Flamengo quer ser o maior celeiro de talentos do mundo

ESPN: Por Gabriela Moreira

O Flamengo quer ser o "maior celeiro de talentos do mundo", palavras do assessor da presidência para assuntos da base, Luís Gustavo Nogueira. Como estratégia, o clube aumentou o número de observadores atentos a novos jogadores. Em dois anos passou de três para 11 pessoas nessa função. São olheiros espalhados pelo Brasil com a missão de buscar jogadores promissores. O orçamento também aumentou, foi de R$ 12 milhões, para R$ 20 milhões em três anos. A venda de Vinicius Júnior por 45 milhões de euros colocou os meninos do Ninho do Urubu em outro patamar no mercado e provocou uma nova postura contratual no departamento que já tem jogadores, como Reinier, de apenas 16 anos, considerado o melhor jogador da geração 02, com multa fixada em 50 milhões de euros, valor que muitos jogadores do profissional não passam perto.

Veja os objetivos do rubro-negro para a base, em entrevista exclusiva com Luís Gustavo Nogueira:

Foto: Divulgação
Pergunta: Onde o Flamengo quer chegar com a base?

Resposta: O objetivo do Flamengo é que a gente seja a melhor base do Brasil. E aí é quase consequência que a gente seja a melhor base do mundo, porque o Brasil é o principal celeiro de talentos do mundo. E a gente não pode ficar satisfeito enquanto a gente não olhar seleções brasileiras no futuro, times do Flamengo no futuro e ter a certeza que a gente tem jogadores titulares de seleção, jogadores do Flamengo titulares em times grandes na Europa. Quando a gente olhar isso de modo recorrente, todo ano tem jogar que tá virando profissional e tá jogando em clube grande da Europa. Isso é um marco que é onde a gente quer chegar.

Se eu zagueiro, goleiro, volante. E o São Paulo, por exemplo, formar atacante, naturalmente o São Paulo vai vender mais, em valor, do que a gente, porque atacante vale mais do que outras posições.

Vocês estudaram algum clube para ter como referência para a base?

No Brasil, o modelo adotado pelo São Paulo, por ter sido bem sucedido, é uma referência. A gente já chegou no nível do São Paulo, mas quer se destacar mais. Há três anos a gente olhava muito pro São Paulo, mas acho que já estamos lá. Era um modelo por ter convocações para a seleção de base, atletas vendidos e sendo aproveitados no profissional... o São Paulo e, talvez, o Fluminense tenham sido os clubes que mais se destacaram nisso. O Palmeiras é um clube que está parecido com o Flamengo nesse sentido. A fase com a Crefisa permitiu que eles começassem a investir na base. As competições sub-16 para baixo, todas estão com Flamengo e Palmeiras e antes era o São Paulo e mais alguém.

Olhando para fora, a gente não tinha muito orçamento. Nossos funcionários, nossos diretores, não trocávamos muito com o "lá fora". Com a parceria com a Double Pass (empresa belga de consultoria para base) estamos buscando informações sobre como países como a Bélgica, a França estão trabalhando a base. Como eles pensam? Este é um trabalho que estamos fazendo.

Quando o Flamengo chega nesse patamar?

A geração 00 já é muito forte (cita Vinícius, Lincoln, Wesley, Wendel, Yuri), mas a geração 01 para baixo, a gente ainda tem um caminho, talvez em cinco anos. O que chega aqui é consequência do que garimpamos lá atrás, com sete, oito, nove, dez anos. Se eu não fui tão bom aqui, tenho que ir ao mercado e comprar jogador. É caro, a ideia não é essa. O que a gente tem praticado é um esforço muito grande de captação, com parcerias com times no Paraná (Trieste), no Ceará (CEU) e 11 observadores espalhados no Brasil. 

Qual o perfil e como é o trabalho desses observadores?

São pessoas que trabalham com futebol há anos, ex-auxiliares e ex-treinadores de times profissionais e de times sub-20. Um observador do Rio, por exemplo, já foi auxiliar do profissional do Flamengo. Outro, já foi auxiliar do sub-20. O nosso observador do Ceará era o treinador do Ceará na Copinha. São pessoas que trabalham exclusivamente para o Flamengo, no futebol. O clube custeia o transporte deles para os jogos, reembolsa as despesas e paga um salário fixo. Nós não pagamos comissão para observador, mas temos uma discussão aqui dentro sobre isso, no jurídico, se é acordo trabalhista, se não é. Há clubes que pagam. A gente não faz, mas pode ser que a gente venha a fazer.

