco. Exigia, então, que Balbuena deixasse a área para fazer caça no setor vazio. Por ali, derrubou Paquetá e, na cobrança de falta de Diego, o próprio camisa 11 quase abriu o placar com um leve desvio. O Flamengo batia na casa dos 80% de posse de bola. Sim, o Corinthians sabe sofrer. Mas nem tanto. O perigo rondava. Mas, claro, o Flamengo não era perfeito.

Faltava ao time rubro-negro finalizar. Diego recebia a bola, acelerava, lançava Vinicius ou trocava passes com Paquetá. Mas o time arriscava pouco. Tem a característica de aproximar, tocar de pé em pé até ter a chance ideal de arrematar ao gol. Prejudica, claro, o jogo de Henrique Dourado. Foi uma partida ruim do camisa 19. O estilo mais pesado pede apenas o toque final. O time, mais técnico, pede quem saia da área e saiba dialogar com quem se aproxima. Com o bom rendimento da equipe, obviamente que outros dez jogadores não irão se adaptar ao atacante. Inseguro, Dourado falhou quando teve chance. Everton Ribeiro, pela esquerda, avançou e teve espaço para cruzar ao meio da área, de onde o Ceifador, da marca do pênalti, isolou. E fez crescer a tensão da arquibancada.

O Corithians, já sem Jadson, substituído com lesão muscular por Roger, passou a deixar mais o campo defensivo. O camisa 9 prendia mais a bola no ataque. E teve sorte: Jonas levou amarelo infantilmente ao chutar uma bola no adversário e, com isso, diminuiu a pegada na marcação. Hesitante com a possibilidade de ser mal interpretado pelo apito e receber o segundo amarelo, cercava mais do que buscava o contato direto pela roubada de bola. Pelo setor, Rodriguinho apareceu com mais espaço – faltava maior presença de ao menos dois dos três meias rubro-negros para auxiliar Jonas com mais frequência. Por dentro, o time paulista conseguiu dois arremates perigosos. O primeiro ainda com Jadson em campo, que passou rente à trave. O segundo com Gabriel, defendido por Diego Alves. Um intervalo que chegou com 70% de posse rubro-negra.

Dominante, o Flamengo precisava ser mais rompedor. Trabalhar mais pelo centro. Arrematar. Tarefa difícil. O Corinthians tem como ponto positivo o bloqueio justamente pelo meio. Mas o Flamengo tinha Diego. Esqueça o papo de ritmista, de quem enxerga o jogo e, com visão por trás, o cadencia, esperando as peças se encaixarem. Diego foi rompedor. Não foi raro vê-lo no segundo tempo elétrico, mais à esquerda, próximo à área, driblando um, dois, três. Lembrou um pouco o garoto que surgiu no Santos, ágil, suportando trombadas e servindo os companheiros que ultrapassavam pelos lados. Um Diego em fúria. Um Diego livre. O Diego que o Flamengo necessita. Na passada do camisa 10, o Maracanã pulsou. Apoiou o time incondicionalmente, lembrando o período entre 2007 e 2009. Comunhão a olhos vistos entre campo e arquibancada. “Mengo ôôô”. Num tom só.

É, até mesmo para um Corinthians acostumado às grandes massas, um ambiente nada convidativo. Com maior participação de Paquetá no combate por dentro, o Corinthians, já em um 4-2-3-1, reduziu as investidas no ataque. Ao paso que, pela direita, o time paulista exigiu de Pedrinho maior auxílio a Mantuan no combate a Vinicius Junior. Inteligentemente, o Flamengo inverteu a balança. Passou a acionar mais o lado direito. Por ali tinha segurança: Léo Duarte, em partida soberba, antecipava bem em Roger e Mateus Vital, liberando Rodinei para dar aproveitar o espaço deixado por Everton Ribeiro ao buscar o meio. Diego, batuta debaixo do braço, inclinou o jogo ao setor. O Flamengo, embalado, precisava de velocidade que Dourado não permitia. Ao errar um passe em contra-ataque fácil, deu permissão a Barbieri para sacá-lo por Felipe Vizeu.

Ainda que pareça mais pesado do que o ideal, Vizeu tem mais mobilidade do que o Ceifador. Sai da área, tentando ocupar a faixa entre zagueiros e volantes, um tormento para a marcação. Por ali, passou a fazer o pivô e acionar os lados. Fosse Vinicius ou Everton Ribeiro. O Flamengo chegava em bloco no campo ofensivo e também colaborava na marcação, desafogando Jonas, que cresceu. A equipe mostrou maturidade: rodava a bola de um lado a outro até achar espaços, recuando aos zagueiros, já no meio de campo, se necessário fosse. Paciência para superar o jogo mental tão bem executado pelo Corinthians há anos. Diego, raivoso, insistia no jogo por dentro. Foi derrubado por Gabriel e bateu próximo à trave de Walter. Faltava pouco. Faltava a redenção de Diego.

O gol nem foi dele. Mas a fúria de buscá-lo indicava um meia livre de ideias implesmente para agradar Tite e seus dogmas. Rhodolfo lançou da zaga à lateral esquerda. Diego dominou a bola e não a cadenciou. Dane-se o ritmista. Lembrou o guri de 16 anos do Santos. Moleque como Vinicius Junior. Puxou a bola e arrancou pelo meio, campo livre. Atraiu a atenção para si. Ao ser combatido, não travou a bola. Não girou o corpo. Serviu Paquetá pela direita. A chapada na bola foi bonita, a espalmada de Walter nem tanto. No rebote, Vizeu fez o Maracanã explodir, representar a sinergia da massa, completamente tomada pela sensação de alegria que percorria o Maracanã. Era quase palpável. Flamengo, líder absoluto do Brasileiro, na frente.

O Corinthians tentou suas cartadas com Marquinhos Gabriel e o esforçado Kazim nas vagas de Pedrinho e Gabriel. Jean Lucas substituiu Everton Ribeiro em um fim de jogo nervoso. Faltou bom senso de Anderson Daronco, em mais uma arbitragem incoerente, ao encerrar o jogo antes da conclusão da jogada corintiana na área rubro-negra. Talvez seja premiado com mais um grande jogo na próxima rodada. Mas, no fundo, o atual campeão brasileiro não conseguiu ter o controle de jogo que tanto preza. Foi envolvido por um rival mais organizado e por uma massa pulsante, em plena de lua de mel. Sim, o Flamengo derruba barreiras. Continua líder, supera desconfianças ao bater o Corinthians. Um jogo grande, de candidato a título. A Copa não é mais possível para Diego. Mas foi neste 3 de junho, líder, vibrante, combativo que o camisa 10 encontrou a liberdade para conquistar de vez o mundo…rubro-negro.

Foi neste 3 de junho, líder, vibrante, combativo que o camisa 10 encontrou a liberdade para conquistar de vez o mundo…rubro-negro.


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