Lento, Flamengo volta sem passada

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

A virada da temporada do Flamengo ocorreu no momento em que Mauricio Barbieri apostou em um time com vasta troca de posições e passes, muito pelo chão, pouco pelo alto. A equipe embalou e chegou à liderança folgada do Campeonato Brasileiro. Seria fundamental entender que a volta da paralisação para a Copa do Mundo deveria ser exatamente na mesma batida. Elétrico, vibrante, organizado. Fazendo, de novo, o Maracanã pulsar. Seriam necessários ajustes para isso. O Flamengo os ignorou. E foi duramente castigado em confronto direto pelo topo da tabela, por um pragmático e organizado São Paulo. Derrota de 1 a 0 que fez o time perder a passada do campeonato logo no retorno à realidade.

Marlos Moreno em Flamengo x São Paulo - Foto: Alexandre Loureiro/Getty Images
Campeonatos são definidos em detalhes. Não ignorar sinais é um deles. Pois o Flamengo teve uma enorme sinalização quando o Real Madrid solicitou a apresentação de Vinicius Junior. Diante de um negócio mal amarrado que permitia a saída do garoto no meio da temporada seria essencial contratar um jogador à altura, com impacto na torcida, tentando manter a ponte entre campo e arquibancada. Uma característica forjada com o tempo, naturalmente, por Vinicius Junior. Não era apenas a parte técnica. O garoto era a faísca que despertava o sentimento de um Maracanã berrante. Levantava dos assentos ao pegar na bola e tentar o drible, buscar o fundo. O Flamengo se baseava demais em Vinicius. E parece ter ignorado a sua falta ao assumir o risco de voltar sem um substituto.

Mauricio Barbieri formatou este novo Flamengo ainda no 4-1-4-1 da primeira metade do ano. Marlos Moreno foi à ponta esquerda. É jogador talentoso, que tem um drible menos refinado, mas busca muito mais o meio e a ginga de corpo do que Vinicius. Mudou, então, a característica. Como Renê faz poucas ultrapassagens, o fundo de campo pelo lado esquerdo ficou inabitado, facilitando o trabalho do são-paulino Militão. Sem Cuellar, suspenso, e Jonas, negociado, o Flamengo ignorou mais um dos sinais que o campeonato lhe deu. Romulo, testado e rejeitado por vezes, é opção pouco ambiciosa para quem deseja o título. Lento, dá botes errados na marcação e demora a se ajustar à frente da defesa. Também peca ao dar passes burocráticos. Em vez da fúria de Cuellar, dono do setor e vertical, o jogo iniciava com passes laterais aos zagueiros, obrigando Paquetá e Diego a retornar ao meio, esvaziando o ataque e sobrecarregando os meias. O Flamengo não funcionava.

Houve, claro, incrível mérito do São Paulo. A ideia de jogo de Diego Aguirre desde o início permaneceu clara, um 4-2-3-1 de saída, mas que rapidamente se recolhia em um 4-4-2, apostando nas saídas rápidas de Everton e, principalmente, o estreante Joao Rojas pelos lados. O equatoriano teve campo para jogar. Rever, de volta ao time rubro-negro, mostrou lentidão para acompanhá-lo quando passava por Renê – Marlos pouco voltava para ajudar a marcação. Líder com troca de passes e um jogo incessante em trocas de movimentação, o Flamengo foi mais estático e desde o início chamou a atenção a insistência em bolas longas – talvez reflexo do retorno de Guerrero ao time. Entrincheirado entre os dois zagueiros são-paulinos, ambos com ótima estatura, teve dificuldade. Quando tentava recuar para fazer o pivô era bem acompanhado por Anderson Martins, por vezes até truculento em algumas chegadas para evitar qualquer domínio do peruano.

A maior posse era do Flamengo, que buscou a troca de passes e freou um pouco o jogo aéreo. Rodava a bola de um lado ao outro, mas sem incomodar o São Paulo de fato. Everton Ribeiro, em noite ruim tecnicamente, deu pouca sequência às jogadas com erros bobos. Muito bem fechado pelo meio, evitando tabelas rubro-negras, o São Paulo chamava o time da casa a seu campo e oferecia os lados, justamente para atrair os laterais, dar o bote e disparar com seus pontas. Com o Flamengo muito lento no retorno do sistema defensivo, havia espaços por dentro e por fora. Rojas, em bom lance, driblou Rever como quis e bateu forte para defesa parcial de Diego Alves. No rebote, Everton tocou para fora e deixou o Maracanã preocupado. O Flamengo tinha o domínio. O São Paulo, as melhores chances. O líder, no entanto, estava sonolento, devagar. Quase arrogante ao entender que o gol sairia a qualquer momento. De útil, mesmo, apenas a cabeça de Paquetá no travessão em bola alçada por Diego. Ledo engano.