Em que idade o Flamengo começa a captar jogadores? 

Nossa primeira categoria de base é com 6 anos, mas o grosso é entre 11 e 14 anos, falando em termos de Brasil. Porque pra gente alojar no Ninho só podemos a partir dos 14 anos (por lei). Não é um impeditivo antes disso, porque as famílias podem se mudar para o Rio e o Flamengo ajudar a custear isso, mas é mais comum o atleta de outro estado ficar em monitoramento, isto é, vir de tempos em tempos para o Rio, joga algumas competições conosco até chegar aos 14 anos e podermos alojar e contratar em definitivo.

A guinada da base veio quando?

Isso começa lá atrás. O Noval (Carlos Noval, atual diretor de futebol do profissional) chega no clube em 2010, na gestão da Patrícia Amorim. O pai dele tinha sido diretor do clube, ele conhecia as pessoas e assume a base junto do Carlos Brasil. O trabalho recomeçou, mesmo, em 2010. Isso veio ganhando orçamento a partir de 2013. O Vinícius estava aqui desde os 11 anos, agora tem 18, o Noval trouxe ele para o Flamengo. Com aquelas condições que o clube tinha, de Centro de Treinamento, sem orçamento para contratar na base, praticamente não tinha observador... o Flamengo tinha três observadores até três anos atrás (agora tem 11), foi algo para se dar parabéns.

E isso vai melhorando, estamos atraindo mais talentos. O Ramon (lateral-esquerdo), que jogou a Copinha e já jogou no profissional, veio do Nova Iguaçu tem um ano e meio. O Rodrigo Muniz (atacante) que vocês vão ouvir falar dele em breve, veio do Desportivo Brasil. Bruninho (meia), também veio do Desportivo Brasil. O Pedro Arthur (atacante) veio do Juventude, muito bom jogador também. Isso é algo novo, não tínhamos verba para isso, mas agora temos.

Quais estruturas foram melhoradas na base?

Além de aumentarmos o número de observadores (agora são 11), aumentamos as parcerias. São times de interior que indicam atletas pra gente. Os nossos observadores nessas regiões identificam os bons jogadores ali e trazem para o Flamengo. Nosso acordo é assim: se o clube achou um atleta, a gente traz para o Rio ou em monitoramento ou em definitivo e pagamos um percentual para o clube.

E o orçamento?

A gente saiu de um orçamento de mais ou menos R$ 11 milhões (em 2015). Em 2016, foi de R$ 12 milhões, R$ 13 milhões. Hoje em dia nosso orçamento está em R$ 20 milhões. Nesse total, tem verba de contratação, então não significa que a gente precise gastar tudo. Em geral, não gastamos tudo. Supondo que a gente traga o atleta com opção de compra, ou seja, ele fica emprestado aqui. Em alguns casos, temos de pagar um valor, R$ 50 mil, R$ 20 mil inicialmente e depois pagamos a diferença. Exemplo, adquirimos um atleta do com opção de comprá-lo por R$ 1 milhão, um jogador caro. O clube exigiu R$ 50 mil no empréstimo. Eu estimulo muito que a gente compre 10 jogadores desses de R$ 50 mil e um for muito bom e me der um retorno esportivo e a consequência ser uma venda que retorne ao clube, paguei todos os outros que errei.

O que eu quero dizer é o seguinte... é muito interessante eu tentar atrair jogadores de clubes menores. Lógico que temos critérios para fazer essas aquisições, não vamos sair rasgando dinheiro. Isso vale já para meninos de 8, 9, 10 anos.

Qual a política de percentual na base? Quanto o Flamengo tem como regra para os direitos econômicos dos jogadores?

O jogador é do Flamengo 100% na base até assinar o primeiro contrato profissional, a partir de 16 anos. Nessa negociação é que vão ser definidos os termos. O natural é os melhores jogadores, os empresários vão tentar melhorar o salário e maior participação, para a família e o acordo dele (empresário) com a família. Nossa política é maximizar o percentual que a gente vai ter do atleta, sempre. Dificilmente você vai ver o Flamengo com menos de 70% de um atleta, isso vai ficar entre 80% e 90%.

Só uma ressalva, se o jogador vem de parceiro temos um acordo com o clube e vamos ter um percentual menor, claro.

Qual o principal objetivo da base?

A prioridade é gerar jogadores que possam ser jogadores profissionais, de preferência, no Flamengo. Se não for aqui, que gere um retorno financeiro para o clube. Nosso papel social é que possam se formar jogadores e tenham vidas melhores, para si e suas famílias, claro. Mas esportivamente, que gerem um retorno para o clube. Vender é uma consequência do sucesso. O Flamengo hoje, dada toda a estrutura, tudo o que o clube fez nesse período a gente não é forçado a vender nenhum jogador. A gente só vende se pagarem a multa ou se a gente entender que faz sentido. Como a gente quer gerar cada vez com mais qualidade, eles vão ter cada vez mais valor, naturalmente.

A gente falou rápido do São Paulo... mas tem algo interessante. Você repara que nos últimos tempos o São Paulo consegue vender jogadores mais rapidamente, mais caro que os outros, volantes mais caros que todo mundo, porque está há muito tempo revelando. Eles já tem o label (rótulo) na Europa de revelar jogadores bons, taticamente são mais disciplinados, que se adaptam melhor.  Isso é consequência de um trabalho muito bom de formação e de criação de marca de clube formador.

Você pode ter certeza que a venda do Vinícius Júnior que era tido à época, ainda é, como o melhor jogador 2000 do mundo, o Renier, que é tido como o melhor 2002 do mundo... o Paquetá, o Lincoln, o Jean Lucas isso tudo somado. O Thuler, o Léo Duarte indo bem, o Michael que é um ótimo lateral esquerdo... você pode ter certeza que nos próximos anos a Europa vai olhar pro Flamengo de um outro jeito.

Como é a relação do clube com os empresários?

O Flamengo não direciona jogador para empresário nenhum. Eles fazem parte do meio, quer o clube queira ou não, ele é presente, ajuda as famílias e tem um papel importante. A  nossa preocupação é que o jogador não seja mal agenciado, que estejam adotando posturas e caminhos que claramente estejam indo contra o clube e contra o futuro do atleta. Se a gente percebe isso liga um alerta e tenta falar com a família. Isso acontece muito pouco no Flamengo e pra mim é um dos grandes méritos do Noval. Ele tem uma capacidade de ser próximo das pessoas, ser companheiro, é alguém que as famílias confiam muito. Ele cobra, dá bronca, mas construiu um ambiente maravilhoso na base.

O que é um empresário levar um atleta para o lado ruim?

Um atleta que a gente vê que tem grandes chances de chegar ao profissional e o empresário fica falando que o Flamengo não tá valorizando, que o clube está pagando pouco... convence a sair para mercados que não são bons. Alguém que vá contar histórias pra família que deixem eles contra o clube. Isso vai acontecer, estatisticamente, vai acontecer. Pelo baita trabalho que o Noval fez, isso nunca aconteceu.

São muitos empresários que atuam na base ou o mercado é dominado por poucos?

Essa é uma preocupação dos pais. Alguns perguntam se nós priorizamos algum empresário. O que eu respondo é que a gente tem uma planilha com os nomes de todos os empresários e os respectivos atletas. Se você analisa esses dados vê que eles são os mesmos que atuam no mercado profissional, são os mais conhecidos. Mas eles têm tanto jogadores muito bons, quanto jogadores que não avançam, também, que acabam não vingando. Eles têm quantidade, mesmo. Não necessariamente os melhores. Eles também têm jogadores que não jogam. Isso eu sou absolutamente tranquilo, que não tem preferência por empresário, esquema, na base do Flamengo.

Tem pai que fica chateado porque o filho não joga, mas o que eu posso dizer é que não tem concentração importante (de empresário). O Flamengo não direciona e não temos tido casos recentes de empresário ter atitudes diferentes do que o atleta vislumbra. Óbvio que quando o atleta já está no profissional, é normal ver o empresário dizendo que quer que o jogador jogue, é o trabalho dele. O anormal seria o empresário achar bom o jogador estar parado.

O que vocês têm feito para tentar manter esses jogadores ou fazer com que ao saindo seja bom para o clube?

O empresário vai querer um aumento salarial para o atleta e o Flamengo vai querer ter multas maiores. Isso é negociável. O que é importante financeiramente falando é que um atleta da base, mesmo que eu pague ele bem, em geral, ele custa muito menos em salário do que trazer um atleta já profissional para ser reserva. Ele vai me custar muito mais que um menino novo com potencial de venda muito maior.