O segundo tempo trouxe um Flamengo inicialmente com a mesma postura. E, consequentemente, desorganizado. Espaçado, lançando-se ao ataque aleatoriamente. Quase de maneira instintiva, longe do time organizado que somou tantos pontos na tabela. Havia uma vantagem ao time rubro-negro: Jucilei sentiu a coxa no fim da primeira etapa e deixou o campo para a entrada de Lizeiro. Hudson, em noite soberba e que ocupava a faixa da esquerda limitando as ações de Paquetá – lento e disperso – pelo setor, caiu à direita, deixando o garoto em seu lugar. Nem houve tempo para, de fato, o Flamengo aproveitar. O São Paulo aproveitou defesa tão escancarada. Renê tenta o lançamento e Everton rebate para Nenê na frente. O camisa 7 cruza, Romulo tira de forma desajustada e Rever cabeceia para cima. Repare o quanto a jogada seguiu. Ainda assim, o Flamengo não tinha organizado seu sistema defensivo. Hudson tocou para Rojas na direita. O cruzamento saiu certeiro. Renê, lateral-esquerdo, marcava Everton dentro da área pela direita. O ex-rubro-negro mergulhou e tocou para o gol. 1 a 0.

O jogo ao feitio do São Paulo. O time paulista se retraiu ainda mais, tentando manter o Flamengo no máximo até sua intermediária, girando a bola de um lado ao outro. Talvez antes da Copa do Mundo, o Flamengo tocasse a bola até achar espaços, com maior calma. Este Flamengo pós-Copa, não. Estabanado, nada confiante, passou a alçar bolas à área. Barbieri, então, mexeu. Primeiro sacou Marlos Moreno para promover a estreia do colombiano Uribe. Na prática, um 4-1-3-2, com um amarelado Romulo reticente à frente da zaga, a trinca de meias e Uribe ao lado de Guerrero. O novo reforço mostrou qualidades. Movimentou-se bem, achou espaços e deu opção aos companheiros. Mas perdeu gol claro em rebote de Sidão após chuque de Paquetá – talvez por ainda estar frio, talvez por estar nervoso. Parece ser uma boa nova, ainda assim. E torna improvável a permanência de Guerrero, em noite ruim, bem marcado e pouco agressivo.

As últimas cartadas de Barbieri indicou que o Flamengo não se atentou a mais um detalhe: os reforços são necessários em posições além da de Vinicius e Cuellar. Ao esticar Matheus Sávio na direita e Trauco na esquerda, o técnico tentou trabalhar com o que tinha e formar um 4-4-2 com intensas bolas cruzadas na área dominada por Arbeloa e Anderson Martins. Foram 42 cruzamentos em todo o jogo, segundo o Foostats. Na prática, sem volante e Diego e Paquetá por dentro, o Flamengo formou um bagunçado e ansioso 4-2-4, afoito pelo gol de qualquer maneira. Foi insuficiente mesmo com algumas oportunidades cedidas pelo São Paulo, cascudo e consciente do tamanho da vitória no Maracanã. Fez o jogo que lhe julgava melhor, com um excesso de cera e quedas sucessivas de jogadores. Aí o ponto negativo do jogo.

O desconhecido árbitro paranaense Paulo Roberto Alves Junior não conseguiu controlar a partida. Ignorou um pênalti para o São Paulo, de Romulo, ao pular de braço aberto na área rubro-negro. E fez o Flamengo reclamar, com razão, da conivência com o excesso de cera dos paulistas. Mesmo com seis minutos de acréscimos, o objetivo do time que opta pela cera é alcançado sem qualquer tipo de advertência: o jogo foi picotado, impedido de fluir com o seguido cai-cai. Característica não apenas são-paulina, mas dominante no futebol brasileiro. Com uma arbitragem tão fraca, floresceu. Não foi, obviamente, determinante para a merecida vitória do São Paulo.

O Flamengo voltou ao Campeonato Brasileiro e falhou. Perdeu ligação pulsante com a arquibancada e mostrou deficiências conhecidas no elenco e não sanadas em um mês de paralisação e verba em caixa depois das vendas de Vinicius Junior, Felipe Vizeu, o algoz Everton e a recisão de Reinaldo Rueda. A tarefa da diretoria é agir para impedir que o clima altamente positivo instaurado murche de vez com uma eventual perda de liderança, agora mantida com a vantagem mínima de um ponto na tabela. O Flamengo segue no topo. Mas logo no primeiro e fundamental confronto na volta da paralisação do calendário, perdeu a passada. Convém acordar para não tropeçar de vez.

Mas logo no primeiro e fundamental confronto na volta da paralisação do calendário, perdeu a passada.

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