Tem ficado mais caro, as negociações têm sido mais duras. Mas o empresário sabe também que o Flamengo paga em dia, não enrola empresário, o entende como uma parte da cadeia... ele quer estar com o Flamengo, quer fazer negócio.

Mas depois do Vinícius Júnior vocês tiveram de aumentar as multas?

A realidade do mercado mudou. O Vinícius tinha uma multa de 30 milhões de euros quando fez 16 anos, no seu primeiro contrato (em 2016). E o negócio ainda saiu por 45 milhões, 50% a mais. E isso trouxe uma nova realidade. Quando fomos fazer a multa do Reinier (jovem da base) é de 50 milhões de euros. A multa do Paquetá, também. As multas internacionais estamos tendo de aumentar, sim.

O Reinier é o jogador que se algum clube perguntar ´vocês têm um Vinícius Júnior 2´, é ele. Pra ele, essa multa tem de valer, mesmo.

A base virou a salvação dessa temporada, inesperadamente?

Esse diagnóstico é do Noval, do Lomba e do profissional. Sempre falamos internamente que tínhamos qualidade vindo, que os jogadores estavam prontos. A minha felicidade é ver um primeiro tempo contra o Palmeiras de um Jean Lucas, de que eu sou muito fã, espetacular. A zaga Léo Duarte e Thuler dois monstros, muito maduros. Eu não vejo a base, nunca, ser solução sozinha. Ela é para compor elenco.  

Como é a cabeça do jogador que vem da base?

Lapidar esses talentos é um desafio técnico e o que chamam de valências do jogo: parte tática, cognitiva, mental, física. Quando chega um jogador de fora, com 16 anos, mesmo que seja melhor tecnicamente, por isso tá vindo, a parte física, psicológica e tática está muito mais enraizada nos que já estavam aqui. O conteúdo, a formação tática ajudam muito.

O que eu vejo no jogador da base é que a identificação e a paixão deles é um diferencial que não deixam a camisa pesar. Eles saberem que a família deles, que é rubro-negra, está no Maracanã vendo eles jogarem, pra mim, isso é um diferencial.

De onde vêm a maior parte dos jogadores da base? E com qual idade chegam ao clube na maior parte?

Escolinha ainda não é nosso maior fornecedor. A gente quer melhorar isso. A maior parte vem por indicação dos observadores.
Até sub-14 vem muita gente. Depois disso já fica mais difícil, quando vem é para compor elenco. Esse ano trouxemos 10 atletas mais de sub 15.

Com 15 anos esse jogador consegue criar identificação com o clube? Vocês têm essa preocupação?

Temos tentando fazer isso. Temos discutido com o GPI (colégio que tem parceria com a base) para eles criarem uma matéria que conte a história do Flamengo. Todo atleta que chega a gente leva ao Museu para conhecerem e tem algo que eu acho que é um ativo enorme pra criar identificação é você ter os CTs todos juntos. Você vê um moleque de 10 anos, que treina uma vez no Ninho por semana e passa pelo campo profissional e vê o Guerrero treinando, o Diego... a base e o profissional treinando juntos é uma conexão poderosa.

(a partir de sub-14, todos os treinos são no Ninho do Urubu. No sub-13, a maior parte é no Ninho, mas os atletas também treinam na Gávea, no futsal)

O que o clube pode melhorar na base?

Acho que precisamos melhorar a captação, nas idades menores e regionalmente. Tem muito a melhorar na gestão física dos meninos. Às vezes tem um menino de baixa estatura, que pode melhorar o acompanhamento em casa na parte de nutrição e física, por exemplo. Precisamos garantir esse acompanhamento em casa para chegar no topo que podemos esperar. Temos de ter mais ciência para ter mais controle e tomar as melhores decisões.

Para nos tornarmos referência na formação, temos de trocar muito com o mundo. Precisamos conhecer a escola portuguesa, inglesa, italiana. O país que a gente mais jogou torneio no ano passado, quando voltamos a jogar competições internacionais foi na Itália. Temos de jogar contra os grandes de lá para melhorar o rendimento. Não adianta jogar contra times que conhecemos só, como os brasileiros.

Esse ano já fizemos seis competições internacionais e ainda faremos uma sétima, na China. Passamos muitos anos sem fazer nenhuma.

O orçamento também aumentou, foi de R$ 12 milhões, para R$ 20 milhões em três anos.

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